sexta-feira, 3 de julho de 2026

As últimas palavra de Jesus

As últimas palavra de Jesus


As últimas palavras que Jesus falou antes de morrer foram um grito tão agonizante que as pessoas que estavam ao pé da cruz não conseguiam sequer entender o que Ele estava dizendo.
A maioria dos católicos sabe disso.
Aqui está o que a maioria dos católicos nunca ouviu.
"Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste" não é um grito de desespero. É uma citação direta. A linha de abertura do Salmo 22. Um salmo escrito pelo Rei Davi cerca de mil anos antes de Jesus nascer.
Jesus não estava perdendo a fé na cruz. Ele estava citando as Escrituras.
E na antiga tradição judaica, quando um rabino citava a primeira linha de um salmo, ele estava invocando o salmo inteiro. Cada pessoa presente no Gólgota que conhecia a Torá teria reconhecido exatamente o que Ele estava fazendo.
Ele não estava clamando em derrota. Ele estava apontando para uma profecia.
Agora, aqui está o que torna isso impressionante.
O Salmo 22 foi escrito aproximadamente mil anos antes de o Império Romano inventar a crucificação. No entanto, veja o que Davi escreveu.
"Traspassaram minhas mãos e meus pés."
A crucificação não existia quando essas palavras foram escritas. Davi não tinha nenhum quadro de referência para isso. Nenhuma referência histórica. E, no entanto, ali está, escrito nas Escrituras judaicas um milênio antes que o método de execução que o cumpriria tivesse sequer sido concebido.
Mas isso não é tudo.
"Repartem entre si as minhas vestes e lançam sortes sobre a minha túnica."
Os soldados romanos parados sob a cruz fizeram exatamente isso. Apostaram a túnica de um homem moribundo, cumprindo uma linha de poesia escrita por um rei hebreu que estava morto havia mil anos.
"Posso contar todos os meus ossos. Eles me encaram e se alegram com o meu sofrimento."
A crucificação deslocava quase todas as principais articulações do corpo. A vítima ficava suspensa enquanto o peso de seu próprio corpo desmontava seu esqueleto. Cada osso se tornava visível sob a pele.
Davi descreveu isso. Mil anos antes. Em um salmo.
E a maioria dos católicos que ouviu "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste" por toda a vida não tem absolutamente nenhuma ideia de que essas palavras são a linha de abertura da profecia mais detalhada da crucificação já escrita.
Mas aqui está a parte que muda tudo.
O Salmo 22 não termina em agonia.
A maioria dos católicos assume que Jesus morreu em desespero porque conhece apenas o primeiro versículo. Ouvem o grito e sentem a angústia e acreditam que a cruz termina em escuridão.
Não termina.
Os versículos finais do Salmo 22 são uma declaração de vitória total, absoluta e cósmica.
"Todos os confins da terra se lembrarão e se voltarão para o Senhor, e todas as famílias das nações se prostrarão diante dele."
"Futuras gerações ouvirão falar do Senhor. Proclamarão a sua justiça, declarando a um povo que ainda vai nascer: Ele o fez."
Ele o fez.
A palavra hebraica é uma única e estrondosa declaração que os estudiosos traduzem como o equivalente a uma palavra.
Concluído.
A mesma palavra que Jesus falou em Seu último suspiro na cruz.
"Tudo está consumado."
Jesus não morreu citando o começo do Salmo 22. Ele morreu cumprindo o fim dele. E ao citar a linha de abertura, Ele estava dizendo a cada pessoa que conhecia as Escrituras exatamente como a história terminaria.
Não em derrota. Em vitória.
E a maioria dos católicos passou direto por isso a vida inteira. Não porque não se importam. Não porque sua fé é fraca. Mas porque ninguém nunca lhes contou o que o Salmo 22 realmente diz. Ninguém nunca lhes mostrou que o grito e o triunfo são o mesmo salmo. Ninguém nunca lhes deu o contexto que transforma um momento familiar de angústia na declaração mais deliberada da história da salvação.
Esse é o problema que descobri sentado em uma sala com meu grupo de estudo bíblico na paróquia.
Eu ensino as Sagradas Escrituras há 18 anos. E numa quarta-feira à noite, perguntei ao meu grupo o que o Salmo 22 realmente diz.
Silêncio.
Eles se entreolharam. Olharam para suas Bíblias. Olharam para suas anotações.
Uma pessoa disse que era sobre Davi estar triste.
Ninguém sabia que descrevia a crucificação mil anos antes de a crucificação existir. Ninguém havia conectado a linha de abertura ao que Jesus disse na cruz. Ninguém entendeu que o salmo termina em vitória, não em desespero.
Eles o tinham lido. Eles o tinham grifado. Eles o tinham ouvido nas leituras da Semana Santa por anos. E não tinham ideia do que estavam realmente lendo.
Eles entendiam minhas explicações das Escrituras, mas não as Escrituras em si. E no momento em que eu não estava lá para guiá-los, eles estavam perdidos.
Sou catequista. Tenho ensinado as Escrituras há 18 anos. E eu estava falhando com eles o tempo todo.
Naquela noite, depois que todos foram embora, fiquei sentado sozinho naquela sala vazia por um longo tempo, pensando naquele grito da cruz. Pensando em quantas Sextas-Feiras Santas aquelas pessoas tinham ouvido aquelas palavras e beijado o crucifixo sem nunca sentir a vitória escondida dentro delas.
Eles não podiam ver. E não era culpa deles.
Ninguém nunca lhes deu as raízes.
Na manhã seguinte, abri meu computador e comecei a escrever.
Gênesis.
Tudo o que alguém precisa saber antes de ler Gênesis. Quem escreveu. Quando. Por quê. O que estava acontecendo no mundo antigo na época. Os temas principais. Como se encaixa na história maior da salvação.
Não uma homilia. Não uma meditação devocional. Apenas as raízes.
Eu o desmembrei várias vezes até que meu filho adolescente pudesse lê-lo e entendê-lo completamente sozinho.
Depois fiz Êxodo. Depois Levítico. Depois Números.
Cada livro da Bíblia.
Setenta e três páginas. Uma página por livro.
Incluindo os livros deuterocanônicos que a Igreja sempre guardou. Tobias. Judite. Sabedoria. Eclesiástico. Baruc. Primeiro e Segundo Macabeus.
Levei três meses.
Três meses sentado à mesa da cozinha depois que todos iam dormir. Três meses escrevendo e reescrevendo até ficar tão claro quanto eu podia fazer. Três meses pegando 18 anos de estudo e colocando em um formato que qualquer fiel pudesse usar completamente por conta própria.
Nenhum catequista necessário.
Na quarta-feira seguinte, levei aquelas 73 páginas para o grupo de estudo bíblico e coloquei uma cópia em cada lugar.
"Antes de abrirmos nossas Bíblias esta noite", eu disse, "quero que vocês leiam a página sobre os Salmos. Apenas leiam. Depois estudaremos."
Eu os observei ler.
Então eu disse: "Agora abram suas Bíblias no Salmo 22."
E observei algo que nunca tinha visto antes em 18 anos de catequese.
Seus olhos mudaram.
Não confusão. Não olhar vazio.
Compreensão. Pura compreensão.
Uma mulher ergueu os olhos para mim com lágrimas escorrendo pelo rosto.
"Eu ouvi essas palavras toda Sexta-Feira Santa da minha vida. E esta noite é a primeira vez que entendi que Jesus não estava clamando em desespero. Ele estava citando uma profecia que termina em vitória. Ele sabia como terminava. Ele sempre soube."
Um homem do outro lado da sala disse calmamente: "Davi descreveu a crucificação mil anos antes de ela existir. Isso esteve na minha Bíblia a minha vida inteira. E ninguém nunca me contou."
Outra mulher disse: "Eu sempre achei que a cruz era o momento mais sombrio da Paixão. Mas o Salmo 22 termina com todas as nações se voltando para Deus. Ele não estava anunciando Sua morte. Ele estava anunciando Sua vitória."
O resto daquele estudo foi diferente de tudo que eu já havia experimentado antes.
Eles não estavam esperando eu explicar. Eles estavam descobrindo por si mesmos.
Conectando o Salmo 22 aos relatos dos Evangelhos. Conectando as palavras de Davi aos soldados lançando sortes. Conectando "Ele o fez" a "Tudo está consumado."
Vendo o fio que percorre toda a Bíblia, do Gênesis ao Apocalipse, uma vez que você sabe onde procurar.
Eles estavam realmente entendendo as Sagradas Escrituras.
No final da noite, um dos homens mais velhos veio até mim. Ele estava no meu grupo de estudo bíblico há seis anos e era católico praticante há quarenta.
"Catequista", ele disse calmamente, "eu tenho lido a Bíblia a minha vida inteira. E sinto que só agora realmente comecei a entendê-la. Obrigado."
Fui para casa naquela noite e contei à minha esposa o que aconteceu.
"Eles entenderam. Pela primeira vez, eles realmente entenderam."
Isso foi há mais de oito meses.
Desde então, centenas de pessoas me disseram a mesma coisa.
"Esta é a primeira vez que eu realmente entendo o que estava lendo."
Não porque eu seja um catequista brilhante. Mas porque finalmente lhes dei o que eles realmente precisavam.
As raízes.
Quem escreveu cada livro. Quando. Por quê. O que estava acontecendo no mundo na época. Os temas principais. Como cada livro se conecta ao anterior e ao posterior. E como tudo aponta para Cristo e para os sacramentos que a Igreja guarda.
E uma vez que você tem essas raízes, a Bíblia que você pensava conhecer se torna algo que você nunca realmente encontrou antes.
O Salmo 22 é apenas um momento. Há milhares mais como ele esperando nas páginas que você já leu.
Você sabia que a palavra hebraica para "verme" no Salmo 22,6 — "Eu sou um verme, e não um homem" — é tola, o verme carmesim? Que quando o verme tola morre, ele sobe em uma árvore, seu corpo se rompe e ele libera um corante escarlate que mancha tudo abaixo dele. Que depois de três dias, o resíduo carmesim se torna branco. Que Jesus citou este mesmo salmo do madeiro da cruz, Seu corpo foi rompido, Seu sangue foi derramado escarlate, e no terceiro dia tudo mudou.
Você sabia que o cordeiro que Deus providenciou no Monte Moriá para poupar Isaque apareceu na mesma montanha onde o Templo seria mais tarde construído e onde Jesus seria finalmente crucificado? Que Abraão chamou aquele lugar de "O Senhor proverá" e mil anos depois Deus proveu o Cordeiro definitivo naquele exato local?
Você sabia que quando Jesus disse "Tudo está consumado", a palavra grega tetelestai era a mesma palavra carimbada em recibos no Império Romano para significar "pago integralmente"? Que Sua declaração final não era uma afirmação de término, mas de plenitude. Um sacrifício perfeito. Uma dívida cósmica marcada como liquidada. É por isso que a Santa Missa não repete o sacrifício, mas o torna presente. Porque ele foi consumado uma vez por todas.
Contexto muda tudo. Toda santa vez.
Eu o chamo de Broto de Fé. A Viagem das 73 Raízes.
São 73 páginas. Uma para cada livro da Bíblia católica.
Cada página lhe dá o que você precisa antes de ler. Quem escreveu. Quando. Por quê. O que estava acontecendo no mundo na época. Os temas-chave. O simbolismo e as imagens. E como isso se conecta à sua vida de fé hoje, à Liturgia e aos sacramentos.
Escrito em linguagem simples. Sem termos acadêmicos. Sem teologia complicada.
Apenas as raízes que fazem tudo o que você já leu — e tudo o que você ouve na Missa — de repente fazer sentido com todo o peso que Deus pretendia.
Porque aqui está o que eu sei depois de 18 anos ensinando as Sagradas Escrituras.
A Bíblia não é confusa porque não é clara. É confusa porque a estamos lendo sem a fundação que a tornava clara para o Povo de Deus que a recebeu primeiro.
Eles conheciam os salmos de cor. Eles ouviam a linha de abertura e sentiam o final antes mesmo de Jesus falar. Eles O viam citando Davi da cruz e entendiam que o que parecia a hora mais sombria da história era, na verdade, o cumprimento da maior promessa já feita.
Nós ouvimos o grito e perdemos o triunfo por baixo dele.
Este guia lhe devolve essa fundação.
Se você já ouviu "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste" na celebração da Paixão e sentiu o peso disso sem entender a vitória escondida dentro.
Se você já leu uma passagem das Escrituras e sentiu que havia algo mais profundo sob as palavras que você não conseguia alcançar.
Se você já se perguntou o que encontraria na Palavra de Deus se alguém apenas lhe desse as raízes primeiro.
Isto é o que você estava procurando.
Deus não falou da cruz por acidente. Ele nunca faz nada por acidente.
Não permita que a falta de contexto seja o que o impede de entender o que Ele tem dito a você — na Sua Palavra e na Sua Igreja — por toda a sua vida.
Aprofunde-se no mistério da fé ao realmente entender as Sagradas Escrituras.
Não apenas as passagens familiares. Todas elas. A história inteira da salvação.
Foi para isso que o Broto de Fé — A Viagem das 73 Raízes foi criado.
E você pode começar a sua clicando abaixo.

sexta-feira, 26 de junho de 2026

A Cronica de Walir Rosário - Direto do Beco do Fuxico

 

QUANDO A SOLIDARIEDADE VENCE AS DIFICULDADES

em
Simples capela num barracão foi transformada em Matriz


Barão de Popoff

Por Walmir Rosário*

Volta e meia me valho de um ensinamento do saudoso Barão de Popoff, que também atendia por Raimundo Kruschewsky Ribeiro (03-08-1925 a 18-02-2015), um ilheense que adorava Itabuna, por desde jovem acreditar na solidariedade do Itabunense, Grapiúna, quando o tema era trabalhar pelo desenvolvimento. Para ele, o companheirismo sempre fez parte da vida do Itabunense quando o assunto era a sociedade.

E essa introdução é apenas para situar acontecimentos da década de 1950, mais precisamente 1958, quando chegaram a Itabuna três frades capuchinhos – Isaias, Justo (italianos) e Apolônio, este brasileiro, pernambucano. A finalidade deles era evangelizar e tornar católicos fervorosos os moradores do bairro Nossa Senhora da Conceição, além de oferecer a educação, dentre outros serviços sociais.

O bairro, também chamado jocosamente de Abissínia, por ter sido violento em décadas passadas, se encontrava em franco crescimento e não dispunha de uma igreja. Na verdade, já existia um pequeno barracão que abrigava uma tosca capela, no qual uma dúzia de fiéis rezavam o terço semanalmente, e em datas esporádicas assistiam às missas, por padres da Igreja de Santo Antônio – no centro –, às vezes o padre Xavier ou Nestor Passos, e a maioria se postava do lado de fora, por falta de espaço interno.

Embora expostos às intempéries, os poucos fiéis não perdiam uma só Ave Maria e outras rezas da liturgia, levados pela força do forte pulmão e voz encorpada do morador Vicente Rodrigues Conceição, que fazia as vezes de diácono da pequena capela já dedicada à Nossa Senhora da Conceição. Era também quem puxava os hinos nas procissões pela rua do bairro, sem a necessidade de microfone e alto-falante.

E não precisava, pois Vicente Conceição era dotado de cordas vocais privilegiadas, nos tons barítono, tenor e baixo, privilégio de poucos, pois cantava de peito aberto em português e latim, sem ter dificuldade alguma de ecoar sua voz pelas ruas do bairro da Conceição. Com isso, conseguia tirar os moradores de dentro de casa, postando-os às portas e janelas, muitos deles acompanhando a procissão.

E aos poucos, a área ao lado do velho e acanhado barracão se transformou em uma obra viva, com máquina bate-estacas, caminhões descarregando areia, brita, cimento e dezenas de operários trabalhando, praticamente todos moradores do bairro. O maior problema era conseguir os recursos necessários para pagar os salários, que ficavam por conta de Frei Justo, o mais comunicativo dos capuchinhos.

Pedir aos católicos mais abastados era a primeira opção, embora nem sempre o total arrecadado chegasse à obrigação contraída. A ação mudava de “clientela” com Frei Justo recorrendo aos pequenos comerciantes e pessoas de menores posses. E o frade não se avexava e dizia que muitos são os colaboradores: os que têm dinheiro ajudam na compra de materiais; os que não dispõem de recursos trabalham com o coração, amor e dedicação, contribuindo com a mão de obra na importante construção.

Logo após a chegada dos novos missionários a futura paróquia ganha outro reforço de peso, com um novo morador: o então Sargento José Paulo dos Santos, comandante do Tiro de Guerra, locutor e articulista das missas e ofícios litúrgicos produzidos pela Voz Mariana. Com o status de novo residente, convidava os Itabunense do centro e outros bairros a visitarem o Conceição, colocando no roteiro a visita à igreja em construção.

E a grande obra prometida vai chegando ao ponto culminante. Com o apoio do Sargento Paulo no programa radiofônico “A Voz Mariana”, as contribuições foram ampliadas e vistas como marcantes para a grandeza bairro da Conceição. E a Voz Mariana conclamava: “Em seus passeios dominicais venham conhecer o belíssimo templo católico que está sendo erigido para ser a Futura Sede da Rainha do Céu.

E em seguida arrematava: “Menor se tornará o sacrifício porque a própria Virgem conduzirá a todos pelo seu amor, e na sua mansidão, ao recinto em que mais tarde louvaremos a sua Imaculada Conceição”. Como se tratava de um reclame (anúncio publicitário à época), solicitava a doação de portas e janelas, que são numerosas, a cobertura e torre que se encontram pela metade, além do piso.

Para não esquecermos do que disse na abertura desta crônica o Barão de Popoff, os capuchinhos batiam em todas as portas e, aos poucos, as boas notícias eram divulgadas nas missas, com os nomes e os valores doados, muitas vezes para o desespero de alguns doadores, que preferiam manter seus nomes em sigilo. E esses anúncios, às vezes, abriam novos corações para novas doações.

De uma só vez foi anunciada a doação do piso da Igreja no valor de CR $ 68 mil (sessenta e oito mil cruzeiros), da lavra de Antônio Costa; o cacauicultor Oscar Marinho Falcão ofereceu as portas e janelas, que custaram CR $ 68 mil; a família do empresário Godofredo Almeida doou o Altar-mor, todo em mármore, no valor de CR $ 100 mil; o professor Antônio Vieira (ex-padre) e seus alunos do Colégio Comercial de Itabuna doaram CR $ 9 mil para os paramentos do altar; o ex-prefeito Miguel Moreira CR $ 30 mil para finalizar algumas obras e o fazendeiro Daniel Rebouças CR $ 150 mil para usar na construção.

Aos poucos, a comunidade do bairro e de Itabuna como um todo passaram a ver com bons olhos a construção da Igreja de Nossa Senhora da Conceição como um vetor de desenvolvimento do bairro. Pleno emprego, comércio local vendendo bastante e os recursos que entravam grande parte ficava na economia do bairro. E os capuchinhos não paravam: promoviam o material, além do espiritual, elevando a alma dos fiéis com Santas Missões, missas diárias, a integração dos jovens e adolescentes nas Cruzadas Eucarísticas, formando coroinhas e futuros seminaristas.

Muito ou quase tudo do que foi feito se torna exemplo de solidariedade para os tempos atuais, que buscam os recursos junto ao poder público. Mudam-se os tempos e com eles os pensamentos e o modo de vida.


*Radialista, jornalista e advogado

quarta-feira, 17 de junho de 2026

PENTA CAMPEÃO?... EU SOU HEXA!....

 

PENTA CAMPEÃO?... EU SOU HEXA!....

Geraldo Borges aguarda o hexa da Seleção Brasileira

Geraldo Borges Santos*

Escrevo quando o Brasil ainda disputa a Copa Mundo, antes do jogo com a Costa Rica. Todos torcem para ser Penta. Tenho a prazerosa sensação de já ter passado por isto. É verdade!... A Minha geração de itabunenses já sentiu este gostinho. Campeã... Bi... Tri... Tetra... Penta... Hexa... Isto mesmo!... seis vezes campeã. Estou falando do campeonato intermunicipal de seleções de futebol da Bahia, nos anos dourados. Era a nossa copa... o nosso orgulho...

A seleção de Itabuna se constituía no melhor time de futebol amador do nosso Estado. O esquadrão azul e branco fazia tremer o chão da praça. Dentro ou fora de casa, meu time era daqueles que ganhava sempre. Perder? Nem pensar!... Nossa preocupação era uma só: saber de quanto seria o placar.

Costa e Silva foi o primeiro e bom técnico. Gil Neri de Souza continuouo trabalho dele à frente da nossa seleção. Pessoa simples, dirigente que nunca complicava. Praticante da máxima que os técnicos brasileiros teimam até hoje em desrespeitar: “SELEÇÃO NÃO É LUGAR DE EXPERIÊNCIA. ESCOLHE ONZE E BOTA PRÁ JOGAR” - frase famosa do técnico do Botafogo do Rio e depois da seleção brasileira, João Saldanha – o “João sem medo”:

Tivemos craques excepcionais: o magnífico Tertú. Os incríveis Santinho, Tombinho, Ronaldo Dantas, Francisquinho, Piaba e o extraordinário Abiezer, do alto de suas pernas longas e finas, mas de uma eficiência inacreditável. O melhor ponta esquerda que já jogou neste país: Fernando Riella. Jogador que partia prá cima do marcador e fazia fila, driblando um... dois, três... O terror dos laterais direitos. Na hora da falta ele cobrava com precisão. Na hora do ataque adversário, ele defendia.

Ao longo das seis conquistas tivemos outros grandes craques: os Goleiros: o preciso Carlito; o seguro Asclepíades; o calmo, frio e espetacular Plínio; o elástico Luiz Carlos; os zagueiros: Carlos, Humberto, Nocha, Zé David, Almir, Albérico, Leto, Hamilton, todos da confiança da torcida; os meio-campistas: Waldemir Chicão e Carlos Riella, dois clássicos maestros; o determinado Aranha; o catimbeiro e também clássico Tombinho; Bel, que categoria!... Os eficientes atacantes: Carlos Barros; Jonga, Gagé; Zequinha Carmo – nosso artilheiro que recebeu na Fonte Nova a medalha de campeão das mãos do Presidente Juscelino Kubistchek; o estupendo Santinho – cobrador de falta de precisão invejável; os grandes artilheiros Nininho, Florizel, Pinga,

Marinho; Nelson; Jurandir, um ponta esquerdo eficiente e rápido, algumas vezes reserva de Fernando Riella, a quem já me referí e que é um caso à parte. Todos craques. Todos eficazes, determinados, vencedores...

E as viagens para acompanhar o time? Ah!... isto também é inesquecível!... A torcida fiel acompanhava a seleção para onde ela fosse. Afinal, cada jogo era uma festa.

Como era bom ir a Feira de Santana, Santo Amaro, São Felix, Alagoinhas e trazer mais um título. Como era bom encontrar por lá os amigos que estudavam em Salvador, mas que também corriam atrás da camisa azul e branco. Como era bom dividir aquela alegria com todos. Com os nossos imbatíveis craques voltando para Itabuna e percorrendo a Avenida do Cinquentenário em carro aberto.

Ganhamos o hexa campeonato em Alagoinhas: 1x0, gol de Pinga, de cabeça. Terminou o jogo e a festa começou, lá mesmo.

É bom lembrar que a festa havia sido preparada para comemorar o título da seleção deles. Afinal, Alagoinhas empatara em Itabuna, no jogo de ida. Murilo Cavalcante, o então Prefeito da chamada “terra da laranja”, num gesto bonito, de bom anfitrião, não perdeu a oportunidade... e transformou a festa deles numa festa nossa... Abriu o clube social e acolheu a torcida itabunense com um grande carnaval. E os itabunenses lavaram a alma... Por dentro e por fora.

É muito bom ser campeão!... É bom demais ser Penta!... Melhor ainda é ser Hexa. Os itabunenses que o digam.

*Ex-narrador esportivo, jornalista, advogado e professor universitário.

sexta-feira, 12 de junho de 2026

A Cronica de Walmir Rosário.

 

ITAJAÍ, O XERIFE DE DUAS SELEÇÕES

Em pé: Bita, Americano, Carlinhos Pirata, Arnaldo Badaró,
Itajaí e Boinha; Agachados: Pingo, Vilson Longo, Mourão,
Esquerdinha e Luiz Roberto

Por Walmir Rosário*

Pouquíssimos jogadores de futebol foram aquinhoados com a felicidade de serem convocados para duas seleções, e dentre os notáveis estão Ferenc Puskás (Hungria/Espanha), Mazzola (Brasil/Itália), Robert Prosinečki (Iugoslávia/Croácia), Thiago Motta (Brasil/Itália) e Diego Costa (Brasil/Espanha). Eles aproveitaram a dupla nacionalidade ou a dissolução de países. Eu ainda incluo Evaristo Macedo no Barcelona e Real Madrid.

Mas não só exemplos famosos do futebol internacional podem ser incluídos nesta seleta lista. Um grapiúna – itabunense de quatro costados – tem lugar entre os especiais: José Itajaí Andrade Teixeira, nos campos de futebol simplesmente Itajaí, que jogou pela Seleção de Ilhéus e, em seguida foi convocado para a Seleção de Itabuna, a Hexacampeã baiana.

Sem qualquer paixão ou proselitismo, podemos considerar a participação de Itajaí nesta seleta lista – guardada as devidas proporções –, por se tratar de um jogador amador, portanto exposto à paixão dos torcedores devido à rivalidade entre as duas cidades. A convocação nas duas seleções foi motivada pelo futebol técnico e sério que jogava.

Em pé: Luiz Carlos, Santinho, Itajaí, Régis, Déri e Ronaldo;
agachados: Neném, Valdemir, Bel, Danielzão e Evaristo

Vou logo alertando ao torcedor mais jovem que para enfrentar a vibrante, numerosa e apaixonada torcida daquela época era preciso que o jogador possuísse domínio dos nervos, em campo ou fora dele. A primeira palavra que saia da boca de um apaixonado – melhor dizendo, fanático – torcedor, era traidor da pátria, seguida de xingamentos nada amistosos.

No caso de Itajaí, pelo seu comportamento durão, daqueles que não leva desaforo para casa, o oponente pensava duas vezes antes de atacá-lo, pois a resposta vinha pronta, sem pestanejar. Mas os explosivos torcedores aguardavam outras oportunidades para lançar os impropérios, principalmente quando separados pelo alambrado que divide o gramado da torcida.

Itabunense, Itajaí foi morar em Ilhéus por decisão da família para estudar o ginásio, no final da década de 1950. É aí que o um tio morador em Ilhéus e diretor do Vitória ilheense, o convida para residir com ele na vizinha cidade. Convite aceito por ele e a família, Itajaí nem bem se ambienta na nova cidade, recebe o convite para treinar no time, ocupando a mesma posição da equipe anterior: zagueiro.

No Vitória, inicia o treinamento e no primeiro jogo – num domingo –, na primeira bola em que pega um jogador adversário lhe dá um violento pontapé no tornozelo, que virou o pé. Ao voltar pra casa sua tia Djalma, que era muito enérgica disse que iria tratá-lo, mas quando estiver restabelecido, teria que fazer a mesma coisa com ele, se não irá apanhar.

Após passar 20 dias imobilizado (no gesso) Itajaí retorna aos treinamentos e ao disputar uma bola com o mesmo adversário não se contem e vai a forra, numa disputa mais enérgica e aplica um leve bico de chuteira no joelho do colega, tirando a rótula de lugar. E Itajaí diz que ele pagou na mesma moeda. Em seguida se arrepende de ter ido à forra, mas ressalta que serviu como lição.

Meses depois, num treino do Vitória, o técnico escala oito aspirantes para jogar contra o quadro titular, no qual jogava Sílvio Mário. “Marquei ele que não andou em campo”, lembra Itajaí. E essa partida foi fundamental para que iniciasse a jogar de quarto zagueiro no time titular. Daí foi um pulo para ser convocado para a Seleção de Ilhéus, na qual jogou de 1960 a 1962.

De volta a Itabuna, Itajaí é convidado para jogar no Fluminense e fecha um contrato no valor de Cr$ 50 mil (Cinquenta mil cruzeiros), com o diretor Davi Pinheiro, o que era considerada uma boa fortuna. O compromisso era jogar um ano pelo Fluminense amador. Cheque na mão procura o tio Zelito Fontes e comprou 83 bezerros, com direito a pasto grátis.

E não deu outra, também foi convocado para a Seleção de Itabuna, o que despertou a ira dos torcedores ilheenses, logo na primeira partida disputada entre as duas seleções rivais. E como o noticiário da imprensa – jornais e rádios – era motivo de discussão entre os torcedores, a primeira partida “pegou fogo” com Itajaí na quarta zaga da seleção itabunense.

Embora os debates entre os torcedores “incendiavam” as duas cidades, no meio dos jogadores o clima era ameno, pois eram amigos fora de campo, embora não houvesse regalias dentro de campo. Eram adversários. Certa feita um jogador ilheense chegou a lhe confidenciar que alguns torcedores lhe procuraram em particular, oferecendo uma boa soma em dinheiro para que quebrasse a perna do “traidor” Itajaí. E tudo terminou em risadas.

Na Seleção de Itabuna e nos clubes Itajaí era titular e jogou as grandes decisões do Campeonato Intermunicipal, no qual o selecionado itabunense foi hexacampeão baiano de amadores. E Itajaí diz com toda a tranquilidade que eles entravam para decidir o jogo, em Itabuna e nos campos dos adversários, pois eram os melhores da Bahia.

Aos 26 anos Itajaí resolve se aposentar do futebol quando jogava para o Itabuna Esporte Clube, já profissional. Daí se dedicou à carreira de bancário e, posteriormente, empresário da comercialização de cacau, cacauicultor, pecuarista e industrial do leite. Itajaí lembra com satisfação o período em que jogou futebol e foi um dos líderes daquelas equipes vencedoras que tantas alegrias proporcionaram à torcida itabunense.

*


Radialista, jornalista e advogado

sábado, 30 de maio de 2026

NÃO SOU O PAI DO EXISTENCIALISMO, DIZ SARTRE À RÁDIO CLUBE DE ITABUNA - Por Walmir Rosário

NÃO SOU O PAI DO EXISTENCIALISMO, DIZ SARTRE À RÁDIO CLUBE DE ITABUNA

Fernando Maron entrevista Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre
(Foto - Diário de Itabuna)

 Por Walmir Rosário*

Certamente o dia 20 de agosto de 1960, um sábado, entrou para a história da radiofonia de Itabuna, especialmente para a Rádio Clube de Itabuna, ao entrevistar os filósofos franceses Jean-Paul Sartre e Simone Beauvoir. Eles vieram a Itabuna ciceroneado pelo escritor itabunense Jorge Amado e sua esposa, Zélia Gatai.

O interesse maior da ilustre comitiva era a lavoura cacaueira, como era produzido o cacau e em que condições viviam seus trabalhadores. Afinal, essa era a tônica dos romances de autoria do escritor Jorge Amado – incentivado pelo Partido Comunista – e que ganhou o mundo. Na região cacaueira visitaram duas fazendas, a Progresso em Itabuna, outra menor, de Wilson Rosa, em Barro Preto. Em Ilhéus conheceram o porto antigo e o do Malhado, em construção.

Hospedados no Lord Hotel, em Itabuna, que regurgitava de intelectuais, concederam autógrafos e entrevistas para o Diário de Itabuna e Rádio Clube, ambos de Ottoni Silva e Zildo Guimarães. Raras vezes Ilhéus e Itabuna tiveram a oportunidade de registrar acontecimento de significativa importância, com duas personalidades da filosofia – Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir – e Jorge Amado, da literatura.

Para entrevistar as personalidades francesas a Rádio Clube se valeu do amigo e advogado Fernando Maron, que dominava o idioma dos filósofos. De pronto compareceu Simone de Beauvoir, que teceu impressões sobre o que tinha observado nos oito dias de Brasil. Ela achava o país interessante por causa do esforço de desenvolvimento, além de ser belo e fascinante.

Simone, a autora do “Segundo Sexo”, confessou conhecer a região por meio dos livros de Jorge Amado, daí ter uma ideia da região cacaueira e estavam interessados em poder apreciar de perto as plantações de cacau. Na sua visão era uma terra em desenvolvimento, numa projeção de velhas tradições, de uma velha cultura, mas visando métodos muito mais modernos, o que considerou interessante.

Visita ao Porto do Malhado, em construção -
Zélia Gatai, Jorge Amado, Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir,
 Demostinho Berbert e Wilson Rosa (acervo de José Nazal)
Assim que apareceu para a entrevista, Jean-Paul Sartre impressionou Fernando Maron, o entrevistador. Para ele o filósofo era de baixa estatura, olhar do tipo Jânio Quadros, porém mais interessante, mais firme, mais profundo e repousante, como a espelhar um misto de bondade, saber e autodeterminação. Sartre, em sua quase humildade, dá-nos a impressão de um tímido. Mas essa falsa impressão, logo se anula. “Não diminui, não prejudica ou sequer lhe afeta a marcante personalidade”, descreveu.

E continua Fernando Maron a descrever o famoso representante do pensamento existencialista como de uma simplicidade cativante. “Como todo o verdadeiro sábio, parece-nos não ter a preocupação estudada e artificial de impressionar. Jean-Paul Sartre parece dizer-nos eu sou como sou”. E como não poderia deixar de ser, Maron questiona o motivo da vinda à região.

Sartre disse que sempre foi impressionado pelo o Brasil, por ser o mais importante da América do Sul e o mais variado, com problemas mais complexos. Para ele o país é um verdadeiro mundo em comparação com os vizinhos, e são essas contradições que fazem do Brasil um país tão cativante, e a região cacaueira é um exemplo, e aqui confirmou as conversas que sempre tinha com Jorge Amado.

Em Barro Preto, na fazenda de Wilson Rosa
(acervo de Hermann Renhem da Silva)

Ao analisar o homem propriamente brasileiro, disse que lhe parecia haver uma espécie de acordo imediato entre brasileiros e franceses, afinidades, ou identidade de pontos de vista. “Não quero dizer que sejamos sempre da mesma opinião, e sim que estamos em pé de igualdade”. Em relação a Cuba disse ter a impressão que os problemas são diferentes do Brasil, embora sejam urgentes, e que a revolução cubana resolveu perfeitamente.

A impressão de Fernando Maron é que ele não gostava de ser perguntado sobre o Existencialismo, principalmente quando era citado como o criador, pai da doutrina, embora admita ter sido um propulsor, quiçá um inovador. E a pergunta foi emendada pela professora Litza Câmera, sobre o pensamento e quanto ao futuro do Existencialismo.

Primeiramente, disse Sartre, é preciso que se diga de uma vez por todas: sou um entre os filósofos da Existência. A filosofia da Existência data de 150 anos (hoje 216 anos) e foi Kirkegaard quem primeiro tratou do problema da Existência, e desde então houve alemão como Jaspers; franceses a exemplo de Gabriel Marcel; houve Heidegger, um mundo de gente.

Sartre diz que quando vê o desenvolvimento do Existencialismo não pode considerar tal fato como sendo alguma coisa que tenha vindo dos livros que escreveu, mas simplesmente como um grande fenômeno social. Posso dizer que Jaspers é um existencialista cristão e tem algo de religioso; eu sou um existencialista identificado pela doutrina marxista, com visões diferentes.

*Radialista, jornalista e advogado.