O casamento
Uma matéria do jornal de hoje me deixou intrigado. Trata-se do casamento entre “humanos” e os chatbots. Ali, apontaram que um quarto dos jovens adultos americanos acreditam que a IA poderá substituir por completo os relacionamentos amorosos entre os sapiens.
Ocorreu-me,
de imediato, aquela descrição bíblica sobre os últimos tempos, em que as pessoas
já não mais se dariam em casamento. Seria essa notícia uma fenda aberta para
arejar a nossa insignificante incapacidade relacional?
Bem,
venhamos e convenhamos, uma coisa é certa, essa alternativa se mostra bem
acessível. Os dias são caros, a exigir um super minimalismo! De quando em vez,
jantar fora, mesa para um; as raríssimas viagens, eu comigo mesmo… Das
poltronas de avião ao cinema, sempre um, observando o seu próprio reflexo. No
hotel, a diária seria single
e a cama, solteirão. Em casa, na sala de jantar, uma única cadeira à
mesa.
Que
espetáculo a céu aberto e, ainda, sem perda relacional — essa é a grande
promessa —, tudo num monólogo. Não seria interessante?
A
propósito, dizem que esses diálogos cibernéticos são terapêuticos… sem
discórdia ou enfrentamentos. Sem mudança. Eu descendo ladeira em minha
mesmidade, a causar despeito e inveja em Narciso. Só romance, tudo
perfeitamente programado. Coitado do meu analista, aquele que ainda corre o
risco de me confrontar — um ser vivo em extinção, diga-se de passagem.
E
quanto aos filhos? No máximo, faríamos um chatbotinho
ou uma chatbotinha. Na intimidade, um chatinho ou, quem sabe, uma chatinha, tão queridinhos,
acessíveis, obedientes e sem vontade, no reino de uma vontade exclusiva — a
minha. Isso não é fenomenal? E os encontros de família? Somente se dariam de
acordo com a disponibilidade, a sugerir marcação prévia de horário. Sem incômodos,
um sonho! Não teríamos, sequer, preocupação com a disforia de gênero, assaz
encontradiça, atualmente, entre os humanos — coitados!
Não
sei por que alguns estados americanos estão editando leis contrárias a esse
tipo de enlace. Por que proibir “casamentos” dessa natureza? Que insensatez
absurda! Uma mesa vazia, uma só cadeira e um espelho quebrado… Será que dessa
feita os “seres-bem-animados” perderam o
juízo de vez?
*
Com as tags Casamento, Chatbots, Crônica, Cultura Digital, Humanidade, IA, Inteligência Artificial, Narcisismo, Relacionamentos, Solidão
Nenhum comentário:
Postar um comentário