sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Walmir Rosário

 

O CONHECIMENTO, SUA DIFUSÃO NA SOCIEDADE E A UESC

Alessandro Fernandes de Santana, Reitor da Uesc

Por Walmir Rosário*

Agora em Itabuna, estou mais perto da Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc), respirando os ares da sabedoria emanados daquele centro de conhecimento, que vem acumulando troféus e títulos de excelência. Felizmente a Uesc tomou um caminho bem diferente de outras instituições de ensino superior, que descem ladeira abaixo neste Brasil contemporâneo.

De pronto, dou pleno conhecimento público que não estou alisando os bancos de nenhum curso superior, o que me faria bem, mas tão somente bisbilhotando o Centro de Documentação (Cedoc). Quase todos os dias, munido de máscara contra a poeira e ácaros, e luvas para me livrar das velhas tintas gráficas, estou espreitando, conferindo as páginas dos jornais antigos de Ilhéus e Itabuna.

São edições incompletas em determinados anos, mas permite pesquisar o que acontecia em épocas passadas. As minhas visitas seriam apenas (não são mais) para rever as glórias do futebol de Itabuna, por meio dos seus times e da eterna vencedora Seleção de Itabuna, assuntos para futuros livros, com a missão de informar aos que não tiveram a felicidade de viver àquela época.

Com a mão nas páginas, relembro fatos tantos vividos pela sociedade pretérita em Itabuna, Ilhéus e região sobre a economia, as agruras sofridas pela cacauicultura, bem como os bons tempos em que a tonelada de cacau era vendida nas bolsas de Nova Iorque e Londres a preços compensadores, coisa de US$ 4,5 mil até US$ 5 mil, tudo contado em dólares.

A sociedade mantinha um padrão de vida bem confortável e Itabuna se dava ao luxo de tocar os discos em LPs e compactos (poucos sabem o que é isso) em lançamentos simultâneos com o Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador. Mas como nem tudo são flores, os protestos e reclamações apareciam estampados nas páginas de nossos jornais sem a menor cerimônia.

O que acontecia na política ganhava destaque, inclusive os aumentos de impostos que pesavam sobre o cacau, figurinha carimbada nos tempos ruins, a salvação da lavoura do governo do estado para pagar os gastos feitos em outras regiões. A conta não era nossa, mas o governador jurava que deveria ser paga por todos. E como o cacau faturava, sentava-se à cabeceira da mesa.

E a Uesc vem assumindo uma responsabilidade com a sociedade sul-baiana ao guardar, manter intacto, catalogar e disponibilizar toda a produção dos meios de comunicação de épocas passadas, mantendo viva a história do povo grapiúna. Além de jornais, a Uesc também registra em seu acervo a história do Poder Judiciário em Ilhéus e milhares de documentos históricos importantes. Se tornou a guardiã da nossa história.

No Centro de Documentação estão disponíveis, por exemplo, os jornais Diário da Tarde, de Ilhéus; o Tabu, de Canavieiras; o Diário de Itabuna e o Agora, de Itabuna, este através de um esforço recíproco da sociedade. E o Reitor Alessandro Fernandes de Santana acolheu o pleito, sensível que é aos reclames da sociedade, sobretudo do que diz respeito às questões sociais, sobretudo à educação.

Sei que a Uesc muito ainda tem que caminhar, mas os louros obtidos nesse trajeto é um sinal bastante positivo, o que nos leva a crer e vislumbrar uma universidade “coladinha” com a sociedade. A Uesc pode e deve ser o carro-chefe do pensamento regional, com poderes para influir na renovação da tecnologia e nas mudanças que levem ao desenvolvimento.

O Magnífico Reitor Alessandro Fernandes tem ao seu lado cabeças pensantes capazes de elaborar e tocar projetos em todas as áreas do conhecimento, notadamente na comunicação. Se a Uesc tem gente à disposição, também possui prédios herdados do Instituto de Cacau da Bahia (ICB) que podem abrigar esses novos serviços à sociedade.

Quem sabe, todo esse acervo de comunicação poderá ser reunido num grande projeto disponibilizado à sociedade após a digitalização, tratamento gráfico com o que existe de mais moderno na informática. De casa, do escritório, aqui no Sul da Bahia, Estados Unidos ou Japão estará disponível em apenas alguns cliques. Afinal, uma universidade é um centro de sabedoria com a missão de tornar as pessoas mais inteligentes. E a hora é agora.


*Radialista, jornalista e advogado.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Gil Velloso, um itajuipense genial

Gil Velloso, um itajuipense genial 



Gil Velloso, um excelente compositor e produtor musical brasileiro que se desenvolve com grande competência e sucesso pelo país, com extenso e extraordinário serviço prestado a música popular do nosso Brasil. Temos o grande prazer em apresentá-lo através de uma entrevista, e também com um resumo da sua biografia, mostrando o quanto é grande, valiosa e extremamente diversificada a sua história no âmbito da arte deste país.

Como citei anteriormente, ele transita sutilmente por diferentes vertentes, compondo, produzindo e ainda tem um canal no YouTube, onde apresenta interessantes entrevistas com diferentes artistas. O estimado amigo Gil Velloso teve a gentileza em contar toda sua história relatando com extremos detalhes os momentos super importantes da sua vida, hoje com 67 anos.

Minha mãe era uma guerreira, fez de tudo para educar os filhos” eu ainda garoto, trabalhei no início da década de 1970, ainda adolescente, no Bar Natal, do saudoso Fernandinho Curió, na Praça Vereador José Adry em Itajuípe. Radicado na mais populosa capital do país, me orgulho em ter nascido em Itajuípe, onde ainda vive meus primos e alguns amigos de infância. Itajuipense raiz, meu sonho, desde criança, era ser músico, mas, as condições de meus pais trabalhadores rurais Bidú e dona Paulina não permitiam sequer comprar um violão para o filho.

Ainda garoto, já querendo dar os primeiros passos na arte musical, me lembro que tive na Aliança dos Artistas, por um período, aula de música com o maestro Joel Carlos, do Rio de Janeiro, onde despertei, de fato, meu gosto pela música e também, sempre corria até os ensaios da magnífica banda de bailes “Os Brasas”, comandada pelo saudoso João, Antonilson, Jaelson, Arnaldo e Tonhão, e ficava encantado com cada acorde. Até que um dia pedi para Tonhão deixa-me fazer uns acordes na sua guitarra. Daí para frente eu não tirava da cabeça o sonho de ser músico – já sabia que era isso que mudaria a minha vida.

Minha mãe, querendo dar um futuro melhor para os 16 filhos, achou que o futuro da família não estava na terra do cacau e migrou para São Paulo assim que eu terminei o ensino fundamental na então Escola de Comércio. Como a maioria dos retirantes nordestinos, chegando a capital paulista, todos tinham um só objetivo: trabalhar, estudar, lutar para vencer na vida – e foi exatamente assim que aconteceu. Meus saudosos pais conseguiram formar todos os filhos – lutaram, constituíram suas famílias e venceram cada uma dentro das suas opções profissionais.

Familiares de Gil Velloso.


“Minha mãe era uma guerreira, fez de tudo para educar os filhos”, que se formou em Administração pela Universidade Franciscana. No início da sua carreira profissional, como músico e compositor no final da década de 1970, eu que, na ocasião, tinha longos cabelos, tive o nome artístico dado pelo produtor musical Frank Arduim devido ser baiano e ter características físicas semelhantes ao renomado artista conterrâneo Caetano Veloso.

“Nunca foi pretensão de minha parte comparar os talentos, foi homenagem mesmo”.  Com o nome artístico já definido, eu Gil Velloso entrei de cabeça no mundo da música e fiz carreira como contrabaixista, compositor e produtor musical ao lado do consagrado músico, meu ídolo, Tim Maia, bem como meu saudoso compadre Luiz Melodia e outros artistas renomados como Os Originais do Samba, Genival Lacerda, Peninha, Casa das Maquinas, Neguinho da Beija Flor, Roberto Ribeiro, Carlos Dafé, Luiz Ayrão, Agepê, Emilio Santiago e Kátia.

Como a maioria dos retirantes nordestinos, chegando a capital paulista, todos tinham um só objetivo: trabalhar, estudar, lutar para vencer na vida – e foi exatamente assim que aconteceu. Meus saudosos pais conseguiram formar todos os filhos – lutaram, constituíram suas famílias e venceram cada uma dentro das suas opções profissionais. “Minha mãe era uma guerreira, fez de tudo para educar os filhos”. Eu me formei em Administração pela Universidade Franciscana. Voltando ao início da minha carreira profissional. Como músico e compositor no final da década de 1970, eu que, na ocasião, tinha longos cabelos, tive o nome artístico dado pelo produtor musical Frank Arduim devido ser baiano e ter características físicas semelhantes ao renomado artista conterrâneo Caetano Veloso. “Nunca foi pretensão de minha parte comparar os talentos, foi homenagem mesmo”. Com o nome artístico já definido, como Gil Velloso entrei de cabeça no mundo da música e fiz carreira como contrabaixista, compositor e produtor musical ao lado do consagrado músico, meu ídolo, Tim Maia, bem como meu saudoso compadre Luiz Melodia e outros artistas renomados como Os Originais do Samba, Genival Lacerda, Peninha, Casa das Maquinas, Neguinho da Beija Flor, Roberto Ribeiro, Carlos Dafé, Luiz Ayrão, Agepê, Emilio Santiago e Kátia.


Neguinho da Beija Flor


Luiz Airão



*
Por: Sergio Da Silva Lima

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Zuzu Angel a busca não acabou


Zuzu Angel


O amor de uma mãe talvez seja a força mais inexplicável que exista. Ele não tem forma, não tem lógica, não tem limite. É o tipo de amor que levanta peso que nem existe no mundo físico, que atravessa portas fechadas, que resiste a governos, que desobedece a qualquer ordem. E é exatamente por isso que a história de Zuzu Angel não cabe numa palavra pequena. Ela é enorme porque começou com o que há de mais simples: uma mãe tentando proteger os filhos.

Zuzu nasceu em 1921, em Curvelo, Minas Gerais, cercada de agulhas, bordados e do trabalho das mãos femininas. Cresceu vendo mulheres criarem beleza com paciência e fibra. Mais tarde, já jovem, mudou-se primeiro para Belo Horizonte e depois para o Rio de Janeiro. Foi no Rio que conheceu Norman Angel Jones, um mecânico de aviões americano. Os dois se apaixonaram, casaram, tiveram três filhos: Hildegard, Ana Cristina e o primogênito, Stuart. O casamento acabou, e Zuzu ficou sozinha com três crianças num país desigual, caro e difícil.

E é aqui que a história dela começa a se tornar gigante, muito antes de qualquer fama.

Zuzu costurava para sobreviver. Costurava para colocar comida na mesa. Costurava para pagar escola. Costurava para não deixar faltar nada. Montava peças em casa, vendia na vizinhança, fazia roupa sob encomenda para conseguir pagar as contas. Era o Brasil das mulheres anônimas que sustentam o mundo com trabalho invisível. E Zuzu era uma delas.

Só que, daquelas linhas, começou a nascer outra coisa.

Um estilo.

Uma identidade.

Uma estética brasileira que ninguém tinha visto antes.

Flores, rendas, cores, pássaros, bordados que respiravam o nosso país.

A costureira virou estilista.

A estilista virou referência.

A referência virou exportação.

E, num salto impossível, Zuzu Angel se tornou uma das primeiras brasileiras reconhecidas internacionalmente na moda. Ela abriu uma loja própria. Desfilou em Nova York. Virou nome em revistas. Criou uma marca. Se tornou símbolo. Mas nenhuma dessas conquistas preparou Zuzu para o que estava por vir.

Porque essa não é a história de uma artista.

É a história de uma mãe.

Stuart, seu filho mais velho, cresceu inteligente, sensível, inconformado com injustiças. Nos anos 60, quando o Brasil mergulhou em repressão, censura e violência de Estado, ele se aproximou dos grupos de resistência. Entrou para o MR-8. Eram tempos em que escolhas políticas não eram teoria: eram risco de vida. Stuart acreditava na liberdade e acreditava que o país precisava enfrentar o autoritarismo. E essa escolha custou tudo.

Em 1971, Stuart foi preso pelo DOI-CODI, no Rio de Janeiro. Não houve direito, não houve defesa. Houve tortura. Há testemunhos de que ele foi amarrado à traseira de um jipe, com a boca presa ao cano de escapamento, e arrastado enquanto aspirava gás tóxico até morrer. É uma crueldade que desmonta até quem só lê sobre ela. Imagine a mãe.

O corpo nunca foi devolvido.

Nunca teve certidão.

Nunca teve túmulo.

Foi apagado, como se desaparecimento fosse solução para crime.

E esse foi o momento exato em que Zuzu deixou de ser apenas uma estilista e se tornou uma força que nenhum regime conseguiu conter.

Zuzu buscou o filho de forma obsessiva. Bateu em quartéis, gabinetes, embaixadas, jornais, igrejas. Levou o nome de Stuart ao Senado dos Estados Unidos, à imprensa internacional, a organizações de direitos humanos. Escreveu cartas. Guardou provas. Reuniu depoimentos. Resgatou testemunhas. E fez o impensável: transformou sua moda em denúncia. Em 1971, apresentou um desfile histórico em Nova York onde suas roupas carregavam tanques, anjos caídos, gaiolas, manchas de sangue, pássaros aprisionados. Era arte, moda e grito. Era dor transformada em tecido.

O Brasil tentou calar.

Zuzu não parou.

E quando uma mãe não recua, o Estado treme.

Em 14 de abril de 1976, Zuzu dirigia seu Karmann-Ghia pela Estrada da Gávea. Um carro a perseguiu. Houve um impacto. Zuzu morreu na hora. O regime chamou de “acidente”. Mas documentos e testemunhos revelados décadas depois mostraram o que todo mundo já sabia: Zuzu Angel foi assassinada pela ditadura militar brasileira, assim como seu filho.

O corpo de Stuart nunca apareceu.

O corpo de Zuzu foi silenciado.

Mas a história dos dois continua falando.

No fim, Zuzu Angel nos deixa uma verdade que não envelhece: nenhum governo, por mais cruel que seja, é maior que o amor de uma mãe. O que fizeram com ela e com Stuart não é política. É humanidade quebrada. É o retrato de um tempo em que falar podia custar a vida, e amar custou duas.

Zuzu enfrentou o Estado com linha, agulha, coragem e dor. E pagou com a própria vida, porque algumas mães não aceitam o silêncio. E silenciam quem ama quando não conseguem apagar quem morreu.

Essa é a história real dela, inteira, pesada, humana e impossível de esquecer.

Siga-me para receber diariamente curiosidades e histórias que farão você refletir sobre o mundo em que vive

 


A Cronica de Walmir Rosário

 

AS ARTIMANHAS DE TYRONE PERRUCHO E AS NOVELAS DA GLOBO

Tyrone Perrucho prova novo óculos (foto -Júnior Trajano) 

Por Walmir Rosário*

Na sede da Ceplac, na rodovia Ilhéus – Itabuna, Tyrone – ou melhor, Perrucho – era um “boa praça”, sempre disposto a contar uma boa piada, ou simplesmente produzir situações inusitadas, sempre de forma discreta, disfarçada ou dissimulada. Nada que comprometesse ou que tivesse a intenção de prejudicar um colega, e sim a finalidade de alegrar o ambiente. E não foram poucas as vezes em que arquitetou boas safadezas, no bom sentido.

Certa feita, um ceplaqueano se apaixonou pelas novelas da Globo e iniciou a produção de várias, enviando os roteiros para o departamento da Vênus Platinada. Grandes pacotes com as sinopses eram postados nos Correios à vista de todos. Entretanto, não chegava uma simples resposta, nenhuma avaliação, um pedido de mudança, ou que parasse de mandá-las por falta de interesse da emissora.

E esse tratamento indelicado, beirando ao desprezo, começou a afetar o pretenso famoso novelista da Global, que passou a sofrer com a solidão que sentia em seu mundo intelectual. Centenas de páginas eram enviadas, e mesmo com o custo elevado cobrado pelos Correios, e nenhuma reposta. E isso passou a afetar o trabalho do colega, que foi diagnosticado como depressivo.

Certo dia, sem qualquer aviso-prévio, eis que chega um envelope postado no Rio de Janeiro e entregue pelos Correios ao nosso promissor autor de novelas, tendo como remetente o Departamento de Novelas da Rede Globo. Nosso colega escritor quase morre de emoção e, com as mãos trêmulas, abre o envelope, e não acredita no que vê: uma correspondência analisando, meticulosamente, sua última obra.

E mais, muitos elogios pelos trabalhos enviados e os pedidos de desculpas diante da demora do contato, culpa da monumental quantidade de sinopses recebida diariamente e que levavam tempo na análise. Sim, eles eram criteriosos e cada proposta era lida por três profissionais gabaritados, o que levava muito tempo na observação. Mas teria valido a pena, pensou, e já se via fazendo parte da galeria de brilhantes intelectuais televisivos brasileiros.

Em tempo, finalmente, o sucesso tinha chegado. Agora, bastava arregaçar as mangas, pedir a antecipação das férias vencidas à Ceplac e estender noites a dentro para fazer uma criteriosa revisão, conforme solicitavam os dirigentes da Globo. Após longos 45 dias de trabalho, nosso colega novelista envia um novo pacote pelos Correios, com as recomendações de rapidez, pagando uma verba extra ao novo serviço lançado: o Sedex.

Agora era só aguardar a aprovação. Planos para o futuro davam voltas com a rapidez de um avião supersônico em seu cérebro. Em determinados momentos pensava solicitar uma licença sem vencimentos à Ceplac, quem sabe se desligar de vez, pois sabia que não daria conta dos afazeres na instituição e na Rede Globo. Teria que chefiar um grupo de redatores para dar conta da nova novela global.

Enquanto imaginava o sucesso de sua obra em todo o Brasil e, quem sabe, no exterior, chegou a consultar amigos e chefes sobre a possibilidade de sua saída da Ceplac, seus novos planos, mas tudo com muito cuidado. E como o tempo não para, nosso colega começa a se impacientar com a demora da contratação. Três meses e nenhuma correspondência, nenhum contato, sequer as informações pessoais para o envio da passagem aérea para o Rio de Janeiro.

Mas como nesse mundo de meu Deus nada fica permanentemente em segredo, algumas pessoas tomam conhecimento que as correspondências da Rede Globo, apesar do carimbo de postagem do Rio de Janeiro, teria sido realizada em Itabuna, parte dela na sede regional da Ceplac. Mas como explicar o carimbo dos Correios numa agência de uma das grandes avenidas do centro do Rio de Janeiro?

Amarrando as pontas, os colegas chegaram à conclusão de que tudo não passava de uma singela brincadeira de Perrucho (Tyrone), que teria resolvido dar um empurrãozinho no sentido de recuperar a autoestima do colega ceplaqueano. Aproveitando a viagem de outro colega ao escritório de compras da Ceplac, no Rio de Janeiro, teria pedido para que fizesse a postagem. Na verdade, a intenção era tornar a correspondência um medicamento eficaz no combate à depressão do colega.

Apesar de alguns colegas explicarem ao futuro novelista que a correspondência teria sido uma simples molecagem de uma pessoa que o admirava, o “intelectual” ceplaqueano nunca acreditou nessa versão, pois possuía todas as provas materiais enviadas pelos dirigentes da Vênus Platinada. E ele não perdeu a esperança e continuou a dedicar parte de suas noites às novelas que fariam retumbante sucesso.

De forma dissimulada, (Tyrone) Perrucho sempre lhe perguntava quando suas novelas iriam ao ar, mas elas nunca apareceram na telinha da Globo.


*Radialista, jornalista e advogado

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Franca Viola

Ela tinha apenas 17 anos, e a legislação da época a obrigava a se casar com seu e*tupr4dor ou carregar uma “desonra” para o resto da vida.

Ela recusou.

Em 1965, Franca Viola era uma jovem vivendo em Alcamo, na Sicília, quando tomou uma decisão que mudaria o rumo da história da Itália. Antes disso, porém, ela precisou sobreviver ao que veio pela frente.

Franca havia rompido um namoro com Filippo Melodia, um homem ligado à máfia que não aceitava ser rejeitado. No dia 26 de dezembro de 1965, Melodia e um grupo de homens 4rmados invadiram a casa da família dela. Eles agrediram sua mãe. Levaram Franca à força — e também seu irmão, Mariano, de apenas oito anos, que tentou defendê-la.

Mariano acabou solto. Franca não.

Ela passou oito dias em cativeiro. Foi est#pr4da, ameaçada e pressionada repetidas vezes a aceitar se casar com o agressor.

Porque, na Itália de 1965, essa era considerada a “solução”. Era o que dizia a lei.

O Artigo 544 do Código Penal Italiano permitia que um est*pr4dor escapasse de qualquer punição caso se casasse com a vítima. Esse pacto era chamado de “matrimonio riparatore” — o “casamento reparador”.

A ideia por trás disso era que a união “restituísse” a honra da mulher, supostamente perdida após o est#pro.

A honra dela — não o crime cometido por ele.

Isso não pertencia a um passado distante. Era 1965 — o ano em que os Beatles lançaram “Yesterday” e em que os EUA enviaram tropas ao Vietnã.

Na Itália daquela época, esperava-se que vítimas de est#pro se casassem com seus est*pr4dores ou passassem a vida como mulheres consideradas “manchadas” e indignas de casamento.

Quando Franca finalmente voltou para casa após os oito dias de sequestro, praticamente todos — a comunidade, a sociedade e até alguns de seus parentes — acreditavam que ela faria o que sempre se esperava de uma mulher: aceitar o casamento e seguir a vida carregando a marca da violência.

Franca Viola disse não.

Com o apoio de seu pai, ela rejeitou a proposta de se casar com Filippo Melodia. E fez algo inédito: registrou a denúncia e decidiu levá-lo à justiça.

A retaliação foi imediata e violenta. Sua família foi isolada, suas terras foram incendiadas e seu nome virou sinônimo de “vergonha”. Na Sicília, onde os códigos de honra eram rígidos e a máfia tinha forte influência, desafiar essa tradição significava correr riscos reais.

Mesmo assim, Franca não desistiu.

O julgamento virou um acontecimento nacional. Pela primeira vez, os italianos foram obrigados a encarar a realidade de uma lei que protegia est*pr4dores e punia vítimas. Os jornais acompanharam cada detalhe. O país se dividiu entre quem apoiava a coragem da jovem e quem a atacava por “trazer vergonha” à própria família.

Em 1966, Filippo Melodia foi condenado a onze anos de prisão.

Franca Viola tornou-se a primeira mulher na Itália a rejeitar publicamente o “casamento reparador” e a levar seu est*pr4dor aos tribunais com sucesso.

A repercussão provocou uma transformação profunda. O presidente italiano, Giuseppe Saragat, recebeu Franca oficialmente.

O Papa Paulo VI também a encontrou — um gesto discreto, mas significativo, que mostrava que até a Igreja reconhecia que algo estava mudando.

Em 1968, Franca se casou com Giuseppe Ruisi, um amigo de infância que a amava sem preconceitos, que a via como alguém inteira — e não como uma mulher supostamente “desonrada”. A união deles se tornou um símbolo poderoso: vítimas de violência merecem carinho, respeito e uma vida comum.

Mas a lei demorou a mudar. O Artigo 544 continuou existindo.

Foram necessários mais quinze anos. Quinze anos de mobilização, avanços culturais e outras mulheres encontrando força no exemplo de Franca. Finalmente, em 1981, quando ela tinha 34 anos, o Parlamento Italiano extinguiu de vez o “casamento reparador”.

Estpr4dors deixaram de ter o direito de escapar da punição casando-se com suas vítimas.

Franca Viola — uma jovem de 17 anos que simplesmente disse “não” — ajudou a transformar a legislação de um país inteiro.

Ela nunca buscou os holofotes. Levou uma vida tranquila ao lado de Giuseppe, dos filhos e dos netos. Raramente dá entrevistas. Nunca quis ser símbolo de nada — apenas queria justiça pelo que sofreu.

Mas a história, inevitavelmente, a transformou em símbolo.

Porque, às vezes, a recusa de uma única pessoa em aceitar a injustiça é capaz de abalar estruturas inteiras. Às vezes, a coragem de uma adolescente é suficiente para obrigar uma nação a encarar leis baseadas em vergonha e controle patriarcal.

Franca Viola mostrou que a honra de uma mulher não é definida pelo que fazem com ela — mas pela forma como ela reage.

Ela tinha 17 anos. A lei, o medo, a comunidade e a tradição diziam para ela aceitar.

Ela disse não!

A Cronica de Walmir Rosário

 

IRREVERÊNCIA NA LAVAGEM DO BECO DO FUXICO

Blocos Maria Rosa e Dez Casados, com os fundadores da lavagem

Por Walmir Rosário*

Pense aí num evento que você agenda e se entrega à vontade: é a folia de Momo, na tradicional Lavagem do Beco do Fuxico, reduto da boemia itabunense, bem no centro da cidade. E o mais importante são os custos reduzidos da festa, investimentos pífios para beber a batida do Caboclo Alencar, a cerveja da Fuxicaria, do bar Artigos para Beber e nos ambulantes.

Fora dos blocos, nem mesmo a fantasia é indumentária obrigatória para quem quer se esbaldar à vontade. Apesar do forte calor e enorme quantidade de pessoas o folião não precisa se preocupar, pois a prefeitura cumpre à risca, todos os anos, em dar um banho nos foliões, pois a vassoura, ferramenta necessária para a lavagem já caiu de moda.

O esperado é o carro-pipa aspergindo água em profusão nos distintos carnavalescos, que segundo dizem, serve para confortá-los durante a bebedeira. Já foi o tempo em que os frequentadores da Lavagem do Beco do Fuxico eram mais exigentes e faziam questão de dançar, se esbaldar, no ritmo das marchinhas. Hoje os tempos são outros e o que tocar eles pulam e sambam.

A Lavagem do Beco do Fuxico teve início em 1980, de forma simples, como o eram seus criadores e frequentadores do conceituado Beco. Um caminhão pipa emprestado, uma espalhadeira de betume asfáltico, que quebraram na primeira lavagem, embora esse insucesso não tenha sido suficiente para desmotivar os frequentadores do Beco.

Com o passar dos anos, a Lavagem do Beco do Fuxico toma fôlego na programação da prefeitura e a participação de blocos, entre eles, o longevo Maria Rosa, Casados I... Responsáveis, Mendigos e Gravata, Os Dez Casados, e uma dezena de outros. E a festa está rolando com todas as músicas e fantasias, aliadas à irreverência dos participantes.

Neste sábado, 17 de janeiro do ano de 2026, a ausência notada com todas as letras foi o Casados I...Responsáveis, o mais irreverente deles, e com a missão de abrir Lavagem do Beco. Sucesso garantido em sua participação em todo o Carnaval de Itabuna, o bloco sofreu com a perda de muitos fundadores, mas já começa a se reorganizar para 2027, como garante um dos seus dirigentes, Nérope Martinelli.

E como alegria não tem segredo, os foliões dos blocos irreverentes têm a obrigação de levar para as ruas a descontração estampada no rosto, também conhecida por felicidade. Além dos desfiles nas ruas de Itabuna, na manhã de domingo de Carnaval, “os Casados I...Responsáveis” promoviam uma visita à Santa Casa de Misericórdia para alegrar os enfermos.

Mas enquanto o bloco “Casados” se encontra em descanso, os Dez Casados não poupam esforços em promover um Carnaval com todos os requintes. Este ano, o presidente Sandoval Benevides repetiu a dose e na Lavagem apresentou sua nova música e o bar móvel, com figuras da criação da Lavagem do Beco do Fuxico, a exemplo de Bebeto Elmo, Paulo Nunes Neto, Abelardo Moreira (Bel), dentre outros carnavalescos. Sucesso Garantido.

Beco do Fuxico lavado, a folia continuou na praça Adami, centro dos festejos de Itabuna até perto da meia-noite. Com este evento, o Carnaval de Itabuna foi aberto oficialmente e os carnavalescos têm até a próxima quinta-feira (22) para descansar e entrar na folia, comemorando a festa de Momo até o raiar da próxima segunda-feira.


*Radialista, jornalista e advogado.