sábado, 30 de maio de 2026

NÃO SOU O PAI DO EXISTENCIALISMO, DIZ SARTRE À RÁDIO CLUBE DE ITABUNA - Por Walmir Rosário

NÃO SOU O PAI DO EXISTENCIALISMO, DIZ SARTRE À RÁDIO CLUBE DE ITABUNA

Fernando Maron entrevista Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre
(Foto - Diário de Itabuna)

 Por Walmir Rosário*

Certamente o dia 20 de agosto de 1960, um sábado, entrou para a história da radiofonia de Itabuna, especialmente para a Rádio Clube de Itabuna, ao entrevistar os filósofos franceses Jean-Paul Sartre e Simone Beauvoir. Eles vieram a Itabuna ciceroneado pelo escritor itabunense Jorge Amado e sua esposa, Zélia Gatai.

O interesse maior da ilustre comitiva era a lavoura cacaueira, como era produzido o cacau e em que condições viviam seus trabalhadores. Afinal, essa era a tônica dos romances de autoria do escritor Jorge Amado – incentivado pelo Partido Comunista – e que ganhou o mundo. Na região cacaueira visitaram duas fazendas, a Progresso em Itabuna, outra menor, de Wilson Rosa, em Barro Preto. Em Ilhéus conheceram o porto antigo e o do Malhado, em construção.

Hospedados no Lord Hotel, em Itabuna, que regurgitava de intelectuais, concederam autógrafos e entrevistas para o Diário de Itabuna e Rádio Clube, ambos de Ottoni Silva e Zildo Guimarães. Raras vezes Ilhéus e Itabuna tiveram a oportunidade de registrar acontecimento de significativa importância, com duas personalidades da filosofia – Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir – e Jorge Amado, da literatura.

Para entrevistar as personalidades francesas a Rádio Clube se valeu do amigo e advogado Fernando Maron, que dominava o idioma dos filósofos. De pronto compareceu Simone de Beauvoir, que teceu impressões sobre o que tinha observado nos oito dias de Brasil. Ela achava o país interessante por causa do esforço de desenvolvimento, além de ser belo e fascinante.

Simone, a autora do “Segundo Sexo”, confessou conhecer a região por meio dos livros de Jorge Amado, daí ter uma ideia da região cacaueira e estavam interessados em poder apreciar de perto as plantações de cacau. Na sua visão era uma terra em desenvolvimento, numa projeção de velhas tradições, de uma velha cultura, mas visando métodos muito mais modernos, o que considerou interessante.

Visita ao Porto do Malhado, em construção -
Zélia Gatai, Jorge Amado, Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir,
 Demostinho Berbert e Wilson Rosa (acervo de José Nazal)
Assim que apareceu para a entrevista, Jean-Paul Sartre impressionou Fernando Maron, o entrevistador. Para ele o filósofo era de baixa estatura, olhar do tipo Jânio Quadros, porém mais interessante, mais firme, mais profundo e repousante, como a espelhar um misto de bondade, saber e autodeterminação. Sartre, em sua quase humildade, dá-nos a impressão de um tímido. Mas essa falsa impressão, logo se anula. “Não diminui, não prejudica ou sequer lhe afeta a marcante personalidade”, descreveu.

E continua Fernando Maron a descrever o famoso representante do pensamento existencialista como de uma simplicidade cativante. “Como todo o verdadeiro sábio, parece-nos não ter a preocupação estudada e artificial de impressionar. Jean-Paul Sartre parece dizer-nos eu sou como sou”. E como não poderia deixar de ser, Maron questiona o motivo da vinda à região.

Sartre disse que sempre foi impressionado pelo o Brasil, por ser o mais importante da América do Sul e o mais variado, com problemas mais complexos. Para ele o país é um verdadeiro mundo em comparação com os vizinhos, e são essas contradições que fazem do Brasil um país tão cativante, e a região cacaueira é um exemplo, e aqui confirmou as conversas que sempre tinha com Jorge Amado.

Em Barro Preto, na fazenda de Wilson Rosa
(acervo de Hermann Renhem da Silva)

Ao analisar o homem propriamente brasileiro, disse que lhe parecia haver uma espécie de acordo imediato entre brasileiros e franceses, afinidades, ou identidade de pontos de vista. “Não quero dizer que sejamos sempre da mesma opinião, e sim que estamos em pé de igualdade”. Em relação a Cuba disse ter a impressão que os problemas são diferentes do Brasil, embora sejam urgentes, e que a revolução cubana resolveu perfeitamente.

A impressão de Fernando Maron é que ele não gostava de ser perguntado sobre o Existencialismo, principalmente quando era citado como o criador, pai da doutrina, embora admita ter sido um propulsor, quiçá um inovador. E a pergunta foi emendada pela professora Litza Câmera, sobre o pensamento e quanto ao futuro do Existencialismo.

Primeiramente, disse Sartre, é preciso que se diga de uma vez por todas: sou um entre os filósofos da Existência. A filosofia da Existência data de 150 anos (hoje 216 anos) e foi Kirkegaard quem primeiro tratou do problema da Existência, e desde então houve alemão como Jaspers; franceses a exemplo de Gabriel Marcel; houve Heidegger, um mundo de gente.

Sartre diz que quando vê o desenvolvimento do Existencialismo não pode considerar tal fato como sendo alguma coisa que tenha vindo dos livros que escreveu, mas simplesmente como um grande fenômeno social. Posso dizer que Jaspers é um existencialista cristão e tem algo de religioso; eu sou um existencialista identificado pela doutrina marxista, com visões diferentes.

*Radialista, jornalista e advogado.

sexta-feira, 22 de maio de 2026

BETINHO, O GOLEIRO PROTEGIDO DE PELÉ - Por Walmir Rosário

 

BETINHO, O GOLEIRO PROTEGIDO DE PELÉ

Betinho, goleiro do Itabuna Esporte Clube, no Meu time de Fé

Por Walmir Rosário*

O senhor Albertino Pereira da Silva não se encontra mais entre nós. Deixou saudades. Partiu para outro plano, outro oriente, o céu ou qualquer outro local de denominação pra mim desconhecida. Mas Betinho permanece em nossos corações, nossas mentes, personagem que foi de filmes que assistimos, ao vivo, nos campos de futebol, com mais intensidade em Itabuna e Ipiaú.

Era o Betinho goleiro famoso pelas suas defesas, muitas delas consideradas impossíveis. Corpo de atleta (como deveria ser), mãos enormes (próprias de um goleiro), ousado ao se atirar para pegar a bola que corria à frente dos pés ou na cabeça do atacante. Medo era uma palavra que tinha riscado do seu dicionário há muito tempo.

Alguns cronistas e torcedores comparavam seus “voos” ao pulo de um gato, daqueles que caem sem perder a pose, muito menos a bola. Lembro-me de Betinho quando trazido para o Janízaros de Itabuna por Zelito Fontes e Gerson Souza. De cara, subiu no mesmo pedestal dos grandes goleiros de Itabuna, como Carlito, Asclepíades, Plínio, Luiz Carlos, Ivanildo, Antônio Pires, e outros.

Em sua primeira chegada era um moço simples do interior, não bebia nem fumava (hábitos adquiridos por essas bandas) e se preocupava apenas com o futebol. Quando abria os braços crescia na frente do atacante como se fosse um passe de mágica para fechar o gol. Pouco se importava com a fama ou conceito do adversário, sua função era não deixar a bola entrar nos três paus.

Com o tempo deixa Itabuna e corre cidades defendendo equipes, a exemplo do Independente de Ipiaú, no qual foi titular do time bicampeão. Na sua segunda passagem em Itabuna, atuou como profissional no Itabuna Esporte Clube de 1967, ao lado de Luiz Carlos, dois excelentes goleiros.

No Itabuna de 1970, no primeiro jogo do campeonato baiano, em Vitória da Conquista, mostrou quem era. O centroavante passa mal e o presidente Gabriel Nunes solicita a Betinho que dê seu lugar no gol para Luiz Carlos e colabore jogando no ataque. Betinho nem pensou duas vezes e trocou sua camisa 1 pela 9. Em sua estreia pouco pode fazer e o Itabuna foi derrotado por 2X0 para o Vitória da Conquista, e Betinho mostrou muito além do seu profissionalismo.

Numa certa feita, a equipe do Santos, de Pelé, Pepe, Coutinho, Gilmar, Zito e todos os cobras vem se apresentar em Ilhéus contra o selecionado local. Apesar da rivalidade com os futebolistas de Itabuna, os dirigentes ilheenses pedem aos itabunenses a participação de Betinho no encontro. E Betinho jogou como Betinho, defendendo bolas dos melhores craques brasileiros.

Numa certa feita, mandou seus colegas saírem da barreira, isso numa falta que seria batida por Pepe, o Canhão da Vila Belmiro, que não contou conversa e bateu a falta na gaveta. Tarde chuvosa, bola pesada, pouco importava para Betinho, que voou como um gato e caiu com a bola nas mãos (em frangalhos), para surpresa dos santistas.

E não era pra menos, pois poucos goleiros tinham a coragem de mandar abrir a barreira numa cobrança de Pepe. Assim que caiu com a bola grudada nas mãos, ao seu lado estava Pelé, querendo a sobra para marcar o gol. Vendo Betinho ao chão, deu a mão e falou para Betinho: “Levanta, goleirão, que eu vou lhe levar para jogar no Santos”.

Poucos dias depois, chegam o chamado e as passagens. Era a glória de qualquer jogador ser convidado para jogar no Santos, às vésperas da Copa do Mundo de 1970, mas Betinho não se amoldou às condições da Vila Belmiro e foi dispensado. Ainda jogou pelo Olaria do Rio de Janeiro e peregrinou por vários clubes menores.

O Albertino Pereira da Silva não ajudou o goleiro Betinho quando mais ele precisava. Por mais incrível que pareça, o jogador de futebol não depende somente de sua atuação em campo, driblando, fazendo as melhores jogadas, marcando gols de placa e defendendo outros tantos. O atleta tem que ser ajudado pelo cidadão. Mas valeu tudo o que Betinho fez em campo para a nossa alegria, hoje guardada em nossa memória.

*


Radialista, jornalista e advogado

sexta-feira, 15 de maio de 2026

A MUDANÇA DA CURVATURA ABDOMINAL - Cronica de Walmir Rosário

 

A MUDANÇA DA CURVATURA ABDOMINAL

O providencial descansa barriga de janela

Por Walmir Rosário*

Confesso que desde menino já apreciava uma barriga volumosa, daquelas que todos os bons bebedores de cerveja costumam exibir. Relevante, convexa, das que fazem o abdômen chegar primeiro que o restante do distinto dono do corpo. Não é uma barriga para qualquer um, pois essa curvatura lombar só é adquirida com o passar do tempo e dos costumes do dito cidadão.

E para que os músculos abdominais cheguem a esse estágio o personagem tem que passar por exercícios profundos, a exemplo do relevante levantamento de copo, desde que sentado por longos períodos, de preferência em mesa de bar. E é justamente nestes locais que a curvatura lombar vai surgindo, proveniente do resultado da ingestão da cerveja, tira-gostos dos mais diversos, preferencialmente os mais gordurosos.

Mas isso só não basta, é mais que essencial a vontade de delineá-la ao gosto do “freguês’, melhor dizendo proprietário, empurrando o abdômen para a frente, deixando uma protuberância que combine com a altura e circunferência de cada um, geralmente entre as regiões do abdômen e pélvica. Entretanto, me nego a pesquisar o motivo que algumas pessoas condenam a aparência dessas pessoas, como se doentes fossem e precisassem de tratamento.

Não é de hoje que esse hábito está em voga – em todo o mundo – haja vista as fotografias que podem ser consultadas facilmente no Google. Eu mesmo consegui a foto acima sem qualquer esforço, embora não tenha conhecimento do profissional que a fotografou. Assim que vislumbrei a fotografia em meu pensamento passaram duas visões: ser a publicidade de uma obra de arte francesa, denominada de barriga de janela, ou simplesmente um modelo fotográfico.

Confesso que desconhecia totalmente a utilidade dessa nobre peça da serralharia francesa, providencial para o descanso da protuberância abdominal, também conhecida como barriga de cerveja, ou de chope. Como diz o ditado: “Caiu como uma luva”. Simplesmente permite que o feliz proprietário de uma curvatura lombar convexa permaneça de pé – ou em pé – como queiram, ao apreciar a paisagem externa.

Como disse anteriormente, eu sempre apreciei esse modelo de barriga – desde menino –, chegando ao ponto de prometer a mim mesmo que cultivaria uma e seria alimentada a cerveja. E olhe que naquela época, aqui pelo interior baiano, a exemplo de Itabuna, a pequena variedade da cerveja não nos permitia grandes escolhas.

Quase sempre duas marcas: Brahma e Antarctica. Eu mesmo juro que já vi os cultivadores de barrigas se sentarem à mesa e perguntarem ao dono ou garçom do bar, com voz empostada:

– Eu quero uma Antarctica casco preto e bem gelada –.

E sofria ao ouvir como resposta:

– Só tem Brahma, casco verde, e não está bem gelada –.

E o cliente, resignado, era obrigado a se manifestar:

– Não faz mal, desce assim mesmo, pois hoje acordei espirrando, acho que estou meio gripado –.

E não contava conversa, bebia uma pedia outra com a mesma satisfação como se estivessem estupidamente geladas. Quando alcancei a idade de poder sentar à mesa de um bar guardava na memória todo o vocabulário aprendido por anos a fio. Me fazendo de homem feito, pedi uma cerveja bem gelada e o garçom olhou de soslaio para minha cara e trouxe uma garrafa com a cerveja quente, avisando que estava tudo naquele padrão, ou seja, meio barro meio tijolo.

Num misto de entusiasmo e apreensão, enchi o copo levei-o ao nariz para sentir o perfume e dei a primeira golada. Pense num sujeito acabrunhado, desalentado e desiludido com o gosto amargo da cerveja ainda quente: era eu. Mesmo assim tentei fazer de conta que estava tudo bem para não levantar a suspeita do garçom que me entreolhava do outro lado do balcão.

Aos poucos fui refazendo as energias, acredito que pela euforia do álcool contido na cerveja, pedi a conta e deixei o bar meio descontente, é verdade, mas tentando não dar pistas sobre meu desânimo causado pelo amargor da cerveja. Na semana seguinte, no final do expediente na Rádio Clube de Itabuna, fui tentar a sorte no Ita Bar, junto com os colegas.

Desta vez o amargor já não era tão presente, acredito que neutralizado pela baixa temperatura da cerveja, resfriada no ponto certo dos bons bebedores da “gelada”. Enfim, me reencontrei com os prazeres que sentia em tempos idos, quando bebia apenas com os olhos e me encantava com a protuberância do abdômen convexo dos hoje colegas de mesa de bar.

Mas como a vida nem sempre permanece estável, hoje, após décadas cultivando a barriga de chope, sou recomendado pelo educador físico João Rosário a dar um rumo diferente ao abdômen, tornando-o côncavo. Como não sou afeito aos grandes contrastes vou mudando meu padrão de beleza estética por uma protuberância menor, sem deixar de apreciar o amargor do lúpulo, se é que ainda entra na composição da maioria das cervejas.

*


Radialista, jornalista e advogado

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Chegamos a 1.000.018 de acessos - É festa!

 alhos & bugalhos

Chegamos a 1.000.018 de acessos - É festa!

correioitajuipense.blogspot.com 699.273
correioitajuipensedenoicias.blogspot.com 75.093
apoesiadeclaudioluz.blogspot.com 74.841
academiaalcooldeitajuipe.blogspot.com 150.811

Total 1.000.018

Agradecemos todos que acessaram os blogs e ficaram bem informados com notícias, poesias e artigos diversos.

Continuem a nos prestigiar, pois eremos sempre ótimas postagens para todos.

Gratidão,

Cláudio Luz – o Poeta de Pirangi
Zap – 073 991798476
E-mail luzdoamada@yahoo.com.br

domingo, 3 de maio de 2026

ÉTICA – DO PÚBLICO AO PRIVADO - Por: José Augusto Ferreira Filho

 

ÉTICA – DO PÚBLICO AO PRIVADO

José Augusto Ferreira Filho (IA)

José Augusto Ferreira Filho*

02 de maio amanhece chuvoso no sul da Bahia – um sábado de feriado prolongado, como outros tantos que esse ano de 2026 nos reserva. Ruas mais vazias, repartições públicas fechadas, o silêncio ocupando o lugar da pressa habitual. O Brasil, por um instante, parece suspenso: sem filas, sem carimbos, sem balcões entre o cidadão e o Estado. E, ainda assim, é justamente hoje o Dia da Ética.

À primeira vista, poderia parecer uma ironia. Celebrar a ética num dia em que o serviço público descansa, logo este que é sempre o mais cobrado dentre todas atividades, como se ela dependesse apenas do expediente aberto. Mas talvez haja, nisso, uma oportunidade rara: pensar a ética fora da rotina, sem o ruído das urgências, sem o automatismo dos protocolos. Porque a ética não mora no prédio da repartição — ela habita quem, na segunda-feira, voltará a ocupá-lo.

Os servidores públicos, ausentes hoje de seus postos, não deixam de ser o que são. Carregam consigo — para casa, para o convívio familiar, para o descanso merecido — os mesmos valores que sustentam seu ofício. É no cotidiano invisível, longe dos olhos do público, que se forma o caráter que, depois, se manifesta no atendimento, na decisão, na responsabilidade com o bem comum.

Os servidores públicos, em sua imensa maioria, sustentam o cotidiano do Estado com dignidade silenciosa. São eles que garantem que a escola abra, que o hospital funcione, que o documento seja emitido. São a face concreta do compromisso com o bem comum. Mas também vivem sob a sombra de um sistema que, por vezes, cobra mais do que oferece — e que, não raramente, falha em reconhecer o valor da integridade cotidiana.

E, acima deles, ou melhor, à frente das decisões que orientam o país, estão os agentes políticos. Também em pausa, ao menos formalmente. Mas a ética que lhes cabe não conhece feriado. Não se interrompe com o fechar das portas nem com o apagar das luzes dos gabinetes. Ela os acompanha — ou deveria acompanhar — em cada escolha, em cada articulação, em cada pensamento sobre o uso do poder que lhes foi confiado.

O Brasil contemporâneo, mesmo num sábado silencioso, não se desliga de suas contradições. Elas persistem, latentes, esperando a retomada da semana para voltarem à superfície. Entre leis que apontam caminhos e práticas que insistem em atalhos, a ética continua sendo mais exigida do que exercida — mais lembrada em datas do que vivida na constância.

Mas talvez seja justamente neste intervalo, neste respiro coletivo, que se possa enxergar com mais clareza o que realmente importa. Sem a distração da rotina, resta a consciência. E nela, uma pergunta simples e incômoda: que tipo de serviço público queremos quando as portas se abrirem novamente? Que postura esperamos de quem nos representa?

Porque, mesmo no silêncio de um sábado prolongado, o Brasil continua sendo construído — ou negligenciado — pelas escolhas de cada um. E a ética, ainda que hoje não esteja de plantão, segue sendo chamada para o serviço que nunca deveria parar.

O Brasil contemporâneo conhece bem essa tensão. Entre leis bem escritas e práticas tortuosas, entre discursos moralizantes e condutas contraditórias, a ética muitas vezes parece um ornamento — algo que se veste em ocasiões solenes e se abandona na rotina do poder. E, no entanto, é na rotina que ela mais importa. Não nas grandes declarações, mas nas pequenas decisões repetidas todos os dias.

Há quem diga que o problema é cultural, como se fosse destino. Mas cultura não é sentença; é construção. E toda construção começa com escolhas. A escolha de não favorecer o próximo em detrimento do justo. A escolha de não usar o cargo como escada pessoal. A escolha de lembrar que o poder é transitório, mas suas consequências, não.

Porque, no fim das contas, a ética não transforma o Brasil de uma vez. Mas, sem ela, o Brasil não se transforma nunca.

 *Procurador Municipal - Servidor Público


domingo, 26 de abril de 2026

A expressão Carpe Diem,

A expressão Carpe Diem,

 


Originária de um poema de Horácio, é comumente traduzida como “colha o dia” ou “aproveite o momento”. No entanto, seu significado vai além de um simples incentivo a viver intensamente, sendo muitas vezes usada para justificar a busca pelo prazer imediato e a negligência das consequências futuras.

A origem da frase está relacionada a um período de decadência do Império Romano, quando as incertezas sobre o futuro eram palpáveis. Horácio, ao escrever seus versos, refletia sobre a instabilidade e a possibilidade de que cada dia pudesse ser o último. A frase, portanto, não era apenas uma expressão de aproveitar a vida, mas uma resposta ao desespero gerado pela destruição de um grande império, que estava à beira do colapso.

Com o tempo, a ideia de Carpe Diem evoluiu para um conceito mais otimista, associado ao incentivo de viver plenamente o presente. No entanto, ao entender seu contexto histórico, podemos perceber que ela também carrega consigo uma reflexão sobre a fragilidade da vida e o fim de uma era de estabilidade, que levou à necessidade de buscar prazer no imediato, diante da incerteza do amanhã.

No filme “A Sociedade dos Poetas Mortos”, o personagem de Robin Williams, Professor Keating, utiliza-a assim:

“Mas se você escutar bem de perto, você pode ouvi-los sussurrar o seu legado. Vá em frente, abaixe-se. Escute, está ouvindo? – Carpe – ouve? – Carpe, carpe diem, colham o dia garotos, tornem extraordinárias as suas vidas.”

O poema relacionado à ideia de Carpe Diem, de autoria de Walt Whitman, utilizado como mote no filme:

Aproveita o dia (Walt Whitman)

Aproveita o dia,

Não deixes que termine sem teres crescido um pouco.

Sem teres sido feliz, sem teres alimentado teus sonhos.

Não te deixes vencer pelo desalento.

Não permitas que alguém te negue o direito de expressar-te, que é quase um dever.

Não abandones tua ânsia de fazer de tua vida algo extraordinário.

Não deixes de crer que as palavras e as poesias sim podem mudar o mundo.

Porque passe o que passar, nossa essência continuará intacta.

Somos seres humanos cheios de paixão.

A vida é deserto e oásis.

Nos derruba, nos lastima, nos ensina, nos converte em protagonistas de nossa própria história.

Ainda que o vento sopre contra a poderosa obra continua, tu podes trocar uma estrofe.

Não deixes nunca de sonhar, porque só nos sonhos pode ser livre o homem.

Não caias no pior dos erros: o silêncio.

A maioria vive num silêncio espantoso. Não te resignes, e nem fujas.

Valorize a beleza das coisas simples, se pode fazer poesia bela, sobre as pequenas coisas.

Não atraiçoes tuas crenças.

Todos necessitamos de aceitação, mas não podemos remar contra nós mesmos.

Isso transforma a vida em um inferno.

Desfruta o pânico que provoca ter a vida toda a diante.

Procures vivê-la intensamente sem mediocridades.

Pensa que em ti está o futuro, e encara a tarefa com orgulho e sem medo.

Aprendes com quem pode ensinar-te as experiências daqueles que nos precederam.

Não permitas que a vida se passe sem teres vivido…

Walter Whitman (1819 – 1892) foi um jornalista, ensaísta e poeta americano considerado o “pai do verso livre” e o grande poeta da revolução americana.

sábado, 25 de abril de 2026

A Cronica de Walmir Rosário

 

NEM SEMPRE A HISTÓRIA SE REPETE EM FORMA DE FARSA

Muro erguido para proteger a privacidade de residência

Por Walmir Rosário*

Caso ainda vivo estivesse o ex-governador da Bahia, Octávio Mangabeira (1947-1951) estaria a dar boas gargalhadas com o reconhecimento de uma de suas frases, talvez a mais famosa delas e que o tornou notável (não só por isso), mas que sempre é lembrado quando a reconhecemos em voga: “Pense num absurdo, na Bahia tem precedente”.

E Octávio Mangabeira não era um político qualquer, daqueles que ficam famosos pelo besteirol proferido numa frase infeliz. Era um político de respeito, com um currículo de fazer inveja: engenheiro civil, jornalista, professor, diplomata (ministro das Relações Exteriores), orador e ensaísta. Como político foi Membro do Conselho Municipal de Salvador, deputado federal e senador.

Voltando ao assunto desta crônica, depois de 25 anos um fato ocorrido na cidade mineira de Passos, finalmente, ganhou o noticiário internacional, embora poucas pessoas tenham conhecimento da relação que teria com o precedente baiano. Mas garanto que tem, pois me considero bem informado no tema, apesar dos 25 anos que distancia um do outro, o mais velho em Salvador, que não causou esse bochicho todo.

De pronto me ponho a discordar de Karl Marx, quando disse na obra “O 18 Brumário de Luís Bonaparte (1852), quando construiu a frase: "A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa". Não há nenhuma mediocridade ou mesmo conhecimento dos autores dos fatos, em Salvador ou em Passos. Uma simples coincidência, se é que ela existe.

A notícia amplamente divulgada pela imprensa sobre a construção de um muro no quintal de uma casa para preservar a privacidade dos moradores passou 25 anos incólume do largo conhecimento público, restringida apenas aos moradores de Passos, além de poucos “estrangeiros”. E o que é pior: a notícia é esmiuçada de todas as formas em busca dos culpados.

Num programa de TV que assisti no You Tube, o apresentador questionou até qual o motivo que o vizinho da casa baixa teria ao tentar esconder, como se sua privacidade não fosse um direito fundamental na preservação da dignidade humana. É que enquanto o prédio estava sendo construído ele tentou trocar a área por uma que tinha de maior preço, no centro da cidade, e foi recusada.

Em seguida, tentou comprar os apartamentos cujas janelas permitiriam vasculhar sua casa, seu quintal, sua piscina (?). Depois se propôs mandar fabricar e colocar, a custo zero, um sistema extra janelas que permitisse a ventilação e evitasse a indiscrição. Nova recusa. Aí teve a ideia de erigir um muro com 13 metros de altura para evitar olhares curiosos sobre sua família.

O mais curioso desta história é que os dois moradores estavam legalmente corretos com a legislação municipal que regulava e regula as construções e o direito de vizinhança. Construído o muro, isso lá pelo ano de 2001, a discussão rolou à vontade entre os moradores de Passos. Agora, com a passagem de um influencer o muro passou a ser questionado lá e alhures.

Ainda bem que o caso precedente, em Salvador, a capital da Bahia, aconteceu em 1976, com a comunicação sem os grandes avanços e alcances de hoje, que o fez permanecer paroquiano. Portanto, 50 anos após me veio à mente a luta do pai (cujo nome do saudoso preservo, por ser de família bastante conhecida) de um amigo para defender a privacidade de sua família dos olhos dos moradores do prédio vizinho, à movimentação de seu quintal e piscina.

O proprietário da casa era uma pessoa influente no cenário empresarial, social e político da Bahia, que poderia ter utilizado seu prestígio, mas preferiu abdicar das possíveis vantagens para agir na conformidade da lei. A residência, uma das bem postas e construídas do Horto Florestal, foi devassada por um prédio de três andares, cujo projeto também se encontrava dentro da legislação.

No caso baiano, o proprietário, ao sentir a devassa de sua privacidade, e não possuir os instrumentos legais para barrar a invasão, mandou construir uma estrutura de cano grosso galvanizado, na mesma altura e largura das janelas vizinhas. Ao que tudo parecia, bastaria plantar uma espécie de trepadeira de crescimento rápido que estaria protegido.

Ledo engano. Exatamente aí foi que novos problemas começaram, de verdade, pois as folhas teimavam em cair exatamente na piscina. Eu mesmo presenciei o dono da casa de altíssimo padrão, logo pela manhã retirando as birrentas folhas da límpida e bem tratada água. Hoje sabemos que se ele ou seus arquitetos tivessem pensado na construção de um muro as complicações teriam sido mais que passageiras.

Dois problemas diferentes, em épocas distintas, com soluções díspares, em que as duas partes possuíam direitos. A única diferença é que o avanço da comunicação tornou um dos fatos notórios, ao ponto de ganhar o mundo e debates nas mídias sociais. O pior é que a devassa familiar não foi vista como um bem, um direito por alguns dos comunicadores.

A meu ver, farsa não existiu por serem fatos isolados, acontecimentos díspares, sem qualquer tentativa da segunda tentar imitar a primeira, até por falta de conhecimento.

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Radialista, jornalista e advogado.