FOI A CANAVIEIRAS E VOLTOU SEM CONHECER A CIDADE
Por Walmir Rosário*
Certa feita, o colega jornalista Tyrone Perrucho convida os colegas da Divisão de Comunicação da Ceplac (Dicom) para uma visita de fim de semana a Canavieiras. Aprovação geral, diante das histórias contadas pelo anfitrião sobre a cidade, a hospitalidade dos nativos, as praias, as belezas naturais e a hospitalidade. Fretariam um ônibus, sairiam às primeiras horas da manhã e retornariam na boca da noite.
Saída agendada para as 5 da manhã, a partida foi adiada por dois períodos de tolerância de 15 minutos para completar a lotação do ônibus pelos passageiros retardatários. Já com a porta fechada, eis que chega esbaforido Nisvaldo Damasceno, recém-saído do último estabelecimento etílico onde passara a noite em uma memorável farra.
E a chegada de Damasceno foi uma festa, afinal, todos estavam ansiosos para conhecer pessoalmente Canavieiras, a conhecida Princesinha do Sul, Terra Mater do cacau, contada em prosa e verso pelo colega Perrucho. E os turistas ceplaqueanos estavam ávidos para chegar cedo, haja vista que a estrada não era lá essas coisas, ainda de terra batida.
Todos já faziam planos sobre a visita, os comes e bebes tão propalados, as preciosas moquecas de peixes pescados quase na hora, a famosa “Cabeça de Robalo”. Iguaria tida como a mais fina da culinária local, ganhou fama após as grandes encomendas feitas por Antônio Carlos Magalhães (ACM) para as grandes recepções no Palácio de Ondina.
Alguns mais chegados ao turismo etílico não viam a hora de visitarem os barzinhos de ponta de rua, que serviam cerveja bem gelada nos velhos refrigeradores que funcionavam a querosene e a gás. Também comeriam os tira-gostos de carne de jabá, cortada na hora, e assada no papel de embrulho alimentado com álcool. Tudo como nas histórias contadas por Perrucho.
Com Nisvaldo Damasceno já acomodado nas últimas poltronas dormindo o sono dos justos, somente era lembrado assim que roncava mais alto. Na primeira parada na estrada continuou dormindo, e estrada afora refastelado nos braços de Morfeu. Ao ser acordado pelos colegas em solo canavieirense se deu conta que calçara um par de meias trocadas, o que pouco importava.
Ainda acometido pela farra da noite anterior, a contragosto, desce do ônibus e embarca numa canoa com destino à ilha da Atalaia (ainda não existia a ponte). Canoa lotada, na travessia após algumas brincadeiras feitas pelos colegas, sem querer faz um movimento brusco e quase cai da embarcação, sendo salvo providencialmente pelos colegas.
Na ilha da Atalaia, os visitantes iniciam uma nova farra, e para se livrar da ressaca do dia anterior “mergulham em águas profundas”, armazenadas em garrafas e litros, quentes ou geladas. Tira-gostos de peixes e camarões fritos, a famosa Cabeça de Robalo, e outras iguarias servidas por Domingão no não menos famoso “Meu Cacete”, nome de batismo do boteco e restaurante mais conhecido da Atalaia.
E era uma festa sem igual, uns tomavam banho no riacho ao lado, outros foram conhecer a praia. Sem a menor cerimônia provavam todas as bebidas que lhes eram oferecidas, quentes ou bem geladas, demonstrando bom apetite com os acepipes servidos e que faziam jus às histórias contadas pelo colega Tyrone sobre sua terra natal.
Após o festival de tira-gostos e moquecas, retornam a centro de Canavieiras, entram no ônibus e fazem um rolê pela cidade. Mais uma parada foi feita na saída da cidade para o reabastecimento da bebida. Na saída é que sentem a ausência de Damasceno, encontrado nas últimas poltronas do ônibus, dormindo como um anjinho, não fosse o barulho do ronco. Acordou já em Itabuna, sem saber que estaria em terra firme e próximo de casa.
No dia seguinte, em plena segunda-feira de trabalho, eis que Nisvaldo Damasceno chega à Divisão de Comunicação (Dicom) meio desanimado. Logo ao assinar o livro de ponto ouviu os colegas comentando as peripécias da viagem, os atos, fatos e gozações, o que eram novidades para ele. E aí Damasceno não resiste e pede a Tyrone Perrucho: “Eu preciso que você marque nova viagem, pois passei um dia inteiro por lá e não tenho a menor ideia de como é Canavieiras”.
Após sua aposentadoria da Ceplac, Damasceno – grande digitador e revisor sem igual – o convidei para trabalhar nos jornais Agora e A Região. Sempre que comentávamos sobre a viagem ele renovava o pedido de um segundo passeio e, apesar das constantes solicitações não foi atendido na nova excursão. E Damasceno partiu deste mundo sem jamais ter conhecido Canavieiras.
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*Radialista, jornalista e advogado.






