QUANDO A SOLIDARIEDADE VENCE AS DIFICULDADES![]() |
| Simples capela num barracão foi transformada em Matriz |
Por Walmir Rosário*
Volta e meia me valho de um ensinamento do saudoso Barão de Popoff, que também atendia por Raimundo Kruschewsky Ribeiro (03-08-1925 a 18-02-2015), um ilheense que adorava Itabuna, por desde jovem acreditar na solidariedade do Itabunense, Grapiúna, quando o tema era trabalhar pelo desenvolvimento. Para ele, o companheirismo sempre fez parte da vida do Itabunense quando o assunto era a sociedade.
E essa introdução é apenas para situar acontecimentos da década de 1950, mais precisamente 1958, quando chegaram a Itabuna três frades capuchinhos – Isaias, Justo (italianos) e Apolônio, este brasileiro, pernambucano. A finalidade deles era evangelizar e tornar católicos fervorosos os moradores do bairro Nossa Senhora da Conceição, além de oferecer a educação, dentre outros serviços sociais.
O bairro, também chamado jocosamente de Abissínia, por ter sido violento em décadas passadas, se encontrava em franco crescimento e não dispunha de uma igreja. Na verdade, já existia um pequeno barracão que abrigava uma tosca capela, no qual uma dúzia de fiéis rezavam o terço semanalmente, e em datas esporádicas assistiam às missas, por padres da Igreja de Santo Antônio – no centro –, às vezes o padre Xavier ou Nestor Passos, e a maioria se postava do lado de fora, por falta de espaço interno.
Embora expostos às intempéries, os poucos fiéis não perdiam uma só Ave Maria e outras rezas da liturgia, levados pela força do forte pulmão e voz encorpada do morador Vicente Rodrigues Conceição, que fazia as vezes de diácono da pequena capela já dedicada à Nossa Senhora da Conceição. Era também quem puxava os hinos nas procissões pela rua do bairro, sem a necessidade de microfone e alto-falante.
E não precisava, pois Vicente Conceição era dotado de cordas vocais privilegiadas, nos tons barítono, tenor e baixo, privilégio de poucos, pois cantava de peito aberto em português e latim, sem ter dificuldade alguma de ecoar sua voz pelas ruas do bairro da Conceição. Com isso, conseguia tirar os moradores de dentro de casa, postando-os às portas e janelas, muitos deles acompanhando a procissão.
E aos poucos, a área ao lado do velho e acanhado barracão se transformou em uma obra viva, com máquina bate-estacas, caminhões descarregando areia, brita, cimento e dezenas de operários trabalhando, praticamente todos moradores do bairro. O maior problema era conseguir os recursos necessários para pagar os salários, que ficavam por conta de Frei Justo, o mais comunicativo dos capuchinhos.
Pedir aos católicos mais abastados era a primeira opção, embora nem sempre o total arrecadado chegasse à obrigação contraída. A ação mudava de “clientela” com Frei Justo recorrendo aos pequenos comerciantes e pessoas de menores posses. E o frade não se avexava e dizia que muitos são os colaboradores: os que têm dinheiro ajudam na compra de materiais; os que não dispõem de recursos trabalham com o coração, amor e dedicação, contribuindo com a mão de obra na importante construção.
Logo após a chegada dos novos missionários a futura paróquia ganha outro reforço de peso, com um novo morador: o então Sargento José Paulo dos Santos, comandante do Tiro de Guerra, locutor e articulista das missas e ofícios litúrgicos produzidos pela Voz Mariana. Com o status de novo residente, convidava os Itabunense do centro e outros bairros a visitarem o Conceição, colocando no roteiro a visita à igreja em construção.
E a grande obra prometida vai chegando ao ponto culminante. Com o apoio do Sargento Paulo no programa radiofônico “A Voz Mariana”, as contribuições foram ampliadas e vistas como marcantes para a grandeza bairro da Conceição. E a Voz Mariana conclamava: “Em seus passeios dominicais venham conhecer o belíssimo templo católico que está sendo erigido para ser a Futura Sede da Rainha do Céu.
E em seguida arrematava: “Menor se tornará o sacrifício porque a própria Virgem conduzirá a todos pelo seu amor, e na sua mansidão, ao recinto em que mais tarde louvaremos a sua Imaculada Conceição”. Como se tratava de um reclame (anúncio publicitário à época), solicitava a doação de portas e janelas, que são numerosas, a cobertura e torre que se encontram pela metade, além do piso.
Para não esquecermos do que disse na abertura desta crônica o Barão de Popoff, os capuchinhos batiam em todas as portas e, aos poucos, as boas notícias eram divulgadas nas missas, com os nomes e os valores doados, muitas vezes para o desespero de alguns doadores, que preferiam manter seus nomes em sigilo. E esses anúncios, às vezes, abriam novos corações para novas doações.
De uma só vez foi anunciada a doação do piso da Igreja no valor de CR $ 68 mil (sessenta e oito mil cruzeiros), da lavra de Antônio Costa; o cacauicultor Oscar Marinho Falcão ofereceu as portas e janelas, que custaram CR $ 68 mil; a família do empresário Godofredo Almeida doou o Altar-mor, todo em mármore, no valor de CR $ 100 mil; o professor Antônio Vieira (ex-padre) e seus alunos do Colégio Comercial de Itabuna doaram CR $ 9 mil para os paramentos do altar; o ex-prefeito Miguel Moreira CR $ 30 mil para finalizar algumas obras e o fazendeiro Daniel Rebouças CR $ 150 mil para usar na construção.
Aos poucos, a comunidade do bairro e de Itabuna como um todo passaram a ver com bons olhos a construção da Igreja de Nossa Senhora da Conceição como um vetor de desenvolvimento do bairro. Pleno emprego, comércio local vendendo bastante e os recursos que entravam grande parte ficava na economia do bairro. E os capuchinhos não paravam: promoviam o material, além do espiritual, elevando a alma dos fiéis com Santas Missões, missas diárias, a integração dos jovens e adolescentes nas Cruzadas Eucarísticas, formando coroinhas e futuros seminaristas.
Muito ou quase tudo do que foi feito se torna exemplo de solidariedade para os tempos atuais, que buscam os recursos junto ao poder público. Mudam-se os tempos e com eles os pensamentos e o modo de vida.
*Radialista, jornalista e advogado













