sexta-feira, 29 de agosto de 2025

Um paralelo entre o clássico do “Pequeno Príncipe” e as palavras de Papa Wojtyla

Um paralelo entre o clássico do “Pequeno Príncipe” e as palavras de Papa Wojtyla



Publicado pela primeira vez em 1943, ‘O Pequeno Príncipe’, apesar de destinado ao público infantil, se tornou um clássico para todas as idades.

O livro narra o encontro de um piloto de avião com um menino, habitante de um asteroide, que viaja pelo universo. Com diálogos cheios de reflexões, a obra tem como um dos temas centrais o valor da amizade. 

“Quero o bem para ti, como o quero para mim” é a fórmula que poderia definir a amizade, segundo Karol Wojtyla em sua obra “Amor e Responsabilidade”.

Para ele, a amizade “consiste num compromisso da vontade a respeito de outra pessoa, em atenção ao seu bem”. É um processo que exige “reflexão e tempo”. O autor difere a amizade da camaradagem, e ressalta que colegas/camaradas podem ser muitos, enquanto amigos pertencem a um grupo mais seleto.

“Foi o tempo que perdestes com a tua rosa que a fez tão importante”, diz a raposa ao menino. Para Wojtyla, esse é o primeiro ponto: o compromisso da vontade. 

O principezinho compreende que a rosa era diferente de todas as outras por simplesmente ser ela. Ele poderia olhar para muitas outras, mas a sua era única. Mesmo as suas falhas, queixas e vaidades não a diminuíram. Ela era irrepetível. Isso lhe motivava a se determinar por ela, e a amá-la de forma concreta, lhe dedicando o seu tempo. 

Uma amizade verdadeira se inicia quando os amigos se entendem como pessoas únicas e irrepetíveis, dignas de um compromisso da vontade, de uma determinação, justamente por serem quem são. 

O amigo é aquele que é capaz desse olhar diferente: consegue contemplar o mistério da pessoa, e por isso não quer “desperdiçar” o outro. Entende bem a máxima de Jesus: "Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida pelos seus amigos (cf. Jo 15,13)." 

Mas não basta a determinação, é necessário ter em vista qual é a sua finalidade: segundo Wojtyla, a atenção ao bem do amigo. 

Qual é o bem supremo pelo qual ansiamos com todo o nosso coração?

O próprio Deus. 

O verdadeiro amigo deseja ao outro a comunhão com a Trindade, e luta para que a encontre. A verdadeira amizade tem como maior preocupação a salvação e santificação dos amigos. Isso se dá porque se possui a compreensão de que o amigo é alguém único, criado para o amor e de quem sou responsável pelo dom que é e que a mim foi confiado. 

Aqui está o terceiro ponto fundamental: a responsabilidade. 

“Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável pela tua rosa...”. De início esta frase pode assustar e parecer coercitiva. Mas, Wojtyla nos explica que todo ato de amor implica responsabilidade. Se amamos, somos responsáveis, chamados a criar a “consciência do dom recebido, que deve ser guardado”. 

Diante dos nossos amigos não podemos ter uma compreensão diferente. Aquele que está diante de mim não é algo, mas alguém. Alguém que carrega um mistério, incomunicável, que nem ele entende plenamente, e que deve ser reverenciado ao ser amado, ou seja, em um compromisso da vontade que visa o seu bem

R.I.P. Íris Lettieri

Íris Lettieri

 


Íris Lettieri Costa (Rio de Janeiro26 de agosto de 1941 – Rio de Janeiro, 28 de agosto de 2025) foi uma locutora brasileira, que no passado já atuou também como cantoraatriz e modelo. Primeira mulher a atuar como locutora de telejornais no País, "a voz do aeroporto" com seu estilo indiscutível, marca e destaca comerciais de produtos e serviços no rádio, na televisão e nos vídeos de todo o Brasil.[1]

Biografia

Filha única do alagoano José Avelino da Costa, um ex-locutor da antiga Rádio Cruzeiro do Sul, e da potiguar Josélia Lettieri, uma professora de piano, teoria, harmonia, canto e dicção.[2] Seu avô materno, Guglielmo Lettieri, foi cônsul honorário da Itália em Natal durante a Segunda Guerra Mundial, tendo sido condenado a catorze anos de prisão por espionagem.[3][4]

Começou sua carreira como locutora de rádio, no final dos anos 50, tendo posteriormente trabalhado também como locutora de telejornais na TV Tupi do Rio, na locução do telejornal Perspectiva e mais tarde no Rede Tupi de Notícias. Fez parte do primeiro time do Jornal da Manchete da Rede Manchete, em 1983, que em seus primeiros meses era transmitido por 3 horas. Íris apresentava, junto com Jacyra Lucas, as notícias de cultura e entretenimento. Em 1984 passou a entrar no ar, como apresentadora do Manchete Panorama, antes do Manchete Esportiva, quando o Jornal da Manchete se desmembrou em programas temáticos. No ano seguinte, seu programa foi extinto. Íris ainda participou do Programa de Domingo, da mesma Rede Manchete.[2]


Ficou mais conhecida como "a voz do aeroporto", pois da década de 1970 até a sua morte foi a locutora oficial do Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro (conhecido como Galeão ou Antonio Carlos Jobim), do Aeroporto Internacional de São Paulo - Guarulhos e outros quatro aeroportos. Seu timbre aveludado era inconfundível, passando uma sensação de tranquilidade e até mesmo sensualidade.[1] Íris afirmou ter criado essa entonação de voz para a locução feita nos aeroportos propositalmente, visando a acalmar os passageiros que têm medo de voar. Sua voz, por ser tão peculiar, já foi assunto de várias reportagens na imprensa internacional.

Em 1992, o conjunto musical americano Faith No More incluiu, sem a permissão de Íris, a gravação de sua voz na faixa Crack Hitler, do CD Angel Dust. Íris Lettieri tentou processar o grupo, porém sem sucesso.[5]

Íris também fez gravações de anúncios de próxima parada para o sistema BRT do Rio de Janeiro em 2016, que à época era composto dos corredores TransOeste e TransCarioca.[6]


Morreu na tarde de 28 de agosto de 2025 aos 84 anos, vítima de um infarto fulminante.[7]

Prêmios

·         Melhor locutora[carece de fontes]

·         Melhor apresentadora de telejornais[carece de fontes]

·         Personalidade Aeroportuária, concedido pela Infraero (1995)

·         Abrajet - Rio - Selo de Qualidade do Conselho de Turismo (1995)

·         Medalha Pedro Ernesto, concedido pela Câmara dos Vereadores - a mais importante comenda ofertada pela Cidade do Rio de Janeiro (1996)

segunda-feira, 25 de agosto de 2025

O cemitério de meu pai

O cemitério de meu pai

 


Paloma Amado

Foi nos anos 90, ia ser concedido o Prêmio Camões em Lisboa, onde eu estava com meus pais, hospedados no hotel Tivoli. Havia muito rebuliço no dia da reunião do júri para a premiação. Estavam, vindos do Brasil, três membros da Academia Brasileira de Letras. Vinham com cartas já marcadas, precisavam derrotar Jorge Amado, candidato que os portugueses tinham escolhido. A reunião foi feia, foram os jurados portugueses que contaram o quanto aquela troika (no linguajar deles) fora determinada, a reunião não teria um final feliz, caso insistissem no nome do baiano. Outra pessoa ganhou. Logo depois, estávamos andando pelo saguão do hotel, quando o líder do grupo brasileiro veio em nossa direção de braços abertos, gritando:

— Jorge querido, que prazer encontrá-lo aqui!

Eu, que também o tinha na minha frente, desguiei para a esquerda e subi para o meu quarto, deixando seu Jorge sozinho para acolher a mão estendida do cidadão. Daqui a pouco papai chegou rindo, me perguntou se eu tinha saído de fininho porque ficava feio negar cumprimento. Confirmei e ele riu mais ainda. Virou para mamãe e disse:


— Paloma é igualzinha a mim…

Rebati que não era, eu nunca mais cumprimentaria aquele pulha, que sempre se fizera de tão amigo. Foi então que ele me falou pela primeira vez de seu cemitério. Disse mais ou menos assim:

— Minha filha, quando eu tinha a sua idade também saía de perto e negava cumprimento. Nunca fui de dizer desaforos, pois cada um age por sua cabeça, e se a criatura quer ser um safado sem carácter, é direito dele. Você está assim agora, eu já evolui, criei meu cemitério particular.

— Cemitério, pai?

— Sim, quando o amigo se mostra um filho da puta, injusto, sem carácter, eu simplesmente o enterro no meu cemitério particular e junto com ele todo o rancor, a raiva e os maus sentimentos que um canalha desses pode fazer brotar na gente. Assim fico livre dele e do mal que pensa que me está fazendo. Eu o encontro, vem sorridente, eu o cumprimento, mas ele não sabe que estou falando com um fantasma, alguém que já não existe, que não pode me fazer mais nenhum mal.

Desde então, já se passaram mais de 30 anos, eu tento colocar as pessoas que me ferem, os falsos amigos, num cemitério meu, mas o rancor é maior, e eu fico remoendo as coisas, sofrendo, doída. Fico não, ficava!
Semana passada tive muito aperreio, muita tristeza, via a aproximação de um desfecho triste para mim devido a pessoas a quem já amei com meu sangue. Chorei um dia inteiro, daqueles choros que a gente não controla, as lágrimas pulam longe, depois escorrem, a gente funga e se pergunta porque fizeram aquilo. Dormi. Meu pai veio. Nesses 24 anos de sua ausência física, ele sempre me socorreu nos momentos mais difíceis. Pois ele veio. No sonho sentamos em torno de uma mesa colocada no jardim do Rio Vermelho, bem junto ao muro que separa sua casa da casa que foi de João, meu irmão. De mãos dadas, desabei sobre ele todas as tristezas. Ele me disse em tom sério, de quem vem do lugar em que se consolida a sabedoria da vida:

— Não se preocupe nem um minuto, minha filha. Nenhuma dessas pessoas vale uma lágrima sua, estão todas mortas. Confie em mim. Já morreram.

Acordei assustada, que sonho mais macabro, todos mortos. Depois vi que ele se referira à morte para que eu me animasse a finalmente fazer o enterro, delas e de outros mais que me tapearam pela vida afora. Sem esquecer de junto enterrar o rancor e o ressentimento. E de quebra enterrar o medo e a insegurança.

Assim eu fiz. E fiquei alegre, em paz de uma maneira que eu não me sentia há muito tempo.

Então saí da toca e fui encontrar amigos realmente queridos. Levei Jamil Chade para visitar a casa do Rio Vermelho, conversamos, demos risadas, trocamos carinhos. Finalmente aceitei o convite de Lícia Fábio (que é uma querida, quer me ver bem e insiste faz é tempo para eu sair de casa ) e fui jantar com ela, Fafá de Belém e Mariana, que não via há anos. Nesta última sexta-feira voltei à Rua Alagoinhas levando Margareth Dalcomo (o Sol que nos iluminou durante a pandemia e continua nos iluminando), que eu não conhecia pessoalmente, mas com quem convivo no Libeli , grupo do Afonso, e de quem sou uma ardorosa admiradora. E ela ainda trouxe sua irmã Beth, outra pessoa linda e querida. Mostrar minha casa para elas, contar minhas histórias, ouvir as suas foi especial. Foi tão maravilhoso, penso que viramos amigas de infância! Como a vida é generosa comigo!
Ia esquecendo! No meio disso tudo foi meu aniversário de 74 anos. Tive a festa surpresa anual feita com carinho pela comadre Gal com ajuda de Beto, mas pedi que fosse mais cedo esse ano, pois tive que fazer nesse dia uma pequena cirurgia (presente de aniversário!). Aproveito a crônica para agradecer aos muitos amigos que se manifestaram por aqui, fiquei feliz com cada palavra. Obrigada, amigas e amigos.

A amizade sempre será o sal da vida, e se alguma coisa estragada quiser se misturar nesse tempero, o melhor é catar, jogar fora no lixo e esquecer que existe.

Bom domingo a todos.

Em tempo: contei do cemitério de papai porque ele mesmo o fez no livro Navegação de Cabotagem. Escreveu assim:

Tenho horror a hospitais, os frios corredores, as salas de espera, ante-salas da morte, mais ainda a cemitérios onde as flores perdem o viço, não há flor bonita em campo-santo. Possuo, no entanto, um cemitério meu, pessoal, eu o construí e inaugurei há alguns anos quando a vida me amadureceu o sentimento. Nele enterro aqueles que matei, ou seja, aqueles que para mim deixaram de existir, morreram: os que um dia tiveram minha estima e a perderam.

Quando um tipo vai além de todas as medidas e de fato me ofende, já com ele não me aborreço, não fico enojado ou furioso, não brigo, não corto relações, não lhe nego o cumprimento. Enterro-o na vala comum de meu cemitério — nele não existem jazigos de família, túmulos individuais, os mortos jazem em cova rasa, na promiscuidade da salafrarice, do mau caráter. Para mim o fulano morreu, foi enterrado, faça o que faça já não pode me magoar.

Raros enterros — ainda bem! — de um pérfido, de um perjuro, de um desleal, de alguém que faltou à amizade, traiu o amor, foi por demais interesseiro, falso, hipó­crita, arrogante — a impostura e a presunção me ofendem fácil. No pequeno e feio cemitério, sem flores, sem lágrimas, sem um pingo de saudade, apodrecem uns tantos sujeitos, umas poucas mulheres, uns e outras varri da memória, retirei da vida.

Encontro na rua um desses fantasmas, paro a conversar, escuto, correspondo às frases, às saudações, aos elogios, aceito o abraço, o beijo fraterno de Judas. Sigo adiante, o tipo pensa que mais uma vez me enganou, mal sabe ele que está morto e enterrado.

sexta-feira, 22 de agosto de 2025

A Cronica de Walmir Rosário

 

FESTEJAR 80 ANOS É POUCO, DURVAL JÁ PLANEJA OS 90

Durval Filho é homenageado na Igreja Adventista 

Por Walmir Rosário*

Dizem que algumas frases são como flechas atiradas. Jamais voltam, e nunca serão esquecidas, apagadas do mapa ou da memória das pessoas, embora não façam mal ou bem correm o mundo. E foi justamente o que aconteceu com o coleguinha das redações (desculpem a audácia), Nélson Rodrigues, com algumas de suas mais conhecidas frases de efeito.

E essa – bastante repetida –, “toda a unanimidade é burra”, acredito que Nelson a criou por não ter tido a oportunidade de conhecer o canavieirense Durval Pereira da França Filho, ou simplesmente professor Durval. E não é que ele – Durval – completou 80 anos em 11 de agosto último, cercado de amigos forjados ao longo de sua vida.

Aproveitou o sábado (09-08) para comemorar a data nas formas religiosas e profana. Pela manhã, culto na Igreja Adventista, da qual é membro desde os 8 anos de idade, se não fui traído pela data. À noite, reuniu amigos de Canavieiras e de outras cidades, muitos presente para abraçar o mestre e o colega num clube da melhor idade, entre eles eu e Raimundo Tedesco.

Assim que sua família deixou a fazenda pras bandas de Jacarandá e se transferiu para a cidade de Canavieiras, Durval se dedicou à religião, às letras, à cultura. Ainda menino, buscou recuperar os anos perdidos fora da escola, quando na roça, cursando o antigo primário e o ginásio em tempo recorde, para surpresa dos colegas e professores.

Antes de colocar na parede o quadro com o primeiro diploma já lecionava e continuou com sua paixão pela educação por toda sua vida. Professor da escola da Igreja Adventista do Sétimo Dia, do Colégio Estadual Osmário Batista, Colégio Presbiteriano João Calvino, Faculdade Santo Agostinho, em Ipiaú. É lembrado como professor de cursinhos pré-vestibular, cujos alunos o agradecem até hoje pela formação. Também é um dos fundadores da Academia de Letras e Artes de Canavieiras (Alac), e foi secretário de Cultura e diretor da Biblioteca Afrânio Peixoto, em Canavieiras.

Mais que um simples professor, Durval nunca se limitou a ensinar a matéria de sua responsabilidade e sim formar o caráter das pessoas, a importância da educação física na massa corporal e na arte de pensar. E eles o agradecem, penhoradamente, pela formação e o cobraram por não ter incluído o futebol de campo nos eventos neste aniversário, como na comemoração dos 70 anos.

Empregado aposentado do Banco do Brasil, Durval Filho estudou Filosofia na Faculdade de Filosofia de Itabuna (Fafi), mas não conseguiu completar o curso por incompatibilidade com o horário de trabalho. Anos depois retorna à Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc), gradua-se em História e, em seguida, especializa-se em História Regional. Logo depois se torna Mestre em Cultura e Turismo pela Uesc, em parceria com a Ufba. Na conclusão do mestrado apresenta a dissertação “Belmonte, Memória, Cultura e Turismo: numa (re)visão de Iararana”, de Sosígenes Costa.

Na literatura, Durval Filho não se limita aos temas históricos e escreve diversos livros sobre a história de Canavieiras, com destaque para Canavieiras Terra Mater do Cacau, em coautoria com Aurélio Schommer. Também são de sua lavra Pelos Caminhos da Fé, aspectos da cristianização católica na história de Canavieiras, além de Temas e Tempos Diversos, dedicados à poesia.

Nos próximos dias o professor Durval nos brindará com o livro Nos Escrínios da Memória, no qual revela passagens preciosas, do próprio punho, sobre a trajetória de uma pessoa simples, observadora, inteligente, que traçou um modo de vida e o seguiu fielmente, sempre atento às possibilidades. Um chefe de família exemplar, um homem de muitos amigos, entre eles uma imensa legião de ex-discípulos.

Centrado em Canavieiras, percorreu uma banda do mundo em busca de novas culturas, mais conhecimento e novos amigos, com os quais se corresponde, especialmente sobre literatura. Casado com Maria Lúcia Nonato França, é pai de Cassius Marcelus, Lísia Cláudia e Lúcio Marcus Oliveira de Nonato e França, e avô de Brunna, Rafael, Diogo, Maria Eduarda, Ana Cássia e João Gabriel.

Durval Filho é aquela pessoa que todos o querem como amigo. Sabe ouvir, opinar, aconselhar, trocar uns dedos de prosa sobre qualquer assunto. Adventista, sempre que chamado vai à Igreja Católica falar sobre a história de São Boaventura, bem como em outras igrejas protestantes, Loja Maçônica, dentre outras instituições.

O botafoguense Durval Filho, ladeado pelos filhos e netos

Botafoguense, fez questão que o bolo de aniversário fosse elaborado com as cores e a estrela solitária do time de sua predileção. Apesar de abstêmio, coleciona centenas de amigos que cultuam o esporte etílico. Destes recebem convites para comparecer à Confraria d’O Berimbau numa visita eminentemente histórica. Dá uma risadinha, mas por lá nunca deu as caras.

Mas como o inusitado sempre acontece, ao defender sua Dissertação de Mestrado, Durval se encontra com um dos componentes da Banca Examinadora, o Professor-Doutor Jorge Araujo, ex-colega da Fafi e amigo. Lá pelas tantas, Jorge Araújo ressalta as qualidades de Durval, seu parceiro de muitos anos de farras, intelectual de primeira qualidade.

Na plateia, a família de Durval acompanhava tudo com muita atenção e as palavras de Jorge soaram como um terrível desatino. No retorno a Canavieiras, Jorge Araujo pega uma carona até Ilhéus e Durval, ainda abismado, resolve esclarecer a dita parceria nas farras. Sem pestanejar, Jorge responde:

– Ora, Durval, não se preocupe, foi apenas um artifício corriqueiro utilizado para deixar os professores e o mestrando à vontade. Não se preocupe –.

E todas as dúvidas familiares foram esclarecidas.

*Radialista, jornalista e advogado

terça-feira, 19 de agosto de 2025

A Cronica de Walmir Rosário, MAIS UMA ESTAÇÃO EXPERIMENTAL DA CEPLAC É INVADIDA

 

MAIS UMA ESTAÇÃO EXPERIMENTAL DA CEPLAC É INVADIDA

Dendezeiros Unauê da Estação Lemos Maia

Por Walmir Rosário*

Instituição que representou um modelo de inovação na agricultura brasileira, desempenhando um papel na Extensão, Pesquisa e Educação, atualmente passa por inimagináveis percalços. Um deles é o envelhecimento do quadro de pessoal das áreas científica, administrativa e operacional, que a torna incapaz de gerenciar sua estrutura, haja vista o pequeno número de pessoal na ativa.

Com isso, a instituição antes motivo de orgulho estatal na cacauicultura nacional, hoje sofre invasões em suas estações experimentais, locais praticamente sem pessoal. A primeira a sofrer esse tipo de ação foi a Joaquim Baiana, em Itajuípe; a segunda foi a do Extremo Sul, localizada em Itabela; e a mais recente, a Lemos Maia, em Una.

Embora a direção da Ceplac tenha agido junto à Polícia Federal e ao Judiciário para retomar a posse, alguns prejuízos são causados pelos invasores, notadamente na execução das ações de pesquisa nelas desenvolvidas. Em todas elas – ainda ativas – pesquisadores desenvolvem projetos sobre cacauicultura, pecuária e café, em Itabela; e solos, cacau e dendê, na Lemos Maia, invadida na semana atrasada.

Mesmo contando com uma equipe reduzida, os técnicos ceplaqueanos vêm obtendo resultados positivos nas pesquisas em desenvolvimento, cujos riscos da permanência das invasões poderão causar prejuízos incalculáveis. A Estação Experimental Lemos Maia (Esmai) sedia pesquisas com o dendê, local onde está implantado o único banco de germoplasma do nordeste.

O receio é que as melhores mães Caiaué (Elaeis oleifera), que quando cruzadas com as plantas africanas, dá uma palmeira híbrida que produz o azeite batizado de Unauê. Esse azeite possui menor quantidade de ácidos graxos livres do que o óleo do dendezeiro, por isso é um azeite com menor acidez e melhor qualidade. É também mais insaturado e com maior teor de vitamina “E” e carotenos que o óleo do dendezeiro.

Essas ações promovidas por grupos ligados ao Movimento Sem-Terra e indígenas vêm se intensificando nos últimos anos no Brasil, e nas áreas da Ceplac podem ficar mais facilitadas pela burocracia estatal. Embora a invasão de terras públicas seja um crime previsto no ordenamento jurídico, esses grupos parecem não temer as consequências jurídicas.

Em diversas regiões do Brasil (não parece ser o caso em Una), geralmente as invasões são seguidas de destruição de material genético, o que causa prejuízos consideráveis em recursos financeiros de investimento e custeio, e o que é mais grave: a perda de dados e do material, inviabilizando anos de pesquisa. Perdem-se o capital público ou privado investido, além do conhecimento científico.

O dendezeiro, que é a segunda planta mais eficiente no sequestro de carbono (logo abaixo do eucalipto), também poderá perder sua importância comercial caso não seja protegida por políticas públicas. Todo o trabalho realizado com o dendê pela Ceplac na Esmai perderá significado por falta de ações governamentais da União e Estado da Bahia, pela simples falta de incentivo na substituição das plantas antigas pela Unauê.

Com a morte por inanição programada para a Ceplac, melhor seria repassar essas áreas para entidades governamentais afins, como a Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc); Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB); Embrapa, a grande responsável pela hibridação desse dendê; dentre outras instituições. Essa transferência seria mais do que viável, haja vista que parte das propriedades da União (Ceplac) passa por transferência de doação a prefeituras e demais órgãos governamentais.

Ainda é tempo que as lideranças regionais possam despertar para contribuir com ações focadas no desenvolvimento do Sul e Extremo Sul da Bahia, antes que seja conhecida como a terra do já teve. Quem sabe, dar tratamento igual aos particulares ou agricultores que são fiscalizados constantemente e multados por qualquer agressão ao meio ambiente também funcionaria.

Radialista, jornalista e advogado.

sábado, 16 de agosto de 2025

COITADO, DE UMA SÓ VEZ SOFRE ACIDENTE E DEBOCHE

 

COITADO, DE UMA SÓ VEZ SOFRE ACIDENTE E DEBOCHE

A Composer da IBM era o sonho de qualquer digitador

Por Walmir Rosário*

Nisvaldo Damasceno era uma figura ímpar. Nascido em Anuri, distrito de Arataca, chegou ainda menino em Itabuna e logo se ambientou no bairro da Conceição. Bom aluno, sempre passava de ano com distinção e louvor nos cursos primário e ginasial. Era reconhecido pela sua intimidade com o a gramática portuguesa, matemática e outras disciplinas.

Com a mesma intensidade em que se debruçava nos livros se ambientava bem nos bares da vizinhança, que para ele não era apenas um local onde se praticava o esporte etílico, mas também a poesia. Enquanto apreciava as cervejas geladas declamava com intimidade os versos de Gregório de Matos, Castro Alves, Sosígenes Costa e outros que tais.

Exímio na datilografia e na língua portuguesa, desde cedo se especializou nos textos cartorários. Datilografava compromissos, escrituras de compra e venda e as certidões mais diversas, com o mais legítimo português adaptado aos termos jurídicos, sem erros e em tempo recorde, impressionando os serventuários dos cartórios extrajudiciais e clientes.

Enquanto trabalhava as pessoas ficavam embasbacadas ao acompanharem a velocidade com que seus treinados dedos batiam nas teclas, além do movimento que fazia na alavanca para dar o espaço vertical, imprimindo um barulho característico. Com um simples toque numa das teclas movimentava o cilindro para frente criando parágrafos. Parecia que as finas teclas da máquina iriam derreter diante da rapidez de movimentos. Era um assombro.

E o seu conceito de excelente datilógrafo ganhou a cidade de Itabuna, tanto assim que volta e meia faturava mais do que o salário do cartório com os serviços particulares, prestados fora do expediente. Mais dinheiro no bolso permitia a Damasceno dar bordejos pelos cinemas, bares, enfim, frequentar os melhores divertimentos que a Itabuna da década de 1950/60 dispunha.

E o seu conceito profissional chegou às grandes empresas. Com a ampliação da Ceplac logo foi convidado a trabalhar na Divisão de Comunicação (Dicom), como copy desk, revisando textos, muitas das vezes transferindo-os dos pesados gravadores para o papel as matérias trazidas pelos repórteres para a produção de releases, jornais e livros.

Numa simples máquina de datilografia (Royal, Underwood, Remington, Olivetti, Corona, Hermes), Damasceno conseguia tirar recursos inimagináveis, e assim passou a ministrar cursos internos na Ceplac. Quando a Ceplac comprou uma IBM Composer (de esfera) ele foi o primeiro a trabalhar com ela. Sentia-se como dirigisse um Cadilac do ano, zero quilômetro.

E Damasceno era aquele colega para toda a obra. Festeiro por excelência, às sextas-feiras iniciava farras homéricas no Beco do Fuxico, especialmente no ABC da Noite, do Caboclo Alencar, onde era um dos mais famosos alunos repetentes. No bar de Dortas disputavam as poesias com o dono do bar até que o último freguês resolvesse abandonar o ambiente.

Para Damasceno a noite era uma criança e qualquer porta aberta com garrafas cheias e geladas para ele era um abrigo. Nos locais que ainda não era conhecido, já com a alegria em alta, não pestanejava em dizer que era de boa paz, gente de bem, e dono da empresa que tinha dezenas de jipes pretos rodando pelo sul da Bahia. Eram os jipes da Ceplac.

E tudo que Damasceno fazia era com disposição, muitas vezes amanhecendo o dia na Dicom tirando os textos dos nossos gravadores e revertendo-os no papel para a diagramação, amparado por um galão térmico com café. Certo dia termina sua empreitada e pega uma carona para casa, na qual descansaria até o meio-dia e retornaria à tarde para uma nova rodada de trabalho.

Na esquina da avenida Amélia Amado com a São Vicente de Paula, no conhecido canal da Amélia Amado, desce do carro da Ceplac, agradece a carona e dá meia volta para se dirigir ao seu lar. Eis que de repente surge um fusca desgovernado que o atinge e lhe joga no canal, fugindo sem prestar socorro. Com sono e agora todo sujo pelo esgoto, inicia a subida pelo talude e ao chegar na calçada, uma multidão lhe olhava com desdobrada atenção.

– Olha aí, em plena manhã já com a cara cheia de cachaça cai no canal –, o esculachavam sem conceder o mínimo direito de defesa. Um deboche e fake news.

Não restou alternativa ao amigo Damasceno do que ir a pé até sua casa, tomar banho, dormir um pouco e retornar ao trabalho logo após o almoço, para encarar os imensos textos que teria que “bater” (digitar) na IBM Composer e revisá-los para as publicações ceplaqueanas.

Nem mesmo o inusitado acidente o desviou de sua responsabilidade.

*Radialista, jornalista e advogado.

sábado, 9 de agosto de 2025

A CRONICA DE WALMIR ROSÁRIO - DIRETO DE CANAVIEIRAS FUI OBRIGADO A INTERROMPER MINHAS FÉRIAS

 

FUI OBRIGADO A INTERROMPER MINHAS FÉRIAS

 
Lançamento do livro O Berimbau - valhacouto dos boêmios

Por Walmir Rosário*

Em plena manhã desta sexta-feira, 8 de agosto, me senti abatido, diria até exausto, em meio a um estudo comparado de rituais com vistas à elaboração de uma peça. A cabeça, os miolos, ou sei lá como explicar, ferviam com o vai-e-vem da leitura, justamente num dia considerado o início do fim de semana nos bares e botequins da vida.

Resolvi dar um tempo e me entreter assistindo ao filme “Meu Vizinho Adolfo”, iniciado na noite passada. De repente, ouço alguém bater à porta se passando por um entregador de uma dessas empresas internacionais de vendas pela internet. Desconfiado, pois não esperava a chegada de encomenda, mesmo assim abro o portão e encontro o amigo e irmão Arenilson.

Após risadas e o costumeiro abraço, me entrega um presente trazido em seu passeio pelas bandas de Bom Jesus da Lapa e Correntina: um litro da preciosa aguardente, ou melhor, cachaça, com o nome de Brejeira. Eu esperava um tijolão de rapadura, conforme promessa feita, mas resolvi não reclamar, haja vista a superioridade do regalo.

Enquanto examino o “precioso líquido”, adjetivo proibido nas boas redações, recebo, via whatsapp, o estímulo do amigo Toncar, direto de Campo Formoso, dando conta que o relógio badalava 11 horas, horário de abrir os trabalhos com o toque de um pequeno sino. Transmiti uma foto da Brejeira pra ele, que fez questão de me garantir que era uma das cachaças de sua predileção.

Confesso que minha estranha sexta-feira com o trabalho de pesquisa e nenhuma perspectiva de encontrar os amigos ao meio-dia em pino nos botecos bateu imediatamente em retirada. Guardei os rituais e escritos e me dirigi à cozinha para providenciar alguns tira-gostos à altura do presente recebido, alterando a rotina com um adeus em alto e bom som ao trabalho.

Muito reservadamente posso contar para você que me concedi férias há pouco mais de dois meses, após o trabalho estafante de editar o livro “O Berimbau – Valhacouto de Boêmios”, já impresso. Após alguns adiamentos, finalmente, no dia 26 de julho passado, realizamos o lançamento em grande estilo, no Mac Vita, um dos nossos mais acolhedores abrigos em Canavieiras.

De uma vez só conseguimos reunir a mais fina flor da boemia canavieirense e das redondezas, com a presença maciça dos membros das gloriosas instituições Confraria d’O Berimbau e do Clube dos Rolas Cansadas, como em tempos pretéritos. Uma festa pra ninguém botar defeito, regada a uma boa cachaça com Cambuí em infusão e cerveja bem gelada, e ao som luxuoso do saxofone de Cadu Perrucho.

Como era do procedimento regulamentar em alguns sábados na Confraria d’O Berimbau, os confrades prepararam com esmero o famoso “Tiquinho”, nome pomposo para os pratos elaborados e colocados à disposição dos estômagos famintos. Como sempre, para subverter a ordem, Trajano Júnior chegou com duas enormes panelas de com pernil suíno e fatada.

Não quero aqui falar mal ou reclamar do evento, mas fui bastante prejudicado por ter que me ater a receber os confrades e familiares, bem como autografar cerca de uma centena de livros, além de posar para as fotos. Enquanto isso os convidados se esbaldavam nas bebidas e comidas e nas rodinhas de bate-papo, lembrando com saudade os velhos tempos.

E eu, que sonhava com um longo período de férias, provando da inatividade e dos benefícios do ócio, fui obrigado a interromper a vagabundagem planejada com bastante esmero. Bem que minha mulher me avisou que essa ideia de aposentado tirar férias se tratava de redundância, no bom português, uma utopia desnecessária de ser sonhada. Realmente, por duas vezes fui obrigado a interrompê-la, mas faz parte da vida.

Com a chegada dos confrades do retiro espiritual em Bom Jesus da Lapa, também interrompido pelos passeios nas cachoeiras e alambiques em Correntina, só me aguardar o irmãozinho Batista. É que ele se recupera dos dissabores da gota de estimação e breve promoveremos uma inspeção nos botecos de Canavieiras. Desta vez, sem interrupção.

*Radialista, jornalista e advogado