A EXCÊNTRICA IGUARIA PREPARADA POR ZECA DO GATO
A EXCÊNTRICA IGUARIA PREPARADA POR ZECA DO GATO
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| Criação na IA representando os personagens |
Por Walmir Rosário*
Até os dias de hoje é muito comum que os locais de trabalho dos artistas, ou profissionais artesãos, a exemplo de sapateiros, alfaiates e congêneres, receberem uma série de pessoas para o bate-papo diário. E muitos desses locais eram conhecidos por beco do fuxico, devido ao grande ajuntamento de gente comentando sobre outros, o conhecido fuxico, fofoca, mexerico.
Muitas vezes esses profissionais eram incitados a abrir uma “birosca” (espécie de barzinho) para atender a esses potenciais clientes. Nesses casos, os artesãos teriam que se desdobrar para atuar nas duas profissões: a antiga, e a mais recente, o novo dono de botequim. Além de aumentar os ganhos, também eram reconhecidos pelo prestígio, notabilizado pelo aumento da clientela.
Conheci um monte deles há anos passados, nos velhos tempos de menino, e esse comportamento era muito comum, muitos deles, além de mais conhecidos, se transformavam em verdadeiras referências. Bastava alguém precisar de uma informação que os vizinhos indicavam o local, dado o ajuntamento de clientes das redondezas e que poderiam satisfazer as buscas.
Lembro-me perfeitamente de um grande alfaiate conhecido por Zeca do Gato, especialista em todos os tipos de costuras masculinas, como calças, camisas, paletós, entrando pelas roupas profissionais. Chegara de Vitória da Conquista e estabeleceu sua “tenda” (nome dado à época) de alfaiate na avenida Juracy Magalhães, no bairro de Fátima em Itabuna, na saída para Ilhéus.
Nem bem se estabeleceu no local já era uma daquelas “figurinhas carimbadas”, por ter se tornado amigos de todos, sem exceção. Logo cedo abria a alfaiataria e ficava em frente com uma caneca de café. Gentil como sempre, oferecia um gole aos que passavam, um pedaço de pão, um biscoitinho. Aos poucos, às 6 horas uma turma já estava formada e as conversas não paravam.
Exímio cozinheiro, na boquinha da tarde oferecia um tira-gosto aos amigos, que passaram a comprar cachaça e cerveja na vizinhança e “molhavam a palavra” até a hora de fechar. Mesmo com todo esse movimento, Zeca do Gato não parava de trabalhar, movendo os pés no pedal da máquina, ao mesmo tempo em que com as mãos dirigia a costura no tecido de uma calça.
Não parava o seu trabalho, mas acompanhava todas as conversas presentes. Como diz o ditado: “era uma martelada no cravo e outra na ferradura”. Em pouco tempo os clientes de fuxico cobraram a Zeca do Gato a ampliação do negócio, com a compra de uma geladeira (mesma usada), um balcão e umas mesas com tamboretes e cadeiras.
E a alfaiataria logo ganhou status de bar, servindo cachaça, cerveja gelada, e tira-gostos variados. Cada um dos clientes se servia e anotava o que bebia e comia. Não demorou muito, Zeca do Gato empreita a construção de um fogão a lenha no fundo do estabelecimento, atendendo aos constantes pedidos de comida de sustança, gostosa e bem-feita como só ele sabia e costumava fazer.
A essas alturas, Zeca do Gato era a figura mais conhecida do bairro de Fátima e por Itabuna afora. De vez em quando recebia a visita dos amigos de Vitória da Conquista, muitos deles vendedores (antes conhecidos como viajantes). Não deu outra: a alfaiataria e bar ampliou seus negócios e um restaurante começou a funcionar, apesar do local apertado. Muitos nem ligavam e passaram a comer no passeio da casa, sem a menor cerimônia.
Mas como todo o estabelecimento que se preza, não bastam os bons clientes e, volta e meia aparecem os chamados gaiatos, estias, espírito de porco, que perturbam os clientes, bebem e comem sem querer pagar. Outros desses pagavam o que consumiam, mas apreciavam fazer gracinhas, mexendo nas panelas para comer de graça, como se estivessem a experimentar o tempero.
Um desses era um antigo açougueiro, bom comerciante, atencioso com seus clientes e querido por todos. Mas o comportamento de Damião mudava da água por vinho após beber umas cinco cachaças acompanhadas de cervejas. Muito amigo de Zeca do Gato, furtivamente ia à cozinha, mexia nas panelas e retirava uns pedaços de carne, frango, peixe, o que estivesse no fogão.
E dada a constância do comportamento de Damião e outros chegados, Zeca do Gato planejou dar um basta no amigo sorrateiro, armando uma mutreta. Certa feita, solicitou ao amigo motorista de caminhão, Tonho Mata Onça, que lhe ajudasse nessa empreitada. Numa das costumeiras tardes, eis que chega Damião e sente o cheiro de uma galinha no fogão.
Imediatamente foi avisado para não mexer, pois a galinha ao molho pardo foi encomendada por uns amigos viajantes que viriam comê-la no fim da tarde, assim que findasse a jornada de trabalho. Damião deu uma risadinha, piscou o olho para os amigos e se dirigiu sorrateiramente ao fogão. De volta, parava no balcão, servia seu copo com cachaça, bebia, e voltava ao fogão para novo “assalto”.
Para não tomar o tempo dos leitores, economizarei as palavras para quando não restava um só pedacinho da galinha ao molho pardo na panela. E aí partiu para Zeca do Gato avisando para colocar o galináceo na sua conta, arrematando que estava uma delícia. Imediatamente toda a clientela passou a dar risadas e Zeca do Gato fez pose de quem escondia alguma arte e informou a Damião, que na verdade, ele teria comido um urubu.
A gozação foi total, e Zeca do Gato se dirigiu ao quintal e voltou com todas as provas: as penas, os pés e a cabeça do urubu, providencialmente trazido pelo motorista Tonho Mata Onça, que o encontrara morto na BR-101. Foi uma Deus nos acuda para segurar Damião, que arrancou suas facas da cintura e que queria matar seu amigo Zeca do Gato.
Após muito custo a famosa turma “do deixa disso” conseguiu amansar o valente e zangado Damião, que um mês após, ainda desconfiado, voltou a frequentar o local, sem, jamais, mexer nas panelas de Zeca do Gato.


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