sábado, 18 de abril de 2026

A quem vai pertencer a derrota?

A quem vai pertencer a derrota?


Em 1989, Boni passou glicerina em Collor pra simular suor e o candidato representar uma imagem que “dialogasse com o povão”, pois viu que Lula era um fenômeno popular e fazia isso com naturalidade. A Globo interveio nas eleições pra tirar a vitória do então presidenciável novato Lula.

Em 1994, os editoriais deixam claro a preferência por FHC, assim como em 98, pois Lula era tido como “sindicalista doidão”. Em 2002, os maiores players de comunicação do país tentaram o último suspiro com Serra, mas viram a força popular de Lula, que foi pressionado pela Faria Lima até o último momento e obrigado a colocar um empresário como vice em sua chapa.

Ainda em seu primeiro mandato, Lula viu a bancada evangélica crescer, parlamentares levando grana e chantageando o governo como tática pra aprovar os projetos sociais administrados em sua gestão. Muitos quadros fisiológicos do Partido dos Trabalhadores, filiados ao partido apenas pra comporem quociente eleitoral, acabaram se debandando para o lado do centrão, inclusive ministros nomeados pela chapa com o antigo PMDB.

Os escândalos que eram abafados pela imprensa durante todo governo FHC e suas privatarias escusas foram amplificados nos governos Lula a partir do então deputado Roberto Jefferson, um conhecido personagem remanescente da ditadura, amigo dos deputados evangélicos envolvidos na Máfia das Ambulâncias, e que tinha rixa com o empresário Marcos Valério, chamando pejorativamente de “mensalão” o que sempre foi visto antes como “emendas parlamentares”, oportunamente ignorado por Jefferson. O objetivo era criar um rótulo forte que enfraquecesse o governo federal, e tudo com a chancela dos principais grupos de comunicação do país, que pegaram carona nas denúncias do deputado.

Mesmo assim, em 2010, Lula sai com aprovação popular recorde, na casa dos 80%, diante do sucesso de suas políticas sociais que transformaram o país nos anos 2000, tiraram o Brasil do mapa da fome, inseriram a classe média no perfil do consumo e garantiram pleno emprego à população.

Os grandes empresários e os principais veículos de comunicação do país nunca admitiram a continuação de um governo petista, a ponto de darem força na esquematização de um golpe parlamentar que viria a tirar Dilma da presidência. Nunca foi pedalada, mas sim uma “enfrentada” que Dilma tentou emplacar contra o forte Congresso de Eduardo Cunha, sem sucesso.

A demonização final do PT ficou a cargo de figuras ressentidas do PSDB, que viram em Sérgio Moro e Deltan Dallagnol o lawfare necessário a criar um espantalho demoníaco da figura de Lula, como se ele fosse o grande operador de toda corrupção política que sempre existiu no país, mas que, oportunamente, era abafada pelos veículos de comunicação hegemônicos em governos neoliberais privatistas.

Dito isso, a verdade nua e crua é que a imprensa foi contra o fim da escravidão lá atrás, no final do século XIX, assim como, já no século XX, foi contra a criação do salário mínimo, contra a criação do 13o salário e hoje se põe contra o fim da escala 6x1. Qualquer governo popular que se atreva a criar políticas sociais que se oponham aos interesses dos grandes latifúndios e dos setores financeiros, sempre será demonizado pelas famílias da comunicação do país, que se beneficiam de suas parcerias. Para emplacar uma terceira via, até Caiado, um grileiro de direita envolvido em crimes que foram abafados na época da ditadura, vira opção contra a “polarização” …


Lula é maior que tudo isso. Se Flávio Bolsonaro vencê-lo esse ano, a maior derrota será nossa, e não de Lula. A não ser que você seja acionista na Unilever, seja da família Marinho ou dono da Coca-Cola. Ou também um evangélico médio, que em geral é ignorante e não tem culpa de sua condição hipossuficiente. Mas se você for um funcionário público, um empregado CLT, dono de um mercadinho de bairro ou de uma oficina, ou tenha ações de baixo investimento na Bolsa e um BYD financiado na garagem, a derrota de Lula é a sua derrota, ainda que você se veja como um futuro entrevistado do Pequenas Empresas, Grandes Negócios por fabricar um abridor de sachê de maionese e fature 10 mil por mês com isso.

LINGUIÇA À CONFRARIA DE VOLTA AO CARDÁPIO - Por Walmir Rosário

 

LINGUIÇA À CONFRARIA DE VOLTA AO CARDÁPIO

A Linguiça à Confraria agradou aos diversos paladares

Por Walmir Rosário*

Este é um prato que tenho muito prazer em elaborar, pois tem sabores e texturas bem combinados, tendo em vista os seus variados ingredientes que equilibram bem os sabores picante, ácido, salgado e doce caramelizado. E não é preciso muita ciência para fazer essa mistura ficar bem gostosa, principalmente quando esse prato é servido no meio de uma boa farra.

Não sei se esse foi o motivo do amigo e irmão Demósthenes Chachá a me cobrar pela volta do prestigiado prato ao cardápio de nossas boas farras, em grupos de amigos e confrades, quando se avizinhava um final de semana (sexta-feira ou sábado). E tudo isso tem um motivo: é que mudamos de Canavieiras para Itabuna e temos muitas histórias para contar das farras e os confrades, sempre saboreando boa comida.

Não precisa nem mesmo um longo pit stop para saborear e abastecer o estômago e continuar na farra, agora mais preparado, bem reabastecido, embora existam pessoas que não consigam continuar bebendo após uma refeição. Sim, isso mesmo, a não ser que seja servido apenas como tira-gosto, o que muito duvido uma pessoa se contentar com um simples pratinho e não parta para o repeteco.

Na primeira vez que preparei a Linguiça à Confraria foi num sábado, com a finalidade de levá-lo à apreciação dos confrades na Confraria do Alto Beco do Fuxico, em Itabuna, daí o nome em homenagem. Seria desnecessário dizer que foi um sucesso, mas faço questão, haja vista obedecer ao princípio do marketing popular, que nos ensina: “Que gaba o toco é a coruja”, ensinamento basilar da propaganda.

E assim que me mudei para Canavieiras voltei a elaborar essa delícia num encontro semanal às sextas-feiras, no passeio da casa de Demostinho Chachá, na famosa rua Treze, com diversos convidados habituês. Depois de reaberto, também repeti o prato num local onde se encaixava bem: a Confraria d’O Berimbau, numa das assembleias de sábado. Em ambos os ambientes foi aprovado com distinção e louvor.

Mas o que esse prato tem de especial? Muita coisa, apesar da simplicidade, e, como disse acima, o perfeito equilíbrio de sabores marcantes, com as duas linguiças (calabresa e de pernil, esta picante de preferência). Associado às linguiças, o repolho, os temperos e ervas, que incluem a pimenta-de-cheiro, o molho shoyu ou inglês, e um energético à base de guaraná, açúcar mascavo ou demerara, dentre outros.

Por aí já dá para indicar a base do prato, que deixa a gente com o paladar aguçado (deve ser fome, mesmo) só de ler ou ouvir, imagine se deparar com essa delícia na mesa à qual estamos sentados? Disse e confirmo: Dá sustança, enche a barriga e deixa um sabor de quero mais até para sempre. Até hoje não foi rejeitado ou criticado, de forma pejorativa, por algum portador de paladar e estômago exigentes ou metidos a besta.  

E em Canavieiras a apresentação da Linguiça à Confraria se revestiu de um ritual especial, a começar pelas exigências habituais de um dos convidados, o Capitão Edgardo, do Corpo de Fuzileiros Navais. É que Edgardo tinha o seu horário (sagrado) para iniciar os trabalhos em mesa de bar, embora o palco da farra era o passeio da residência de Demostinho. O mais grave é que nosso oficial das armas não bebia sem o petisco ao lado, à disposição.

Horário combinado, às 18 horas, no badalar dos sinos da Igreja Matriz de São Boaventura – Magnífico Doutor da Igreja Católica – homenageando a Mãe de Jesus Cristo com a Ave Maria. Minha preocupação era não ter preocupação alguma, principalmente ter que ouvir as queixas de Edgardo sobre a quebra do horário estabelecido. Assim que estacionei em frente à casa de Demostinho, ouvimos as santas badaladas dos sinos, para a alegria geral.

Foi uma festa! Cachaça de primeira qualidade, cerveja de qualidade e bem gelada e o esperado prato da Linguiça à Confraria. Uma novidade introduzida foi o pão ázimo, que casou maravilhosamente com a linguiça e o repolho. Novidade de início não muito bem vista por José Clóves, especialista à beira do fogão no preparo de um majestoso sobe e desce. Uma noite para ninguém botar defeito. Ao contrário, sucesso total.

Aqui vai um aviso: Aos que têm intimidade com forno e fogão seguem as dicas dos ingredientes e modo de preparo. Para os que não possuem intimidade alguma, basta um convite que, sem mais delongas, poderemos prepará-lo em um ambiente adequado aos comes e bebes. Vamos conhecer a preparação, como todos os pratos elaborados por aqui, com bastante simplicidade.

 

INGREDIENTES

½ quilo de linguiça calabresa;

½ quilo de linguiça de pernil suíno;

1 colher (sopa) de azeite;

2 cebolas picadas;

3 dentes grandes de alho amassados;

1 xícara (chá) de molho de tomate;

1 repolho pequeno fatiado em tirinhas;

2 copos de água;

1 xícara de cafezinho de molho shoyu;

1 colher (chá) rasa de sal;

1 colher (sopa) de cebolinha picadinha;

2 colheres (sopa) de salsinha picadinha;

5 pimentas-de-cheiro;

1 copo de guaraná energético;

uma pitada de tomilho;

uma pitada de alecrim;

uma colher de sopa de açúcar (mascavo ou demerara).

 

Modo de preparo

Aqueça o azeite frite a linguiça cortada em tiras;

Em seguida adicione a cebola e o alho;

Deixe dourar levemente;

Acrescente o molho de tomate;

Em outra panela coloque o repolho fatiado bem fino com a água;

Coloque o sal, a pimenta-de-cheiro, o alecrim e o tomilho;

Deixe refogar em fogo brando com a panela tampada até que o repolho murche;

Em outro recipiente, coloque o guaraná energético, o shoyu e o açúcar até reduzir e deixe reduzir cerca de 40%;

Após a linguiça frita, o repolho cozido e a redução do molho, misture metade do molho em cada panela, e deixe no fogo por mais 3 a 4 minutos com as panelas tampadas e sirva quente.

*


Radialista, jornalista e advogado.

sexta-feira, 10 de abril de 2026

E SANTINHO BAGUNÇOU O FLAMENGO DE ITABUNA - Por Walmir Rosário

 

E SANTINHO BAGUNÇOU O FLAMENGO DE ITABUNA

Santinho (de cócoras), entre Bel e Tombinho

Por Walmir Rosário*

Bons tempos aqueles em que o futebol amador de Itabuna encantava os torcedores. Para o bem da verdade, nossos jogadores, depois de investidos no “hall da fama”, passavam a outra condição, a de craques remunerados, presenteados, soa melhor. Sempre que assinavam um contrato levavam um regalo que poderia ser uma bicicleta ou até mesmo um carro.

E um desses bem acolhidos pela sorte era Santinho, batizado e registrado Gilberto Silva Moura, liderança consagrada em todos os times em que jogou, inclusive na famosa Seleção de Itabuna, a Hexacampeã Baiana. Nas quatro linhas um craque daqueles que intimidava o adversário pelo futebol que apresentava. Era ele e mais 10.

Na concentração, recebiam todas as instruções dos técnicos até o adversário engrossar o jogo, quando ele e mais uns dois ou três decidiam como o time iria jogar daí pra frente. Fora de campo – na concentração ou fora dela –, tomava conta dos jogadores mais novos e sempre era o chefão na hora de uma boa farra, evocando os resultados para si.

Santinho sentou praça e ficou famoso no Fluminense de Itabuna, ao qual indicava jogadores daqui e região. No início do ano de 1958 o craque aceitou uma rica proposta do Flamengo de Itabuna e resolve deixar o Tricolor. No time Rubro-negro não se deu bem como acreditaria, apesar do rico contrato, com luvas e salários de fazer inveja aos colegas amadores.

Ao revelar para os dirigentes do Flamengo que não se sentia à vontade no clube, foi um reboliço sem tamanho no novo time, que fez grande festa na sua contratação e esperava a retumbante estreia no Campeonato de 1958. A notícia provocou o estrondo de uma bomba na cidade! Os dirigentes do Flamengo que tinham sido contra sua contração soltavam fogo pelo nariz.

Não se falava outro assunto na cidade, tanto que na edição de 18 de abril de 1958, o Diário de Itabuna escancarou a manchete: “Santinho causa reboliço no futebol local”. E os articulistas solicitavam medidas urgentes sobre o anúncio do rompimento do contrato de Santinho com o Flamengo e sua volta ao Fluminense.

No meio futebolístico rubro-negro, um corretivo bem dado no jogador seria a única providência para reprimir a rebeldia e irresponsabilidade do jogador, pois teria ludibriado e ridicularizado os dirigentes de clubes. E, irrequietos, buscavam uma fórmula para punir o Santinho, que estaria inebriado com sua qualidade em campo, se prevalecia para bagunçar o futebol.

Anteriormente, Santinho fez o mesmo no Janízaros e solicitou seu retorno ao Fluminense e foi liberado, tanto assim que disputou a última partida do Campeonato de 1957. E o motivo dos dois retornos era simples, não teria se adaptado aos outros times, devido sua forte ligação com os dirigentes e jogadores do tricolor itabunense. Simples assim!

Embora grande parte da direção do Flamengo se mostrou contrária a sua vinda para o rubro-negro, Santinho encantou a todos ao jogar a primeira partida, um amistoso contra o Colo-Colo, de Ilhéus. Suas jogadas endiabradas faziam os torcedores e dirigentes do Flamengo vibrarem com o futebol de alto luxo jogado por Santinho, como só ele sabia.

Mas tudo virou de cabeça pra baixo após uma carta de Santinho ao presidente da Liga Itabunense de Desportos Atléticos (Lida), anunciando que não mais desejava efetivar a transferência, uma vez que sempre esteve preso ao tricolor por laços de amizade. Ao Flamengo coube emitir uma nota oficial desinteressando-se do jogador.

Santinho (na seleção), ao lado do goleiro Luiz Carlos
E a nota do Flamengo, refinada e educada, não demonstrava o temperamento colérico dos dirigentes, que por baixo dos panos teciam impropérios contra a atitude de Santinho. E a imprensa flamenguista incitava a torcida, contra o craque, alertando aos outros clubes que colocassem suas “barbas de molho”, pois eles poderiam também ser vítimas do jogador.

E a crônica futebolística não perdoou Santinho por ter conseguido voltar ao clube de origem, e por um bom tempo cobravam, diariamente, a punição para o jogador, por sua pseuda irresponsabilidade. A torcida, entretanto, queria vê-lo jogar, driblar, fazer gols com seus chutes potentes no campo da Desportiva, muitas das vezes furando as redes.

Mas Santinho tinha uma carta na manga: como ele estava à disposição da Lida, convocado pela Seleção de Itabuna para o jogo contra o Flamengo, na Festa dos Campeões, sua transferência não tinha sido efetivada pela Lida. E foi Santinho liberado sem cumprir o interstício regulamentar, de volta ao Fluminense, equipe pela qual continuou jogando por um bom tempo.

*Radialista, jornalista e advogado.

terça-feira, 7 de abril de 2026

A ESCORCHA TRIBUTÁRIA NO CACAU BAIANO É ANTIGA

 

A ESCORCHA TRIBUTÁRIA NO CACAU BAIANO É ANTIGA

O cacau sempre foi a salvação da "lavoura" baiana

Por Walmir Rosário*

A escolha de um prefeito para compor a futura chapa do pré-candidato ACM Neto deu o que falar e fez muita gente lembrar a volta do municipalismo na Bahia. Políticos e jornalistas falam da coincidência entre 1962, quando Antônio Lomanto Júnior se candidatou a governador da Bahia, numa época de crise financeira profunda do Estado baiano, e agora com a escolha do pré-candidato a vice-governador, José Cocá, prefeito de Jequié.

Os tempos e as dificuldades não são iguais, mas amedrontam os baianos, especialmente os do Sul da Bahia, cansados de contribuir para o orçamento estadual, embora as contrapartidas, historicamente, tenham sido pífias. Se antes os sul-baianos possuíam representantes na Assembleia Legislativa e Câmara Federal, hoje a situação é inversa, representatividade quase zero.

Mas voltando ao ex-governador Lomanto Júnior, em suas entrevistas, muitas das quais participei, ele nunca escondeu que o Sul da Bahia – a região cacaueira – sempre era lembrado na hora de pagar as contas do Estado. E dizia sem qualquer cerimônia que os tributos do cacau eram sempre a bola da vez para honrar o pagamento dos professores baianos e outras despesas.

E Lomanto passava a explicar as dificuldades de governar um estado sem a industrialização de hoje, principalmente na região metropolitana de Salvador, especialmente o Polo Petroquímico, agora um grande contribuinte, mas construído com os recursos do cacau. “Tínhamos que tomar uma atitude diante do clamor dos secretários, entre eles com mais frequência o da Educação, para honrar os salários”, desabafava.

A título de lembrança, ao longo do tempo o Sul da Bahia não foi a “menina dos olhos azuis” dos governantes baianos, com poucas exceções, apesar do rico potencial de receber investimentos. Agricultura, turismo, industrialização, comércio e serviços, dentre estes a saúde de ponta, que poderia ser transferida para a população desprovida de grandes recursos.

Crises cíclicas no Sul da Bahia são frequentes, embora não alcancem a repercussão necessária para a vinda dos investimentos públicos e privados necessários. Os debacles da cacauicultura – importante matriz econômica – são frequentes e a única solução apresentada é de que é coisa de mercado internacional. Vale o mesmo que solução de difícil solução, ou sem solução.

Se buscarmos os acontecimentos de épocas pretéritas, em 8 de novembro de 1960, o Diário de Itabuna publicou na segunda manchete da primeira página: “UMA NOTÍCIA APAVORANTE – o estado, deficitário, procura fontes de rendas mas erra quando só encontra a lavoura cacaueira”. E discorre que o sul-baiano não é inconsciente, sabe das aperturas do Estado, às voltas com um déficit tremendo neste ano.

E continua comentando de que os encargos são cada vez maiores quando deverá reajustar os vencimentos dos funcionários. “É justo que o Estado procure se defender, provoque fontes de renda, mas não é justo também que seja a lavoura cacaueira a visada em todos as ocasiões em que o Estado precise de aumentar rendas”.

“O deputado Honorato Viana, velho conhecedor do sistema tributário baiano, visando dar meios ao Estado para suas obrigações, quer aumentar em 300% o imposto territorial, sem se importar que estamos em um ano de crise e que um aumento desse porte virá criar mais e pesadas obrigações para os cacauicultores. Será cobrir um santo para descobrir outro”.

O abusivo aumento do tributo movimentou os cacauicultores em assembleias e decidiram ir a Salvador para expor a difícil situação de insolvência. “A lavoura precisa defender-se com inteligência e coragem, sem se afastar, porém, da ajuda devida do Estado. Uma fórmula precisa ser encontrada”, diziam.

E a sugestão ao Estado foi, de que ao invés do aumento dos impostos, seja feita até uma redução, com fiscalização honesta, para que ninguém se furte ao pagamento correto. Já que a Bahia sofria por falta de arrecadação, se todos pagassem o devido o Estado não estaria deficitário. Para tanto, seria preciso que os fiscais recebam seus ordenados, e que fossem demitidos sumariamente no cometimento de faltas.

Para o articulista do então Diário de Itabuna, a evasão de rendas do Estado, revisitada, cobriria os déficits e poderia até duplicar a renda. “No setor transmissões, por exemplo, a coisa é vergonhosa. “O Estado deveria diminuir esse imposto para ficar moralmente com razão de cobrá-lo inteiramente. O que se vê é a sonegação bárbara 10 vezes menos do valor verdadeiro dos imóveis vendidos”.

“Com pouca coisa o Estado remediará sua situação, agindo com sinceridade, com justiça, dando um imposto digno para que receba em paga também dignidade, não se furtando ninguém a pagar o devido”. Ao que parece, até agora o Estado (três entes federativos) não se dignaram a empreender uma reforma como a proposta naquela época e continuam criando problemas insolúveis. Aliás, tentam resolvê-los com infindáveis empréstimos.

A proposta do municipalismo é excelente para solucionar os problemas na ponta de contribuição, embora saibamos ser difícil de implantada, pois o Estado e o Município estão sempre de pires na mão, mendigando seus recursos à União. Daí, os que não ficarem pacientemente na fila do apoio incondicional não serão beneficiados. É assim que a banda sempre tocou...

*


Radialista, jornalista e advogado.

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Suíça monitorou e perseguiu brasileiros contrários à ditadura

Suíça monitorou e perseguiu brasileiros contrários à ditadura

 


© Jean Marc Von der Weid/Arquivo pessoal


“Fui torturado por quatro dias. Quase sem parar. Não saí da câmara de tortura”.

Era assim que o jovem estudante brasileiro, exilado na Suíça, Jean Marc Von der Weid, começava a descrever as sessões de tortura a que foi submetido enquanto esteve preso no Brasil, entre agosto de 1969 e janeiro de 1971. Ele falou sobre o assunto em uma entrevista para a RTS, a empresa de rádio e TV pública da Suíça.

Jean Marc foi um dos 70 presos políticos libertados em troca do embaixador da Suíça, Giovanni Enrico Bucher, no mais longo sequestro de um diplomata registrado no Brasil. O jovem que também tinha nacionalidade suíça aproveitou o exílio para denunciar as violações no Brasil e dava detalhes sobre as técnicas de tortura adotada nos porões da ditadura:

“Pau de arara. Você é pendurado pelos pés, pelas mãos e de cabeça para baixo. Nessa posição, me aplicavam choques pelo, golpes com cassetetes e o ‘telefone', golpes simultâneos com as mãos nas orelhas. Também sofri a tortura hidráulica. Por um tempo, eles forçaram água no meu nariz. Além das queimaduras. Eles queimam as pessoas com cigarros”.

Essa não foi a única entrevista dada por Jean Marc. Na verdade, depois de chegar na Europa, ele começou uma maratona de participações em eventos, palestras, debates e muitas entrevistas com o objetivo de mostrar à opinião pública na Europa o que acontecia no Brasil do milagre econômico. A movimentação incomodou o governo suíço que mantinha fortes ligações econômicas com o regime militar no Brasil. 

Gaelle Shclier estudou a atuação de ativistas brasileiros e as movimentações do governo e da diplomacia suíça para uma pesquisa na Universidade de Lausanne:

“Esses eventos eram monitorados pela polícia”.  Ela teve acesso a relatórios que comprovam a vigilância e compartilhou um desses documentos com a nossa reportagem. 

Um documento de 9 de março de 1971 é um relatório de 36 páginas em francês que tem como destinatário o chefe da polícia de Lausanne e traz a transcrição das palestras feitas por ativistas durante a conferência Brasil, a democratização da tortura. O discurso de Jean Marc é o primeiro transcrito pela polícia suíça no relatório:

“Não há limitação, no Brasil, quanto às pessoas torturadas. Você pode ter crianças que são torturadas. Havia um menino que foi levado na mesma época que eu. Ele tinha 14 anos, e tinha paralisia infantil. Ele foi torturado para fazer sua mãe falar.”

O documento também traz detalhes sobre quem organizou o encontro, os dizeres dos cartazes presos nas paredes, como “12.000 presos políticos”, “A tortura é indispensável ao poder militar”, “Apoio à luta do povo brasileiro” e nomes de empresas suíças que lucravam com a política de proximidade entre o governo suíço e o regime autoritário no Brasil.

Gaelle lembra que atuações como a de Jean Marc ia na contramão de outros eventos organizados por empresas e pelo próprio governo suíço:

“A comunidade empresarial tinha interesses no Brasil. Aqui na Suíça, eles organizavam jornadas culturais, jornadas econômicas, políticas, para divulgar uma imagem positiva do Brasil e ganhar opinião pública sobre a ditadura. Roberto Campos [ex-ministro do Planejamento no governo de Castello Branco] veio várias vezes aqui para dar palestras”.

Gabriella Lima, que também é pesquisadora na Universidade de Lausanne, concorda que a presença de ativistas brasileiros incomodava:

“Esses movimentos de solidariedade colocavam em perigo os interesses deles no Brasil, porque eles [a opinião pública Suíça] podiam pedir, a qualquer momento, um boicote, como fizeram na África do Sul”, explica.  

Suíça sabia

Para Gaelle, o relatório policial confirma que o governo suíço não só monitorava ativistas brasileiros, mas também sabia das violações que aconteciam no Brasil.

“A gente vê em relatórios e em cartas que eles sabem que a polícia [brasileira] em geral é muito violenta. Eles tinham conhecimento do que estava acontecendo.”

Correspondências diplomáticas confirmam a cumplicidade Suíça. Uma delas é um documento, também em francês, com o título Tortura no Brasil de outubro de 1973. Nele, o cônsul suíço no Rio de Janeiro, Marcel Guelat, confirma ao Departamento de Política do Ministério das Relações Exteriores de seu país, que o Estado brasileiro cometia crimes:

“À semelhança do Dops (Departamento de Ordem Política e Social), conhecido há muito tempo por sua brutalidade, certas unidades do exército, agora encarregadas de conduzir os processos relativos a atividades subversivas, começam a recorrer a diversos métodos de tortura: maus-tratos físicos, queimaduras, choques elétricos, câmara fria, etc”.

O documento faz um outro alerta às autoridades suíças: a de que a violência contra os opositores do regime era conhecida nas altas esferas do governo brasileiro: 

“Dada a disciplina militar que reina nas fileiras, parece-me improvável que esses fatos sejam ignorados nas altas esferas”.

Apesar dos relatórios polícias e diplomáticos, a Suíça não mediu esforços para manter boas relações com o governo ditatorial e passou a perseguir ativistas brasileiros. 

A dupla nacionalidade poupou Jean de uma expulsão. Mas outros exilados políticos não tiveram a mesma sorte. Foi o caso de Apolônio de Carvalho e Ladislau Dowbor. Os dois ex-presos políticos, que também tinham sido torturados no Brasil, foram expulsos da Suíça e tiveram os vistos cassados. O Estado suíço alegou quebra da neutralidade.  Apolônio de Carvalho tinha lutado na Guerra Civil Espanhola e era herói de guerra na França por atuar na resistência contra o nazismo de Hitler na Segunda Guerra Mundial. 

Em um informe, de novembro de 1970, o Ministério das Relações Exteriores do Brasil para a Presidência da República comemorou a expulsão dos ativistas e atribuiu o sucesso às relações econômicas entre os dois países:

“Informação do MRE para o Senhor Presidente da República

FORMAÇÃO DO MRE PARA O SENHOR PRESIDENTE DA REPÚBLICA, NOVEMBRO DE 1970.

(...) A rapidez com que as autoridades federais suíças decidiram expulsar do país os terroristas em questão parece-me dever-se (...) à firmeza com que reclamamos do comportamento do governo suíço no caso e indicamos os danos que causaria às nossas relações políticas e econômicas.

Nunca houve uma ruptura política ou econômica da Suíça com a ditadura brasileira. Nós questionamos a embaixada da Suíça no Brasil em relação a essa postura. Em nota eles responderam que: “uma resposta detalhada exigiria análises que não são possíveis no âmbito da administração federal suíça, pois demandam pesquisas históricas aprofundadas”. A nota também “saúda” a realização de estudos independentes que permitam compreender o passado e promover o debate.

A reportagem faz parte do projeto Perdas e Danos, o podcast que investiga a ditadura militar e que está na segunda temporada. Você encontra mais detalhes sobre a intrincada rede das relações diplomáticas entre a Suíça e o Brasil no episódio 1 da 2ª temporada: Relógio Suíço.

quarta-feira, 1 de abril de 2026

LOJA ACÁCIA GRAPIÚNA INICIA 10 NOVOS MAÇONS

 

LOJA ACÁCIA GRAPIÚNA INICIA 10 NOVOS MAÇONS

Presentes na Sessão Magna de Iniciação na Acácia Grapiúna

 A Loja Maçônica Acácia Grapiúna, nº 95, de Itabuna, promoveu no último domingo (29), Sessão Magna para iniciar 10 novos maçons. A cerimônia contou com a presença de representante das Lojas Maçônica de Itabuna e região Sul da Bahia e foi realizada no Templo da Acácia, à rua Barão do Rio Branco, 10, centro, e a recepção dos familiares e convidados no Sest/Senat.

Na cerimônia presidida pelo Venerável Mestre da Loja Acácia Grapiúna, Hélio Ribeiro de Oliveira, foram iniciados aprendizes maçons Danilo Batista Pereira, Victor Fernandes de Almeida Rocha Correia, Demóstenes Chachá Júnior, João Victor Dutra de Almeida, Alessandro Santos da Conceição, Wildes Batista dos Santos, Jorge Mauro Moreira Dias, Agnaldo Ferreira dos Santos Neto, Murilo Santos de Almeida e Wilson Girotto Marinho Júnior.

Os novos irmãos foram saudados pelos 1º e 2º Vigilantes, Venerável Mestre, Inspetor Litúrgico José Augusto Ferreira Filho, veneráveis mestres convidados e padrinhos dos iniciandos. Um dos momentos de emoção foi a recepção das famílias dos maçons, inclusive com as esposas dos iniciados presenteadas com buquês de flores, como parte do simbolismo do ato.

Após a sessão magna, os maçons, suas famílias e convidados se reuniram no Sest/Senat para um almoço em comemoração ao ingresso dos novos irmãos à Ordem. O evento foi animado pelo músico e um dos iniciando, Wilson Giroto, além de irmãos e convidados, que apresentaram um vasto repertório musical composto de Música Popular Brasileira (MPB) e músicas regionais.

A Loja Maçônica Acácia Grapiúna tem como Venerável Mestre – Hélio Ribeiro de Oliveira, 1º Vigilante – Bruno Feitosa Leitao de Oliveira, 2º Vigilante – Manoel de Souza Brito Filho, Orador – Nélson José Barbosa Lopes, Secretário – Ivan Dantas Fonseca, Chanceler – Jeferson Wazilewski Henkel, e Tesoureiro – Antônio Eduardo dos Santos. O Delegado Distrital é Pedro Jatobá.

A Loja Maçônica Acácia Grapiúna, nº 95, foi fundada foi fundada em 1º de dezembro de 2009. Jurisdicionada à Grande Loja Maçônica do Estado da Bahia (GLEB), a loja opera no Rito Escocês Antigo e Aceito (REAA). As reuniões da Acácia Grapiúna são realizadas sempre às segundas-feiras, às 20 horas. A Acácia Grapiúna possui uma grande atuação na sociedade itabunense, se envolvendo com campanhas e movimentos em benefício de Itabuna e região. 

sexta-feira, 27 de março de 2026

SARTRE, SIMONE E JORGE CHUPARAM CACAU EM ITABUNA

 

SARTRE, SIMONE E JORGE CHUPARAM CACAU EM ITABUNA

O grupo visita a fazenda Progresso e conhece o cacau
(foto - Diário de Itabuna)

 Por Walmir Rosário*

Era uma sexta-feira daquelas qualquer, que não prometia nada de especial ao Itabunense. Entretanto, o dia 19 de agosto de 1959 entrou na história do povo grapiúna. Logo pela manhã chega o voo de Salvador e descem quatro personagens internacionais. Naquele dia, nada de recepções, banda de música, charanga ou uma bela comissão de boas-vindas. Tudo normal, ou quase isso.

Assim que o avião estaciona no aeroporto Tertuliano Guedes de Pinho, apenas uma pessoa demonstrava nervosismo ao vislumbrar quatro passageiros assomarem a porta do aparelho e descerem a escada. Era Moisés Alves da Silva, um generoso mecenas, tido como grande amante das artes, incluída aí a literatura e a filosofia.

Assim que os dois ilustres casais pisam em solo grapiúna trocam longos e afetuosos cumprimentos e efusivos abraços com Moisés. Pelo que se sabe ele, Moisés, era o segundo itabunense a ter contato com o casal de filósofos franceses representantes do existencialismo, Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir. Eles mesmos, em carne e osso em solo grapiúna. Um sonho realizado.

Os intelectuais Jean Paul Sartre e Jorge Amado
(foto - Diário de Itabuna)

O outro casal era bastante conhecido, sendo ele um itabunense da gema, nascido em Ferradas e considerado o mais lido romancista do mundo, portanto um conterrâneo de renome internacional. Ao seu lado, como esperado, sua esposa, Zélia Gattai, chamada pelos jornalistas do Diário de Itabuna de Zélia Amado, em respeito ao nome de família do esposo, nosso ídolo das letras.

Pelo que se comentou, a visita teria sido programada pelo deputado federal e líder do governo federal na Câmara, Aziz Maron. O silencio em relação às visitas seria apenas uma estratégia para não transtornar a permanência dos visitantes com centenas ou milhares de pessoas de toda a região, tornando improdutiva a pesquisa que pretendiam fazer sobre a vida do homem do campo, mais exatamente na cacauicultura.

O casal Simone de Beauvoir e
Jean Paul Sartre na fazenda
(foto - Diário de Itabuna)

Do aeroporto direto para o Lord Hotel, onde foram acomodados por Nelson Muniz Barreto. Após uma rápida toilette e um lanche partiram para a fazenda Progresso, do Coronel Nicodemos Barreto, parte do grupo de fazendas que iria até Buerarema. Apesar de não contar com a presença do coronel e dos filhos, foram recebidos nababescamente na propriedade.

De início, beberam mel de cacau, chuparam a polpa das amêndoas, doces e ácidas, subiram nas barcaças onde secavam as amêndoas, não se amedrontaram e entraram nas plantações, apesar de serem alertados sobre os riscos de animais peçonhentos, cobras, inclusive. Conversaram com os trabalhadores rurais para conhecer de perto o “operário agrícola”, sua vida, família, moradia e salário.

Após agradecer a gentil e tradicional hospitalidade da família Barreto, almoçaram no Lord Hotel e rumaram para Ilhéus. Desta vez, a curiosidade de Sartre era conhecer a vida e o trabalho numa pequena fazenda de cacau, uma burara, como explicou Jorge Amado. Em Ilhéus visitaram amigos de Jorge, o porto e locais turísticos da cidade.

À noite novos compromissos, e já reservada para os visitantes receberem os intelectuais itabunenses e da região, uma considerável legião de admiradores, que colheram autógrafos dos filósofos franceses e do escritor conterrâneo em seus livros. De acordo com os jornalistas do Diário de Itabuna e da Rádio Clube de Itabuna, foi uma festa da inteligência, da elegância e do culto à ilustração.

Na manhã seguinte, um sábado, 20 de agosto, Jorge Amado, Sartre e Simone concederam a prometida entrevista à Rádio Clube de Itabuna, capitaneado pelo diretor Otoni Silva, coadjuvado pelo advogado Wilde Oliveira Lima e o jornalista Cristóvão Colombo Crispim de Carvalho. A esperada entrevista foi anunciada para ir ao ar nos próximos dias, em data e horário exaustivamente anunciados.

Como não poderia deixar de ser, no sábado Jorge e Zélia Amado, Otoni Silva e Moisés Alves da Silva ciceronearam os filósofos Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir ao distrito de Ferradas, berço de Jorge Amado. Posaram para foto
Bem frente à casa do escritor, num preito de gratidão e reconhecimento à terra natal de Jorge Amado.

Em seguida, seguiram para o aeroporto Tertuliano Guedes de Pinho, em Itabuna, e tomaram o primeiro voo com destino a Salvador, onde os aguardavam vários círculos da mais fina intelectualidade baiana. E assim Itabuna viveu dois dias como sendo a capital do existencialismo da liberdade individual, embora eu não conheci o prometido estudo do trabalhador do cacau.


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Radialista, jornalista e advogado.