terça-feira, 22 de setembro de 2026

A Cronica de Mauricio Castro

 A certeza

De certo modo, eu admirava a sua inclinação pela certeza mesmo diante de eventual objeção, mas jamais deixei de me espantar com o seu senso de evidência, como se tudo pudesse ser previsível: a sua casa, a posição das roupas no armário, a cor de seu terno, a escova de dentes e todos os horários previamente determinados.

A bem da verdade, Zé detestava o que fugia ao seu controle. Defendia que o seu instrumento quotidiano era uma medida objetiva, assim como o metro e o centímetro: a palavra. Enxergava esse signo com tanta clareza que dizia ser despicienda qualquer tentativa de interpretá-lo, como se, ao vir à tona, fizesse strip-tease à luz do dia. 

Embora gostasse de se valer das reflexões de Riobaldo, personagem de Guimarães, talvez Zé não tenha entendido o que seria “ir até o rabo da palavra”. De fato, acreditava que a bendita teria marcado um “cineminha” com a verdade. E embebido de tamanha convicção, determinou bem antes do último suspiro, os termos de seu epitáfio: “Jaz aqui alguém que cria na palavra. Ela tem o dever inabalável de ser verossímil!” 

Tudo lhe parecia, então, definitivo, como se a palavra não passeasse no tempo e no espaço; como se não ganhasse vida sob vestimentas que desafiam o paradeiro sepulcral do momento e da circunstância. 

Em 1961, eu lhe admoestei sobre a política tentando semear-lhe alguma dúvida. Apontei que a palavra deu um bolo na verdade e, de mãos dadas com a metáfora foram se lambuzar no restaurante da incerteza. Há pouco, o “homem da vassoura”, que iria varrer a corrupção já situada nesse ambiente, teria renunciado ao mandato presidencial. Mas o que chamou a atenção de Zé não foi o ato em si, antes a falta de clareza ao motivá-lo por meio da carta-renúncia: “Sinto-me, porém, esmagado. Forças terríveis levantam-se contra mim e me intrigam ou infamam, até com a desculpa da colaboração”

— Mais um sofista! — dizia Zé revoltado. — Onde vamos parar? 

Eu presumia que as coisas ainda ficariam mais complexas, contudo, ele não acreditava. Naquela época, os políticos almejavam ser mais enigmáticos, a metáfora se traduzia como uma forma de pensar, a exigir maior flexibilidade quanto à exatidão dos significados, de acordo com a conveniência acidental e a veemência. Zé chamava isso de má-fé! Mas essas coisas eram comuns no mundo da política e ele…

— A verdade é como um deus, meu caro, só a verdade e nada mais que a verdade, sendo a palavra a sua maior obreira; a que delimita todo o terreno em meio à escuridão.

Lembro-me de Zé, noutra oportunidade em 1968, ter se irritado com as falas de um certo compositor baiano, que foi questionado sobre a cannabis. O cearense de Salitre, que já vivia há muito sob a garoa de São Paulo, desceu ao Hades quando se deu conta da resposta: 

— É uma boa droga! 

“Mas que desgraça seria isso? É boa ou não é, faz mal ou não?” Zé detestava os poetas, como assim os chamava, aqueles que pareciam se preparar, com o uso da palavra, para a ausência de sentido expresso, a vagueza, o indeterminado.

— Canalhas!!! Jamais terão a fidúcia de quem os lê!

Zé deu sorte… o seu passamento se dera no final dos anos oitenta. Um vaqueiro levantou a mão ao alto em uma encruzilhada, e após aboiar, gritou: “Êi-á…”. Zé, que estaria visitando Salitre, em razão de sua emancipação política, em vez de fazer como o gado, intuiu “venha” e, sentindo-se chamado, atravessou a linha do trem com o seu Fiat 147, que ficou irreconhecível.

Deu sorte… 

Hoje, aqui estaria, entre nós, à beira do abismo e em choque anafilático provocado pela desfaçatez que, sob o manto do cinismo, fez nascer a manipulação no ecossistema da mentira, no coração da República e com ares de juridicidade. Teria ele, como os que aqui continuam, um sorriso enferrujado, o corpo respingado de lodo e lama podre, a escutar, aqui e ali — pasmem os céus! —, que estaria Deus a legitimar os feitos mais ignóbeis e desvairados. Ah, Lampião vivo!

Que Zé continue em paz e firme “até o rabo da palavra”.



Autor; Mauricio Castro

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