sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

A Cronica de Walmir Rosário

 

O RESULTADO DE 7X1 DA ALEMANHA NO BRASIL É FICHINHA

A goleada lendária com 7 gols de Florizel

Por Walmir Rosário*

Digo e repito que a vergonhosa derrota do Brasil para a Alemanha na Copa do Mundo, em 8 de julho de 2014, pelo placar de 7X1, no estádio Mineirão, ainda é vista pelos futebolistas como o fim do mundo. Não nego que foi humilhante, mas nada que abalasse a estrutura do futebol. Em Itabuna foram registrados dois feitos bem maiores e melhores que esse dos alemães, e com pioneirismo.

Bastava uma simples consulta aos anais do futebol de Itabuna – para comparar os feitos –, que a diferença favorece os grapiúnas por larga vantagem. E isso é só o começo. No dia 21 de abril de 1963, data em que se homenageia Tiradentes, o Janízaros goleou o Flamengo (ambos itabunenses) pelo expressivo placar de 7X1, feito considerado marcante no futebol.

Mas aí o distinto leitor pergunta: Qual a diferença nos dois 7X1? Elementar, os 7 gols foram marcados pelo atacante Florizel, façanha considerável, mesmo num jogo amistoso em que as duas equipes itabunenses pretendiam apresentar seus novos jogadores para o campeonato de 1963. Já a Alemanha precisou de cinco jogadores para marcar: Müller, Klose, Kroos (2), Khedira, e Schürrle (2).

Humberto, Luiz Carlos, Ronaldo, Valdemir,
Santinho e Albérico; Gagé, Zequinha Carmo,
FLORIZEL, Tombinho e Fernando Riela.

Na partida em Itabuna, para não perder de zero, o capitão do Flamengo, Zequinha Carmo marcou o gol de consolação. E para a Seleção Brasileira marcou o único tento o jogador Oscar, no finzinho do jogo. Do que fica registrado nas duas partidas, está por mais evidenciada a superioridade do time e jogador itabunense, que marcou sozinho todos os gols da partida.

Na semana que antecedeu ao jogo, a imprensa promoveu a partida com entrevistas dos jogadores e dirigentes, cada qual prometendo demolir seu adversário. Assim que o árbitro Pedro Mangabeira iniciou a partida os dois times evitaram partir para o ataque, estudando atentamente o adversário. Até os primeiros 15 minutos, apenas uma bola foi chutada no gol do Janízaros.

A partir de então, o Janízaros cresceu no jogo e um petardo desferido pelo centroavante Florizel derrubou a casa do Flamengo. A torcida ainda comemorava quando Florizel marca o segundo gol, que valeu como uma ducha fria nos flamenguistas. No segundo tempo o Janízaros se impõe em campo e esmorece a turma rubro-negra.

A partir daí foi uma sequência de cinco gols de Florizel para completar a “conta do mentiroso”, embora todos os 7 gols tenha sido de verdade. E as novas contrações do Janízaros – Zé Hamilton, Santinho, Albérico, Fernando Euvaldo e o goleiro Luiz Carlos, que sequer entrou na partida – mostraram que não chegaram para brincar. Já no Flamengo estrearam o ponteiro Valter, o zagueiro Petito e o meia Arevaldo, que tomaram ciência da responsabilidade.

O Janízaros jogou com Toinho, Zé Hamilton, Alfredo e Almir; Aranha (Albérico) e Santinho; Fernando Euvaldo, Rochinha, Florizel, Xavier (Vitório) e Evaristo. Já o Flamengo atuou com Asclepíades (Zé Carlos), Péricles, Petito e Nélson; Odiel e Abiezer; Valter (Carrapeta), Arevaldo, Zequinha Carmo, Tombinho e Codinho. A renda somou 15 mil Cruzeiros.

Bel passou a ser conhecido como
"Seu Sete da Lira" pelos 7 gols 
Mas não pensem que as retumbantes goleadas pararam por ai. Em 1972, o Itabuna, já profissional, jogou uma partida amistosa com o Selecionado de Itajuípe, que ficou na história. Embora o resultado final tenha sido 9X2, os torcedores e a imprensa passaram a nomear o jogador Bel como “Seu 7 da Lira”, numa referência às reportagens da revista Cruzeiro sobre esse personagem da vida carioca.

Explicando melhor, é que 7 dos 9 gols do Itabuna foram marcados por um só jogador, o meio campista Bel (Abelardo Brandão Moreira, de origem itajuipense). Para os que não conheceram, a cidade de Itajuípe era pródiga em exportar bons jogadores amadores, mas deram azar de jogar contra o Itabuna profissional, cheio de craques e técnicas táticas e físicas. Depois, só a espetacular comemoração no Bar de Carcará.

Então, daqui pra frente é bom que fique registrada a superioridade de Itabuna sobre a Seleção Brasileira, e que o feito alemão em solo mineiro não campeie como sendo um fato histórico único neste Brasil brasileiro. Nada mais justo do que registrar essas duas partidas como consagrados e reconhecidos atos memoráveis do futebol itabunense.


*Radialista, jornalista e Advogado.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

De armazéns a palcos: antigos trapiches revivem noite do Comércio com cultura

De armazéns a palcos: antigos trapiches revivem noite do Comércio com cultura

 


Espaços que transformaram o Comércio em polo de eventos culturais

Por Divo Araújo/A Tarde - O Comércio vem fortalecendo sua vocação cultural ao transformar antigos espaços portuários em grandes casas de shows e eventos. Dois desses endereços carregam essa história no próprio DNA: o Trapiche Barnabé e o Cais Dourado, que já funcionaram como trapiches e hoje abrigam uma programação cultural variada, além de ajudarem a movimentar o bairro durante a noite, período em que a região tradicionalmente fica mais vazia.


À frente do Trapiche Barnabé, o empresário francês Bernard Attal (Foto), diz que o calendário varia conforme a época do ano. “Esse período geralmente é mais tranquilo, porque, como tem muitos shows na cidade toda, a gente faz pouca coisa”, afirma. Ainda assim, a programação segue ativa. “No último sábado tivemos um evento de samba, chamado Terreiro de Crioulo”, destaca.

O evento reuniu nomes como Nelson Rufino, Serginho Meriti e Sibi Dudu para celebrar a cultura negra, as matrizes africanas e a ancestralidade, marca do festival que já passou por Rio de Janeiro e São Paulo e fez sua primeira edição na Bahia.

Ao longo do ano, alguns projetos já viraram tradição no espaço. “Temos o Festival Sangue Novo”, conta Bernard. Segundo ele, o evento já teve várias edições e a maioria passou pelo Trapiche Barnabé. Outro destaque é o Zona Mundi, festival que conecta música, arte e inovação e que realiza parte de sua programação no trapiche.

O espaço também abriu portas para o teatro. Em 2025, Wagner Moura estreou em Salvador o espetáculo “Um Julgamento — Depois do Inimigo do Povo”, dirigido por Christiane Jatahy. “A gente está trabalhando para fazer outra temporada de teatro. Vamos divulgar em abril, mas vai ser teatro de novo”, adianta.

Outro evento querido do público é o Biergarten Salvador, inspirado nos jardins de cerveja alemães, que também integra a programação do Barnabé. O local ainda recebeu, no fim do ano passado, uma edição especial do Som de Jorge, ensaio de verão da banda Filhos de Jorge, com participações de Mamacita, Ara Ketu e Durval Lelys.

Próximo dali outro antigo trapiche segue a mesma vocação cultural. O Cais Dourado, próximo ao Mercado do Ouro e à área portuária, é hoje um dos maiores espaços para eventos do Comércio.

“O importante é a história. Essa casa inaugurou com a gente e fez mais de duas ou três dezenas de grandes shows com grandes artistas”, afirma o responsável pelo espaço, Valter Aquino. Ele relembra que o local passou por uma reforma recente e chegou a ser rebatizado, mas retomou o nome original. “A gente tirou o Casarão e botou de novo o Cais Dourado. Hoje é Cais Dourado.”

Com cerca de 3 mil metros quadrados e capacidade para até 4 mil pessoas, a casa aposta na estrutura para atrair produtores. “Trata-se de uma casa de eventos. Pela metragem e pelo espaço, é uma alternativa de casas de shows em Salvador, que nós somos um pouco carentes, sobretudo naquela região”, avalia.

O modelo de funcionamento é baseado em parcerias com produtores. “O cara produz um evento dentro da nossa casa e nós fazemos um compartilhamento com ele. Nós temos o imóvel e toda a logística”, explica. Ele detalha os serviços oferecidos: “Ambulância, segurança, limpeza, banheiros. Lá a gente tem toda a infraestrutura.”

Aquino diz que o objetivo é elevar o padrão do espaço. “A ideia é ter a melhor casa da Bahia. Já temos banheiros bons, mas queremos melhorar. Vamos ter o nosso palco fixo”, afirma.

Outro ponto que ele destaca é a localização. “A casa pode ficar durante a noite toda tocando, porque tem uma acústica muito boa e a região não é residencial”, diz. “Lá não temos limite de horário. Você pode ir até duas, três, quatro da manhã, amanhecer o dia, e não perturba ninguém.”

Ao longo dos anos, o Cais Dourado já recebeu artistas como Caetano Veloso, Daniela Mercury, Jorge Ben Jor, Maria Rita, Seu Jorge, Paralamas do Sucesso, Paula Toller e Beth Carvalho, entre muitos outros nomes da música brasileira.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

REDUTO DO SAMBA – O MAIOR BLOCO DO MUNDO - A Cronica de Walmir Rosário

 

REDUTO DO SAMBA – O MAIOR BLOCO DO MUNDO

Newton Dias, presidente do Reduto
do Samba. A paixão pelo Carnaval

Por Walmir Rosário*

O Reduto do Samba, de Salvador, pretende se tornar o maior bloco carnavalesco do mundo e não mede distância para que esse acontecimento seja o mais breve possível. Neste Carnaval de 2026 desfilará no circuito Campo Grande (Osmar) e traz Filipe Escandurras como principal atração, empurrando seus mais de quatro mil componentes.

A venda das fantasias anima a diretoria da agremiação e elas podem ser encontradas na sede do Bloco, plataformas digitais e Balcão Samba Vivo. Fundado em 13 de junho de 2003, a cada ano o Reduto do Samba promove uma festa à parte no Carnaval de Salvador, graças ao empenho de sua diretoria e componentes.

O Reduto do Samba tem como presidente Newton Ferreira Dias, desde sua fundação, e que se dedica quase que integralmente à gestão da agremiação, cuja diretoria e componentes empreendem todos os esforços para brilhar em todos os carnavais. E o presidente revela que o bloco é a paixão de todos os participantes, que se esmeram a cada desfile, após muitos ensaios.

Reduto do Samba desfila

E não é pra menos. Sem falsa modéstia, o Reduto do Samba construiu sua história em anos sucessivos ao levar para o Carnaval de Salvador as grandes atrações nacionais do samba. E não economizou: por eles desfilaram Arlindo Cruz, Dudu Nobre, Fundo de Quintal, Xande de Pilares, Psirico, dentre outros. E esse trabalho é responsável por colecionar troféus.

Todo esse entusiasmo é liderado por Newton Dias, que tem o samba como o oxigênio de sua vida, paixão da infância, de quando via e participava dos ensaios da Escola de Samba Filhos do Tororó, pertinho de sua casa. E esse amor cresceu exponencialmente em seu coração com a convivência de Ederaldo Gentil, Nelson Rufino, Salvador Oliveira, Bira Gentil, Paulinho do Reco e outros grandes mestres do samba.

E como na Bahia o samba convive de pertinho com outras manifestações culturais, no sangue de Newton Dias também estão entranhados o futebol, a capoeira, os movimentos afros, todos de passadas largas em terras baianas. E o menino rapaz do Tororó não desgrudou dos seus costumes desde que deixou Salvador para enfrentar a vida acadêmica e os afazeres profissionais.

Cursou engenharia agronômica em Cruz das Almas sem desgrudar da cultura ao mesmo tempo em que aprendeu a ciência, descobriu a botânica, da semeadura a cuidar das plantas, calculando a adubação para produzir mais, corrigindo as deformidades, curando as doenças, produzindo. Com diploma e anel no dedo, afastou-se de Salvador, do Recôncavo, para o Sul da Bahia.

Na Ceplac foi labutar com a cacauicultura, enfrentando os morros e a Mata Atlântica, num esforço fenomenal integrado para alcançar altos índices de produção do cacau. Alcançou postos de direção, como a chefia da importante Divisão de Itabuna, atuando como líder, influenciando comportamentos, inspirando colegas e produtores a aplicarem a técnica de forma correta, sem estresse.

De volta a Salvador assume novos empreendimentos em grandes empresas, sendo o mesmo Newton Dias de Salvador, o menino do Tororó, o acadêmico de da Faculdade de Cruz das Almas, o engenheiro agrônomo da Ceplac. Recusou o ócio da aposentadoria e foi cuidar daquela paixão desde menino, o samba. E fez da melhor forma. Como diz o ditado: quem é bom já nasce feito.


*Radialista, jornalista e advogado.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Walmir Rosário

 

O CONHECIMENTO, SUA DIFUSÃO NA SOCIEDADE E A UESC

Alessandro Fernandes de Santana, Reitor da Uesc

Por Walmir Rosário*

Agora em Itabuna, estou mais perto da Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc), respirando os ares da sabedoria emanados daquele centro de conhecimento, que vem acumulando troféus e títulos de excelência. Felizmente a Uesc tomou um caminho bem diferente de outras instituições de ensino superior, que descem ladeira abaixo neste Brasil contemporâneo.

De pronto, dou pleno conhecimento público que não estou alisando os bancos de nenhum curso superior, o que me faria bem, mas tão somente bisbilhotando o Centro de Documentação (Cedoc). Quase todos os dias, munido de máscara contra a poeira e ácaros, e luvas para me livrar das velhas tintas gráficas, estou espreitando, conferindo as páginas dos jornais antigos de Ilhéus e Itabuna.

São edições incompletas em determinados anos, mas permite pesquisar o que acontecia em épocas passadas. As minhas visitas seriam apenas (não são mais) para rever as glórias do futebol de Itabuna, por meio dos seus times e da eterna vencedora Seleção de Itabuna, assuntos para futuros livros, com a missão de informar aos que não tiveram a felicidade de viver àquela época.

Com a mão nas páginas, relembro fatos tantos vividos pela sociedade pretérita em Itabuna, Ilhéus e região sobre a economia, as agruras sofridas pela cacauicultura, bem como os bons tempos em que a tonelada de cacau era vendida nas bolsas de Nova Iorque e Londres a preços compensadores, coisa de US$ 4,5 mil até US$ 5 mil, tudo contado em dólares.

A sociedade mantinha um padrão de vida bem confortável e Itabuna se dava ao luxo de tocar os discos em LPs e compactos (poucos sabem o que é isso) em lançamentos simultâneos com o Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador. Mas como nem tudo são flores, os protestos e reclamações apareciam estampados nas páginas de nossos jornais sem a menor cerimônia.

O que acontecia na política ganhava destaque, inclusive os aumentos de impostos que pesavam sobre o cacau, figurinha carimbada nos tempos ruins, a salvação da lavoura do governo do estado para pagar os gastos feitos em outras regiões. A conta não era nossa, mas o governador jurava que deveria ser paga por todos. E como o cacau faturava, sentava-se à cabeceira da mesa.

E a Uesc vem assumindo uma responsabilidade com a sociedade sul-baiana ao guardar, manter intacto, catalogar e disponibilizar toda a produção dos meios de comunicação de épocas passadas, mantendo viva a história do povo grapiúna. Além de jornais, a Uesc também registra em seu acervo a história do Poder Judiciário em Ilhéus e milhares de documentos históricos importantes. Se tornou a guardiã da nossa história.

No Centro de Documentação estão disponíveis, por exemplo, os jornais Diário da Tarde, de Ilhéus; o Tabu, de Canavieiras; o Diário de Itabuna e o Agora, de Itabuna, este através de um esforço recíproco da sociedade. E o Reitor Alessandro Fernandes de Santana acolheu o pleito, sensível que é aos reclames da sociedade, sobretudo do que diz respeito às questões sociais, sobretudo à educação.

Sei que a Uesc muito ainda tem que caminhar, mas os louros obtidos nesse trajeto é um sinal bastante positivo, o que nos leva a crer e vislumbrar uma universidade “coladinha” com a sociedade. A Uesc pode e deve ser o carro-chefe do pensamento regional, com poderes para influir na renovação da tecnologia e nas mudanças que levem ao desenvolvimento.

O Magnífico Reitor Alessandro Fernandes tem ao seu lado cabeças pensantes capazes de elaborar e tocar projetos em todas as áreas do conhecimento, notadamente na comunicação. Se a Uesc tem gente à disposição, também possui prédios herdados do Instituto de Cacau da Bahia (ICB) que podem abrigar esses novos serviços à sociedade.

Quem sabe, todo esse acervo de comunicação poderá ser reunido num grande projeto disponibilizado à sociedade após a digitalização, tratamento gráfico com o que existe de mais moderno na informática. De casa, do escritório, aqui no Sul da Bahia, Estados Unidos ou Japão estará disponível em apenas alguns cliques. Afinal, uma universidade é um centro de sabedoria com a missão de tornar as pessoas mais inteligentes. E a hora é agora.


*Radialista, jornalista e advogado.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Gil Velloso, um itajuipense genial

Gil Velloso, um itajuipense genial 



Gil Velloso, um excelente compositor e produtor musical brasileiro que se desenvolve com grande competência e sucesso pelo país, com extenso e extraordinário serviço prestado a música popular do nosso Brasil. Temos o grande prazer em apresentá-lo através de uma entrevista, e também com um resumo da sua biografia, mostrando o quanto é grande, valiosa e extremamente diversificada a sua história no âmbito da arte deste país.

Como citei anteriormente, ele transita sutilmente por diferentes vertentes, compondo, produzindo e ainda tem um canal no YouTube, onde apresenta interessantes entrevistas com diferentes artistas. O estimado amigo Gil Velloso teve a gentileza em contar toda sua história relatando com extremos detalhes os momentos super importantes da sua vida, hoje com 67 anos.

Minha mãe era uma guerreira, fez de tudo para educar os filhos” eu ainda garoto, trabalhei no início da década de 1970, ainda adolescente, no Bar Natal, do saudoso Fernandinho Curió, na Praça Vereador José Adry em Itajuípe. Radicado na mais populosa capital do país, me orgulho em ter nascido em Itajuípe, onde ainda vive meus primos e alguns amigos de infância. Itajuipense raiz, meu sonho, desde criança, era ser músico, mas, as condições de meus pais trabalhadores rurais Bidú e dona Paulina não permitiam sequer comprar um violão para o filho.

Ainda garoto, já querendo dar os primeiros passos na arte musical, me lembro que tive na Aliança dos Artistas, por um período, aula de música com o maestro Joel Carlos, do Rio de Janeiro, onde despertei, de fato, meu gosto pela música e também, sempre corria até os ensaios da magnífica banda de bailes “Os Brasas”, comandada pelo saudoso João, Antonilson, Jaelson, Arnaldo e Tonhão, e ficava encantado com cada acorde. Até que um dia pedi para Tonhão deixa-me fazer uns acordes na sua guitarra. Daí para frente eu não tirava da cabeça o sonho de ser músico – já sabia que era isso que mudaria a minha vida.

Minha mãe, querendo dar um futuro melhor para os 16 filhos, achou que o futuro da família não estava na terra do cacau e migrou para São Paulo assim que eu terminei o ensino fundamental na então Escola de Comércio. Como a maioria dos retirantes nordestinos, chegando a capital paulista, todos tinham um só objetivo: trabalhar, estudar, lutar para vencer na vida – e foi exatamente assim que aconteceu. Meus saudosos pais conseguiram formar todos os filhos – lutaram, constituíram suas famílias e venceram cada uma dentro das suas opções profissionais.

Familiares de Gil Velloso.


“Minha mãe era uma guerreira, fez de tudo para educar os filhos”, que se formou em Administração pela Universidade Franciscana. No início da sua carreira profissional, como músico e compositor no final da década de 1970, eu que, na ocasião, tinha longos cabelos, tive o nome artístico dado pelo produtor musical Frank Arduim devido ser baiano e ter características físicas semelhantes ao renomado artista conterrâneo Caetano Veloso.

“Nunca foi pretensão de minha parte comparar os talentos, foi homenagem mesmo”.  Com o nome artístico já definido, eu Gil Velloso entrei de cabeça no mundo da música e fiz carreira como contrabaixista, compositor e produtor musical ao lado do consagrado músico, meu ídolo, Tim Maia, bem como meu saudoso compadre Luiz Melodia e outros artistas renomados como Os Originais do Samba, Genival Lacerda, Peninha, Casa das Maquinas, Neguinho da Beija Flor, Roberto Ribeiro, Carlos Dafé, Luiz Ayrão, Agepê, Emilio Santiago e Kátia.

Como a maioria dos retirantes nordestinos, chegando a capital paulista, todos tinham um só objetivo: trabalhar, estudar, lutar para vencer na vida – e foi exatamente assim que aconteceu. Meus saudosos pais conseguiram formar todos os filhos – lutaram, constituíram suas famílias e venceram cada uma dentro das suas opções profissionais. “Minha mãe era uma guerreira, fez de tudo para educar os filhos”. Eu me formei em Administração pela Universidade Franciscana. Voltando ao início da minha carreira profissional. Como músico e compositor no final da década de 1970, eu que, na ocasião, tinha longos cabelos, tive o nome artístico dado pelo produtor musical Frank Arduim devido ser baiano e ter características físicas semelhantes ao renomado artista conterrâneo Caetano Veloso. “Nunca foi pretensão de minha parte comparar os talentos, foi homenagem mesmo”. Com o nome artístico já definido, como Gil Velloso entrei de cabeça no mundo da música e fiz carreira como contrabaixista, compositor e produtor musical ao lado do consagrado músico, meu ídolo, Tim Maia, bem como meu saudoso compadre Luiz Melodia e outros artistas renomados como Os Originais do Samba, Genival Lacerda, Peninha, Casa das Maquinas, Neguinho da Beija Flor, Roberto Ribeiro, Carlos Dafé, Luiz Ayrão, Agepê, Emilio Santiago e Kátia.


Neguinho da Beija Flor


Luiz Airão



*
Por: Sergio Da Silva Lima

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Zuzu Angel a busca não acabou


Zuzu Angel


O amor de uma mãe talvez seja a força mais inexplicável que exista. Ele não tem forma, não tem lógica, não tem limite. É o tipo de amor que levanta peso que nem existe no mundo físico, que atravessa portas fechadas, que resiste a governos, que desobedece a qualquer ordem. E é exatamente por isso que a história de Zuzu Angel não cabe numa palavra pequena. Ela é enorme porque começou com o que há de mais simples: uma mãe tentando proteger os filhos.

Zuzu nasceu em 1921, em Curvelo, Minas Gerais, cercada de agulhas, bordados e do trabalho das mãos femininas. Cresceu vendo mulheres criarem beleza com paciência e fibra. Mais tarde, já jovem, mudou-se primeiro para Belo Horizonte e depois para o Rio de Janeiro. Foi no Rio que conheceu Norman Angel Jones, um mecânico de aviões americano. Os dois se apaixonaram, casaram, tiveram três filhos: Hildegard, Ana Cristina e o primogênito, Stuart. O casamento acabou, e Zuzu ficou sozinha com três crianças num país desigual, caro e difícil.

E é aqui que a história dela começa a se tornar gigante, muito antes de qualquer fama.

Zuzu costurava para sobreviver. Costurava para colocar comida na mesa. Costurava para pagar escola. Costurava para não deixar faltar nada. Montava peças em casa, vendia na vizinhança, fazia roupa sob encomenda para conseguir pagar as contas. Era o Brasil das mulheres anônimas que sustentam o mundo com trabalho invisível. E Zuzu era uma delas.

Só que, daquelas linhas, começou a nascer outra coisa.

Um estilo.

Uma identidade.

Uma estética brasileira que ninguém tinha visto antes.

Flores, rendas, cores, pássaros, bordados que respiravam o nosso país.

A costureira virou estilista.

A estilista virou referência.

A referência virou exportação.

E, num salto impossível, Zuzu Angel se tornou uma das primeiras brasileiras reconhecidas internacionalmente na moda. Ela abriu uma loja própria. Desfilou em Nova York. Virou nome em revistas. Criou uma marca. Se tornou símbolo. Mas nenhuma dessas conquistas preparou Zuzu para o que estava por vir.

Porque essa não é a história de uma artista.

É a história de uma mãe.

Stuart, seu filho mais velho, cresceu inteligente, sensível, inconformado com injustiças. Nos anos 60, quando o Brasil mergulhou em repressão, censura e violência de Estado, ele se aproximou dos grupos de resistência. Entrou para o MR-8. Eram tempos em que escolhas políticas não eram teoria: eram risco de vida. Stuart acreditava na liberdade e acreditava que o país precisava enfrentar o autoritarismo. E essa escolha custou tudo.

Em 1971, Stuart foi preso pelo DOI-CODI, no Rio de Janeiro. Não houve direito, não houve defesa. Houve tortura. Há testemunhos de que ele foi amarrado à traseira de um jipe, com a boca presa ao cano de escapamento, e arrastado enquanto aspirava gás tóxico até morrer. É uma crueldade que desmonta até quem só lê sobre ela. Imagine a mãe.

O corpo nunca foi devolvido.

Nunca teve certidão.

Nunca teve túmulo.

Foi apagado, como se desaparecimento fosse solução para crime.

E esse foi o momento exato em que Zuzu deixou de ser apenas uma estilista e se tornou uma força que nenhum regime conseguiu conter.

Zuzu buscou o filho de forma obsessiva. Bateu em quartéis, gabinetes, embaixadas, jornais, igrejas. Levou o nome de Stuart ao Senado dos Estados Unidos, à imprensa internacional, a organizações de direitos humanos. Escreveu cartas. Guardou provas. Reuniu depoimentos. Resgatou testemunhas. E fez o impensável: transformou sua moda em denúncia. Em 1971, apresentou um desfile histórico em Nova York onde suas roupas carregavam tanques, anjos caídos, gaiolas, manchas de sangue, pássaros aprisionados. Era arte, moda e grito. Era dor transformada em tecido.

O Brasil tentou calar.

Zuzu não parou.

E quando uma mãe não recua, o Estado treme.

Em 14 de abril de 1976, Zuzu dirigia seu Karmann-Ghia pela Estrada da Gávea. Um carro a perseguiu. Houve um impacto. Zuzu morreu na hora. O regime chamou de “acidente”. Mas documentos e testemunhos revelados décadas depois mostraram o que todo mundo já sabia: Zuzu Angel foi assassinada pela ditadura militar brasileira, assim como seu filho.

O corpo de Stuart nunca apareceu.

O corpo de Zuzu foi silenciado.

Mas a história dos dois continua falando.

No fim, Zuzu Angel nos deixa uma verdade que não envelhece: nenhum governo, por mais cruel que seja, é maior que o amor de uma mãe. O que fizeram com ela e com Stuart não é política. É humanidade quebrada. É o retrato de um tempo em que falar podia custar a vida, e amar custou duas.

Zuzu enfrentou o Estado com linha, agulha, coragem e dor. E pagou com a própria vida, porque algumas mães não aceitam o silêncio. E silenciam quem ama quando não conseguem apagar quem morreu.

Essa é a história real dela, inteira, pesada, humana e impossível de esquecer.

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A Cronica de Walmir Rosário

 

AS ARTIMANHAS DE TYRONE PERRUCHO E AS NOVELAS DA GLOBO

Tyrone Perrucho prova novo óculos (foto -Júnior Trajano) 

Por Walmir Rosário*

Na sede da Ceplac, na rodovia Ilhéus – Itabuna, Tyrone – ou melhor, Perrucho – era um “boa praça”, sempre disposto a contar uma boa piada, ou simplesmente produzir situações inusitadas, sempre de forma discreta, disfarçada ou dissimulada. Nada que comprometesse ou que tivesse a intenção de prejudicar um colega, e sim a finalidade de alegrar o ambiente. E não foram poucas as vezes em que arquitetou boas safadezas, no bom sentido.

Certa feita, um ceplaqueano se apaixonou pelas novelas da Globo e iniciou a produção de várias, enviando os roteiros para o departamento da Vênus Platinada. Grandes pacotes com as sinopses eram postados nos Correios à vista de todos. Entretanto, não chegava uma simples resposta, nenhuma avaliação, um pedido de mudança, ou que parasse de mandá-las por falta de interesse da emissora.

E esse tratamento indelicado, beirando ao desprezo, começou a afetar o pretenso famoso novelista da Global, que passou a sofrer com a solidão que sentia em seu mundo intelectual. Centenas de páginas eram enviadas, e mesmo com o custo elevado cobrado pelos Correios, e nenhuma reposta. E isso passou a afetar o trabalho do colega, que foi diagnosticado como depressivo.

Certo dia, sem qualquer aviso-prévio, eis que chega um envelope postado no Rio de Janeiro e entregue pelos Correios ao nosso promissor autor de novelas, tendo como remetente o Departamento de Novelas da Rede Globo. Nosso colega escritor quase morre de emoção e, com as mãos trêmulas, abre o envelope, e não acredita no que vê: uma correspondência analisando, meticulosamente, sua última obra.

E mais, muitos elogios pelos trabalhos enviados e os pedidos de desculpas diante da demora do contato, culpa da monumental quantidade de sinopses recebida diariamente e que levavam tempo na análise. Sim, eles eram criteriosos e cada proposta era lida por três profissionais gabaritados, o que levava muito tempo na observação. Mas teria valido a pena, pensou, e já se via fazendo parte da galeria de brilhantes intelectuais televisivos brasileiros.

Em tempo, finalmente, o sucesso tinha chegado. Agora, bastava arregaçar as mangas, pedir a antecipação das férias vencidas à Ceplac e estender noites a dentro para fazer uma criteriosa revisão, conforme solicitavam os dirigentes da Globo. Após longos 45 dias de trabalho, nosso colega novelista envia um novo pacote pelos Correios, com as recomendações de rapidez, pagando uma verba extra ao novo serviço lançado: o Sedex.

Agora era só aguardar a aprovação. Planos para o futuro davam voltas com a rapidez de um avião supersônico em seu cérebro. Em determinados momentos pensava solicitar uma licença sem vencimentos à Ceplac, quem sabe se desligar de vez, pois sabia que não daria conta dos afazeres na instituição e na Rede Globo. Teria que chefiar um grupo de redatores para dar conta da nova novela global.

Enquanto imaginava o sucesso de sua obra em todo o Brasil e, quem sabe, no exterior, chegou a consultar amigos e chefes sobre a possibilidade de sua saída da Ceplac, seus novos planos, mas tudo com muito cuidado. E como o tempo não para, nosso colega começa a se impacientar com a demora da contratação. Três meses e nenhuma correspondência, nenhum contato, sequer as informações pessoais para o envio da passagem aérea para o Rio de Janeiro.

Mas como nesse mundo de meu Deus nada fica permanentemente em segredo, algumas pessoas tomam conhecimento que as correspondências da Rede Globo, apesar do carimbo de postagem do Rio de Janeiro, teria sido realizada em Itabuna, parte dela na sede regional da Ceplac. Mas como explicar o carimbo dos Correios numa agência de uma das grandes avenidas do centro do Rio de Janeiro?

Amarrando as pontas, os colegas chegaram à conclusão de que tudo não passava de uma singela brincadeira de Perrucho (Tyrone), que teria resolvido dar um empurrãozinho no sentido de recuperar a autoestima do colega ceplaqueano. Aproveitando a viagem de outro colega ao escritório de compras da Ceplac, no Rio de Janeiro, teria pedido para que fizesse a postagem. Na verdade, a intenção era tornar a correspondência um medicamento eficaz no combate à depressão do colega.

Apesar de alguns colegas explicarem ao futuro novelista que a correspondência teria sido uma simples molecagem de uma pessoa que o admirava, o “intelectual” ceplaqueano nunca acreditou nessa versão, pois possuía todas as provas materiais enviadas pelos dirigentes da Vênus Platinada. E ele não perdeu a esperança e continuou a dedicar parte de suas noites às novelas que fariam retumbante sucesso.

De forma dissimulada, (Tyrone) Perrucho sempre lhe perguntava quando suas novelas iriam ao ar, mas elas nunca apareceram na telinha da Globo.


*Radialista, jornalista e advogado