segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Quem foi Adonias Filho, o esquecido 'Dostoiévski brasileiro'

Quem foi Adonias Filho, o esquecido 'Dostoiévski brasileiro'


Adonias Filho ladeado por Austregésilo de Athayde e Jorge Amado

 
 NacionalO jornalista, crítico literário e escritor Adonias Filho (1915-1990) teve uma carreira notória em seu tempo — mas seu nome não parece ter sobrevivido a ponto de merecer espaço no cânone da literatura brasileira.

Em vida, costumava ser chamado de "Dostoiévski brasileiro", uma alusão ao russo Fiódor Dostoiévski, comumente apontado como um dos maiores romancistas da humanidade.

Críticos como Oswaldo Almeida Fischer e Cyro de Mattos não pouparam elogios a ele.

O primeiro chegou a incluir Adonias Filho entre os maiores da língua portuguesa de todos os tempos.

Já Mattos escreveu que a obra dele era "uma das perpendiculares de nossa literatura".

 

Segundo o linguista Vicente de Paula da Silva Martins, professor na Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), Adonias Filho é frequentemente comparado a Dostoiévski "principalmente pela intensidade com que trata dilemas morais e existenciais".

Assim como seu homólogo russo, ele "mergulha nas contradições psicológicas dos personagens, explorando o conflito entre moralidade e a necessidade de sobrevivência", destaca.

Essa comparação faz mais sentido ao pensar nos livros Servos da Morte Memórias de Lázaro, por exemplo. Mas não compreende toda a produção de Adonias Filho.

 

Martins faz a ressalva: o escritor baiano parte de uma ancoragem profunda, lastreada sobretudo nas realidades do nordeste brasileiro, em vez de abordar de forma preponderante as questões filosóficas universais, como fazia Dostoiévski.

"Enquanto o escritor russo foca nas tensões espirituais do homem diante de Deus e do pecado, Adonias Filho aborda problemas sociais e políticos do Brasil, como o cangaço e a seca, elementos centrais da literatura nordestina", pontua o professor.

"Seu trabalho reflete não apenas uma busca pessoal por sentido, mas também um confronto com as estruturas opressivas de uma sociedade desigual. Dessa forma, embora existam semelhanças psicológicas, a comparação não captura toda a singularidade de sua obra."

Trajetória literária e pensamento político

Nascido na Bahia em 27 de novembro de 1915, Adonias Aguiar Filho publicou dezenas de livros — alguns deles traduzidos para idiomas como inglês, alemão, espanhol, francês, japonês e até eslovaco.

Ele integrou a Academia Brasileira de Letras (ABL), ganhou prêmios literários importantes e foi amigos de gigantes das literaturas como o também baiano Jorge Amado, a cearense Rachel de Queiroz e o colombiano Gabriel García Márquez.

Politicamente, integrou a Ação Integralista Brasileira (AIB) — movimento ultranacionalista e tradicionalista católico, de inspiração fascista, fundado pelo escritor e jornalista Plínio Salgado.

Adonias Filho não tinha nem 20 anos quando escreveu seu primeiro romance, que se chamava Cachaça, mas ele destruiu o texto. Seu primeiro livro, o ensaio O Renascimento do Homem, sairia em 1937 — e era baseado na doutrina integralista.

Já o primeiro romance dele publicado foi Os Servos da Morte, de 1946.

A essa altura, Adonias Filho já tinha uma atuação conhecida como crítico literário, colaborando com os Diários Associados, O Estado de S. Paulo, e Folha da Manhã, entre outros.

Também trabalhava como tradutor, vertendo para o português obras de autores como George Sand — pseudônimo de Amandine Aurore Lucile — e Jacob Wassermann.

Para a crítica, suas grandes obras foram Memórias de Lázaro, de 1952, Jornal de Um Escritor, de 1954, e As Velhas, de 1975. Este último ganhou o Prêmio Jabuti, mais tradicional honraria da literatura brasileira.

Analistas de seu trabalho percebem nele influências de nomes como James Joyce, Honoré de Bazac, Albert Camus, entre outros, além do já citado Dostoiévski.

A originalidade de seu texto é atribuída ao estilo conciso e sincopado. Poética, sua prosa é repleta de metáforas e alegorias.

"Os pontos fortes da literatura de Adonias Filho podem ser atribuídos, de maneira significativa, à sua habilidade de combinar uma crítica social incisiva com uma exploração psicológica e emocional profunda de seus personagens", analisa Martins.

"Sua obra transcende o simples retrato da miséria nordestina, ao transformar a seca e os dramas humanos em elementos que reverberam não apenas nas questões sociais, mas também na complexidade das relações interpessoais e familiares", acrescenta.

"Ao contrário de muitos autores contemporâneos, que abordavam a seca de maneira quase documental, Adonias Filho foi capaz de humanizar suas personagens, demonstrando com sutileza o impacto psicológico e moral das dificuldades enfrentadas por essas pessoas."

da Família do escritor, em domínio público /

Seu perfil oficial registrado pela ABL ressalta que ele fez parte do grupo de escritores rotulados como "terceira fase do Modernismo", os que "se inclinaram para um retorno a certas disciplinas formais, preocupados em realizar a sua obra, por um lado, mediante uma redução à pesquisa forma e de linguagem e, por outro, em ampliar sua significação do regional para o universal".

O texto lembra das origens do escritor, na zona cacaueira da região de Ilhéus, para enfatizar que ele "retirou desse ambiente o material para a sua obra de ficção"

"Desenvolveu recursos altamente originais e requintados, adaptados à violência interior de seus personagens. É o criador de um mundo trágico e bárbaro, varrido pela violência e mistério e por um sopro de poesia. Seus romances e novelas serão sempre a expressão de um dos escritores mais representativos e fascinantes da ficção brasileira contemporânea", define a ABL.

Apoio ao golpe de 64

Seu pensamento de raízes integralistas permaneceria conservador por toda a vida. Apoiou o golpe militar que instituiu a ditadura no Brasil em 1964 e chegou a ser cogitado para ter um cargo no governo do então estado da Guanabara.

Era amigo pessoal do general Golbery do Couto e Silva (1911-1987), o criador do Serviço Nacional de Informações (SNI), o principal órgão de espionagem da repressão.

De 1961 a 1971, Adonias Filho dirigiu a Biblioteca Nacional.

Durante o regime ditatorial, foi agraciado com a Ordem do Mérito Militar, honraria concedida pela presidência da República. E em 1966 assumiu a vice-presidência da Associação Brasileira de Imprensa — organismo que ele presidiria entre 1972 e 1974.

De 1977 até sua morte, em 1990, comandou o Conselho Federal de Cultura.

Para Martins, seu envolvimento com o conservadorismo político pode ter influenciado tanto sua trajetória literária quanto sua recepção crítica.

"O integralismo, com suas raízes fascistas e nacionalistas, foi visto com desconfiança após o golpe de 1964, e sua associação a esse movimento pode ter ofuscado seu talento literário, marginalizando-o em alguns setores da crítica", pontua.

Contudo, na avaliação do professor, a reação política de Adonias não deveria obscurecer a importância de sua obra.

"Adonias Filho tinha uma visão aguçada da literatura e da sociedade brasileira, e sua crítica ao 'romance nordestino' e contribuição ao estudo do romance de 30 foram essenciais para a narrativa literária brasileira. Sua produção não pode ser reduzida apenas a suas escolhas políticas, pois sua reflexão literária e social continua sendo valiosa", argumenta Martins.

"Embora sua afiliação ao integralismo tenha gerado obstáculos, sua obra ainda carrega um valor significativo na história da literatura brasileira."

Professor de literatura na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e autor do livro A Ideologia Modernista: A Semana de 22 e Sua Consagração, o escritor e crítico literário Luís Augusto Fischer concorda que a política tem um peso na visão que se tem sobre a obra de Adonias Filho.

"O fato de ele ter apoiado o golpe de 64 e integrar órgãos federais era conhecido e, de alguma forma, circulava entre os alunos de Letras, na minha geração", comenta, referindo-se a quem cursou a graduação nos anos 1970.

"Isso, por certo, era um estigma. Um embaraço para apreciar sua literatura."

O crítico e ensaísta André Seffrin também reflete sobre o peso das escolhas políticas de Adonias para a posteridade de sua literatura.

"O fato de Adonias se colocar como um autor, se assim podemos dizer, um tanto à direita, pode ter colaborado, sim. Mas isto é apenas um fator."

Ele menciona outros "romancistas importantes" que também eram rotulados sob esse espectro político, como Octavio de Faria (1908-1980) e Lúcio Cardoso (1912-1968).

"Mas o fato de ser de esquerda ou de direita não é determinante, uma vez que Nelson Rodrigues [(1912-1980)] aí está, cada vez mais canônico", ressalta.

Fora do cânone

Na opinião do escritor, tradutor e conselheiro editorial Rodrigo Bravo, o esquecimento de certos autores "é parte da própria lógica histórica da leitura".

"A recepção literária é um campo de forças que envolve disputa de valores, horizontes estéticos, posições de classe, sistemas educativos e, sobretudo, a mutabilidade da sensibilidade humana", afirma Bravo, que é professor na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).

"Existem autores que expressaram de modo intenso a temperatura afetiva de seu momento, mas cuja linguagem não se sustenta fora desse microclima. Outros dependem de formas sociais que não existem mais, e a perda desse horizonte desfaz o impacto inicial."

Bravo argumenta ainda que a literatura também sofre do que podemos chamar de "economia da atenção cultural". Nesse sentido, só alguns textos conseguem reter transmissibilidade quando seus códigos de referência se desgastam.

"E há ainda o ruído produzido pelos próprios mecanismos editoriais, pelas modas acadêmicas e pela voracidade do mercado que eleva e depõe nomes com a mesma velocidade com que consome tendências", acrescenta.

Para o professor Fischer, a dinâmica do esquecimento de autores que gozaram de prestígio tem a ver com diversos motivos: o mundo editorial, em que novidades desalojam os títulos de autores já existentes; o envelhecimento da obra e do autor em si — tanto pela linguagem que pode passar a ser vista como "velha ou inadequada" quanto por contarem histórias agora vistas como irrelevantes— ; e a mudança do público leitor, em termos sociológicos, que passa a buscar autores "que dão a ver a experiência social e cultural semelhante" a eles.

"Difícil avaliar os possíveis motivos do esquecimento de um escritor tão importante como Adonias", diz Seffrin, ressaltando o peso de um romance como Corpo Vivo, publicado em 1962.

"Costumo dizer que há muito autor bom esquecido, até entre os atuais. Talvez o futuro reserve melhor sorte para alguns desses nomes, o que quer dizer, reserve melhor sorte para os leitores, que existem, da melhor literatura brasileira, em grande parte escondida nos sebos."

Adonias Filho não é o único autor brasileiro importante de sua época que hoje está fora do cânone, lamenta Seffrin.

"Cânones, todos sabemos, são flutuantes. Nos anos 60, era relativamente fácil colocar a obra de Adonias dentro de um provável cânone."

Fato é que toda a notoriedade conquistada por Adonias Filho em vida não garantiu a ele um lugar no chamado cânone da literatura nacional.

Para o escritor e professor universitário Miguel Sanches Neto, reitor na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), tal fenômeno é comum.

"O cânone é formado pelo consenso das gerações. Há escritores que são extremamente cultuados por uma, duas gerações, mas que não conseguem transcender a geração que os criou ou a geração que os descobriu. Então ele desaparece", explica.

De acordo com Sanches Neto, 99,9% do que a gente entende como literatura contemporânea hoje, não vai permanecer reconhecida nas gerações seguintes.

Segundo o professor Emerson Rossetti, doutor em estudos literários pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), há um conjunto de fatores que determinam a condição de uma obra literária como cânone.

"Questões de natureza estética e estrutural, inovações relativas às produções em cena até aquela época, importância histórica, mas, principalmente, uma aceitação quase consensual por parte de intelectuais e acadêmicos sobre a relevância do escritor para a cultura", afirma.

"Penso que também a atemporalidade e a universalidade são aspectos determinantes, pois é primordial que um texto continue a fazer sentido noutros lugares e épocas", completa.

O marketing do resgate

Para Rossetti — e ele comenta isso refletindo sobre a história de Adonias Filho — mais complexa do que a tarefa de determinar as razões que estabelecem o cânone, "é explicar por que determinados autores outrora prestigiados acabam sendo lançados ao esquecimento".

Um fator que para ele faz a diferença é se o escritor é ou não estudado nos meios acadêmicos.

Segundo sua visão, este movimento acaba incentivando mais pesquisas, debates, publicações — e provocando, direta ou indiretamente, que o escritor seja lido por alunos, deixando a obra em circulação.

"Porém é possível que a própria academia revitalize aqueles que foram esquecidos, discutindo, inclusive, os motivos que levaram a esse período de anonimato", pondera ele.

"Como já disse, os trabalhos e suas consequências têm o poder de reavivar nomes e obras que não poderiam estar escondidos."

O professor Fischer pontua que resgates de nomes "esquecidos" costumam ser motivados por "demandas do presente".

Ele cita como exemplos as obras de Carolina Maria de Jesus e de Maria Firmina dos Reis, que estão em evidência por conta dos fatores de raça e gênero.

"Outro fator é a hipótese de esse autor antigo ingressar num circuito de leitura impositiva, como as listas de livros de vestibulares", comenta ele.

"E não se pode descartar outro fator ainda: uma campanha editorial que demonstre para os potenciais leitores a relevância do escritor antigo nos tempos de agora."

 

Adonias Filho, faleceu em 1990, em sua propriedade do Distrito de Inema, Ilhéus-Bahia, a sombra da Serra da Temerosa, e foi sepultado no Mausoléu da Academia Brasileira de Letras (ABI), no Rio de Janeiro. Fonte: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cly1p9kk7yjo


sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

A Cronica de Walmir Rosário

 

O RESULTADO DE 7X1 DA ALEMANHA NO BRASIL É FICHINHA

A goleada lendária com 7 gols de Florizel

Por Walmir Rosário*

Digo e repito que a vergonhosa derrota do Brasil para a Alemanha na Copa do Mundo, em 8 de julho de 2014, pelo placar de 7X1, no estádio Mineirão, ainda é vista pelos futebolistas como o fim do mundo. Não nego que foi humilhante, mas nada que abalasse a estrutura do futebol. Em Itabuna foram registrados dois feitos bem maiores e melhores que esse dos alemães, e com pioneirismo.

Bastava uma simples consulta aos anais do futebol de Itabuna – para comparar os feitos –, que a diferença favorece os grapiúnas por larga vantagem. E isso é só o começo. No dia 21 de abril de 1963, data em que se homenageia Tiradentes, o Janízaros goleou o Flamengo (ambos itabunenses) pelo expressivo placar de 7X1, feito considerado marcante no futebol.

Mas aí o distinto leitor pergunta: Qual a diferença nos dois 7X1? Elementar, os 7 gols foram marcados pelo atacante Florizel, façanha considerável, mesmo num jogo amistoso em que as duas equipes itabunenses pretendiam apresentar seus novos jogadores para o campeonato de 1963. Já a Alemanha precisou de cinco jogadores para marcar: Müller, Klose, Kroos (2), Khedira, e Schürrle (2).

Humberto, Luiz Carlos, Ronaldo, Valdemir,
Santinho e Albérico; Gagé, Zequinha Carmo,
FLORIZEL, Tombinho e Fernando Riela.

Na partida em Itabuna, para não perder de zero, o capitão do Flamengo, Zequinha Carmo marcou o gol de consolação. E para a Seleção Brasileira marcou o único tento o jogador Oscar, no finzinho do jogo. Do que fica registrado nas duas partidas, está por mais evidenciada a superioridade do time e jogador itabunense, que marcou sozinho todos os gols da partida.

Na semana que antecedeu ao jogo, a imprensa promoveu a partida com entrevistas dos jogadores e dirigentes, cada qual prometendo demolir seu adversário. Assim que o árbitro Pedro Mangabeira iniciou a partida os dois times evitaram partir para o ataque, estudando atentamente o adversário. Até os primeiros 15 minutos, apenas uma bola foi chutada no gol do Janízaros.

A partir de então, o Janízaros cresceu no jogo e um petardo desferido pelo centroavante Florizel derrubou a casa do Flamengo. A torcida ainda comemorava quando Florizel marca o segundo gol, que valeu como uma ducha fria nos flamenguistas. No segundo tempo o Janízaros se impõe em campo e esmorece a turma rubro-negra.

A partir daí foi uma sequência de cinco gols de Florizel para completar a “conta do mentiroso”, embora todos os 7 gols tenha sido de verdade. E as novas contrações do Janízaros – Zé Hamilton, Santinho, Albérico, Fernando Euvaldo e o goleiro Luiz Carlos, que sequer entrou na partida – mostraram que não chegaram para brincar. Já no Flamengo estrearam o ponteiro Valter, o zagueiro Petito e o meia Arevaldo, que tomaram ciência da responsabilidade.

O Janízaros jogou com Toinho, Zé Hamilton, Alfredo e Almir; Aranha (Albérico) e Santinho; Fernando Euvaldo, Rochinha, Florizel, Xavier (Vitório) e Evaristo. Já o Flamengo atuou com Asclepíades (Zé Carlos), Péricles, Petito e Nélson; Odiel e Abiezer; Valter (Carrapeta), Arevaldo, Zequinha Carmo, Tombinho e Codinho. A renda somou 15 mil Cruzeiros.

Bel passou a ser conhecido como
"Seu Sete da Lira" pelos 7 gols 
Mas não pensem que as retumbantes goleadas pararam por ai. Em 1972, o Itabuna, já profissional, jogou uma partida amistosa com o Selecionado de Itajuípe, que ficou na história. Embora o resultado final tenha sido 9X2, os torcedores e a imprensa passaram a nomear o jogador Bel como “Seu 7 da Lira”, numa referência às reportagens da revista Cruzeiro sobre esse personagem da vida carioca.

Explicando melhor, é que 7 dos 9 gols do Itabuna foram marcados por um só jogador, o meio campista Bel (Abelardo Brandão Moreira, de origem itajuipense). Para os que não conheceram, a cidade de Itajuípe era pródiga em exportar bons jogadores amadores, mas deram azar de jogar contra o Itabuna profissional, cheio de craques e técnicas táticas e físicas. Depois, só a espetacular comemoração no Bar de Carcará.

Então, daqui pra frente é bom que fique registrada a superioridade de Itabuna sobre a Seleção Brasileira, e que o feito alemão em solo mineiro não campeie como sendo um fato histórico único neste Brasil brasileiro. Nada mais justo do que registrar essas duas partidas como consagrados e reconhecidos atos memoráveis do futebol itabunense.


*Radialista, jornalista e Advogado.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

De armazéns a palcos: antigos trapiches revivem noite do Comércio com cultura

De armazéns a palcos: antigos trapiches revivem noite do Comércio com cultura

 


Espaços que transformaram o Comércio em polo de eventos culturais

Por Divo Araújo/A Tarde - O Comércio vem fortalecendo sua vocação cultural ao transformar antigos espaços portuários em grandes casas de shows e eventos. Dois desses endereços carregam essa história no próprio DNA: o Trapiche Barnabé e o Cais Dourado, que já funcionaram como trapiches e hoje abrigam uma programação cultural variada, além de ajudarem a movimentar o bairro durante a noite, período em que a região tradicionalmente fica mais vazia.


À frente do Trapiche Barnabé, o empresário francês Bernard Attal (Foto), diz que o calendário varia conforme a época do ano. “Esse período geralmente é mais tranquilo, porque, como tem muitos shows na cidade toda, a gente faz pouca coisa”, afirma. Ainda assim, a programação segue ativa. “No último sábado tivemos um evento de samba, chamado Terreiro de Crioulo”, destaca.

O evento reuniu nomes como Nelson Rufino, Serginho Meriti e Sibi Dudu para celebrar a cultura negra, as matrizes africanas e a ancestralidade, marca do festival que já passou por Rio de Janeiro e São Paulo e fez sua primeira edição na Bahia.

Ao longo do ano, alguns projetos já viraram tradição no espaço. “Temos o Festival Sangue Novo”, conta Bernard. Segundo ele, o evento já teve várias edições e a maioria passou pelo Trapiche Barnabé. Outro destaque é o Zona Mundi, festival que conecta música, arte e inovação e que realiza parte de sua programação no trapiche.

O espaço também abriu portas para o teatro. Em 2025, Wagner Moura estreou em Salvador o espetáculo “Um Julgamento — Depois do Inimigo do Povo”, dirigido por Christiane Jatahy. “A gente está trabalhando para fazer outra temporada de teatro. Vamos divulgar em abril, mas vai ser teatro de novo”, adianta.

Outro evento querido do público é o Biergarten Salvador, inspirado nos jardins de cerveja alemães, que também integra a programação do Barnabé. O local ainda recebeu, no fim do ano passado, uma edição especial do Som de Jorge, ensaio de verão da banda Filhos de Jorge, com participações de Mamacita, Ara Ketu e Durval Lelys.

Próximo dali outro antigo trapiche segue a mesma vocação cultural. O Cais Dourado, próximo ao Mercado do Ouro e à área portuária, é hoje um dos maiores espaços para eventos do Comércio.

“O importante é a história. Essa casa inaugurou com a gente e fez mais de duas ou três dezenas de grandes shows com grandes artistas”, afirma o responsável pelo espaço, Valter Aquino. Ele relembra que o local passou por uma reforma recente e chegou a ser rebatizado, mas retomou o nome original. “A gente tirou o Casarão e botou de novo o Cais Dourado. Hoje é Cais Dourado.”

Com cerca de 3 mil metros quadrados e capacidade para até 4 mil pessoas, a casa aposta na estrutura para atrair produtores. “Trata-se de uma casa de eventos. Pela metragem e pelo espaço, é uma alternativa de casas de shows em Salvador, que nós somos um pouco carentes, sobretudo naquela região”, avalia.

O modelo de funcionamento é baseado em parcerias com produtores. “O cara produz um evento dentro da nossa casa e nós fazemos um compartilhamento com ele. Nós temos o imóvel e toda a logística”, explica. Ele detalha os serviços oferecidos: “Ambulância, segurança, limpeza, banheiros. Lá a gente tem toda a infraestrutura.”

Aquino diz que o objetivo é elevar o padrão do espaço. “A ideia é ter a melhor casa da Bahia. Já temos banheiros bons, mas queremos melhorar. Vamos ter o nosso palco fixo”, afirma.

Outro ponto que ele destaca é a localização. “A casa pode ficar durante a noite toda tocando, porque tem uma acústica muito boa e a região não é residencial”, diz. “Lá não temos limite de horário. Você pode ir até duas, três, quatro da manhã, amanhecer o dia, e não perturba ninguém.”

Ao longo dos anos, o Cais Dourado já recebeu artistas como Caetano Veloso, Daniela Mercury, Jorge Ben Jor, Maria Rita, Seu Jorge, Paralamas do Sucesso, Paula Toller e Beth Carvalho, entre muitos outros nomes da música brasileira.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

REDUTO DO SAMBA – O MAIOR BLOCO DO MUNDO - A Cronica de Walmir Rosário

 

REDUTO DO SAMBA – O MAIOR BLOCO DO MUNDO

Newton Dias, presidente do Reduto
do Samba. A paixão pelo Carnaval

Por Walmir Rosário*

O Reduto do Samba, de Salvador, pretende se tornar o maior bloco carnavalesco do mundo e não mede distância para que esse acontecimento seja o mais breve possível. Neste Carnaval de 2026 desfilará no circuito Campo Grande (Osmar) e traz Filipe Escandurras como principal atração, empurrando seus mais de quatro mil componentes.

A venda das fantasias anima a diretoria da agremiação e elas podem ser encontradas na sede do Bloco, plataformas digitais e Balcão Samba Vivo. Fundado em 13 de junho de 2003, a cada ano o Reduto do Samba promove uma festa à parte no Carnaval de Salvador, graças ao empenho de sua diretoria e componentes.

O Reduto do Samba tem como presidente Newton Ferreira Dias, desde sua fundação, e que se dedica quase que integralmente à gestão da agremiação, cuja diretoria e componentes empreendem todos os esforços para brilhar em todos os carnavais. E o presidente revela que o bloco é a paixão de todos os participantes, que se esmeram a cada desfile, após muitos ensaios.

Reduto do Samba desfila

E não é pra menos. Sem falsa modéstia, o Reduto do Samba construiu sua história em anos sucessivos ao levar para o Carnaval de Salvador as grandes atrações nacionais do samba. E não economizou: por eles desfilaram Arlindo Cruz, Dudu Nobre, Fundo de Quintal, Xande de Pilares, Psirico, dentre outros. E esse trabalho é responsável por colecionar troféus.

Todo esse entusiasmo é liderado por Newton Dias, que tem o samba como o oxigênio de sua vida, paixão da infância, de quando via e participava dos ensaios da Escola de Samba Filhos do Tororó, pertinho de sua casa. E esse amor cresceu exponencialmente em seu coração com a convivência de Ederaldo Gentil, Nelson Rufino, Salvador Oliveira, Bira Gentil, Paulinho do Reco e outros grandes mestres do samba.

E como na Bahia o samba convive de pertinho com outras manifestações culturais, no sangue de Newton Dias também estão entranhados o futebol, a capoeira, os movimentos afros, todos de passadas largas em terras baianas. E o menino rapaz do Tororó não desgrudou dos seus costumes desde que deixou Salvador para enfrentar a vida acadêmica e os afazeres profissionais.

Cursou engenharia agronômica em Cruz das Almas sem desgrudar da cultura ao mesmo tempo em que aprendeu a ciência, descobriu a botânica, da semeadura a cuidar das plantas, calculando a adubação para produzir mais, corrigindo as deformidades, curando as doenças, produzindo. Com diploma e anel no dedo, afastou-se de Salvador, do Recôncavo, para o Sul da Bahia.

Na Ceplac foi labutar com a cacauicultura, enfrentando os morros e a Mata Atlântica, num esforço fenomenal integrado para alcançar altos índices de produção do cacau. Alcançou postos de direção, como a chefia da importante Divisão de Itabuna, atuando como líder, influenciando comportamentos, inspirando colegas e produtores a aplicarem a técnica de forma correta, sem estresse.

De volta a Salvador assume novos empreendimentos em grandes empresas, sendo o mesmo Newton Dias de Salvador, o menino do Tororó, o acadêmico de da Faculdade de Cruz das Almas, o engenheiro agrônomo da Ceplac. Recusou o ócio da aposentadoria e foi cuidar daquela paixão desde menino, o samba. E fez da melhor forma. Como diz o ditado: quem é bom já nasce feito.


*Radialista, jornalista e advogado.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Walmir Rosário

 

O CONHECIMENTO, SUA DIFUSÃO NA SOCIEDADE E A UESC

Alessandro Fernandes de Santana, Reitor da Uesc

Por Walmir Rosário*

Agora em Itabuna, estou mais perto da Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc), respirando os ares da sabedoria emanados daquele centro de conhecimento, que vem acumulando troféus e títulos de excelência. Felizmente a Uesc tomou um caminho bem diferente de outras instituições de ensino superior, que descem ladeira abaixo neste Brasil contemporâneo.

De pronto, dou pleno conhecimento público que não estou alisando os bancos de nenhum curso superior, o que me faria bem, mas tão somente bisbilhotando o Centro de Documentação (Cedoc). Quase todos os dias, munido de máscara contra a poeira e ácaros, e luvas para me livrar das velhas tintas gráficas, estou espreitando, conferindo as páginas dos jornais antigos de Ilhéus e Itabuna.

São edições incompletas em determinados anos, mas permite pesquisar o que acontecia em épocas passadas. As minhas visitas seriam apenas (não são mais) para rever as glórias do futebol de Itabuna, por meio dos seus times e da eterna vencedora Seleção de Itabuna, assuntos para futuros livros, com a missão de informar aos que não tiveram a felicidade de viver àquela época.

Com a mão nas páginas, relembro fatos tantos vividos pela sociedade pretérita em Itabuna, Ilhéus e região sobre a economia, as agruras sofridas pela cacauicultura, bem como os bons tempos em que a tonelada de cacau era vendida nas bolsas de Nova Iorque e Londres a preços compensadores, coisa de US$ 4,5 mil até US$ 5 mil, tudo contado em dólares.

A sociedade mantinha um padrão de vida bem confortável e Itabuna se dava ao luxo de tocar os discos em LPs e compactos (poucos sabem o que é isso) em lançamentos simultâneos com o Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador. Mas como nem tudo são flores, os protestos e reclamações apareciam estampados nas páginas de nossos jornais sem a menor cerimônia.

O que acontecia na política ganhava destaque, inclusive os aumentos de impostos que pesavam sobre o cacau, figurinha carimbada nos tempos ruins, a salvação da lavoura do governo do estado para pagar os gastos feitos em outras regiões. A conta não era nossa, mas o governador jurava que deveria ser paga por todos. E como o cacau faturava, sentava-se à cabeceira da mesa.

E a Uesc vem assumindo uma responsabilidade com a sociedade sul-baiana ao guardar, manter intacto, catalogar e disponibilizar toda a produção dos meios de comunicação de épocas passadas, mantendo viva a história do povo grapiúna. Além de jornais, a Uesc também registra em seu acervo a história do Poder Judiciário em Ilhéus e milhares de documentos históricos importantes. Se tornou a guardiã da nossa história.

No Centro de Documentação estão disponíveis, por exemplo, os jornais Diário da Tarde, de Ilhéus; o Tabu, de Canavieiras; o Diário de Itabuna e o Agora, de Itabuna, este através de um esforço recíproco da sociedade. E o Reitor Alessandro Fernandes de Santana acolheu o pleito, sensível que é aos reclames da sociedade, sobretudo do que diz respeito às questões sociais, sobretudo à educação.

Sei que a Uesc muito ainda tem que caminhar, mas os louros obtidos nesse trajeto é um sinal bastante positivo, o que nos leva a crer e vislumbrar uma universidade “coladinha” com a sociedade. A Uesc pode e deve ser o carro-chefe do pensamento regional, com poderes para influir na renovação da tecnologia e nas mudanças que levem ao desenvolvimento.

O Magnífico Reitor Alessandro Fernandes tem ao seu lado cabeças pensantes capazes de elaborar e tocar projetos em todas as áreas do conhecimento, notadamente na comunicação. Se a Uesc tem gente à disposição, também possui prédios herdados do Instituto de Cacau da Bahia (ICB) que podem abrigar esses novos serviços à sociedade.

Quem sabe, todo esse acervo de comunicação poderá ser reunido num grande projeto disponibilizado à sociedade após a digitalização, tratamento gráfico com o que existe de mais moderno na informática. De casa, do escritório, aqui no Sul da Bahia, Estados Unidos ou Japão estará disponível em apenas alguns cliques. Afinal, uma universidade é um centro de sabedoria com a missão de tornar as pessoas mais inteligentes. E a hora é agora.


*Radialista, jornalista e advogado.