sexta-feira, 25 de julho de 2025

Chocolate renasce no sul da Bahia com nova geração de produtores de cacau fino

Chocolate renasce no sul da Bahia com nova geração de produtores de cacau fino


Diante de desafios históricos como a praga vassoura-de-bruxa e os preços defasados, produtores resgatam a atividade com foco em qualidade, rastreabilidade e chocolate de origem e posicionam a região como referência em produtos finos.

Na terra de Jorge Amado e de seus personagens eternizados como Gabriela, do romance Gabriela, Cravo e Canela, uma nova geração de produtores e empreendedores tem investido na produção de cacau artesanal, de olho em um consumidor atento à forma como o chocolate é produzido e também disposto a pagar mais por uma barra do produto.

A região do sul da Bahia já foi uma das maiores exportadoras de cacau, mas perdeu espaço no mercado global depois da chegada da vassoura-de-bruxa, praga que dizimou lavouras no final de 1980 e ainda hoje é uma das principais vilãs.

Costa do Marfim e Gana lideram atualmente a produção global, e o Brasil ocupa a sexta posição na produção mundial do fruto.

Cerca de três décadas depois, filhos e netos daquela geração de produtores buscam novos caminhos para se manter na atividade, com foco na produção de cacau fino, na qual a qualidade ganha relevância em detrimento da quantidade.

Se antes o destino do cacau baiano passava quase exclusivamente pelas tradings e por multinacionais como CargillBarry Callebaut e Nestlé, que ainda mantêm presença industrial na região, o foco tem mudado para a produção local de cacau fino, com rastreabilidade, fermentação controlada e identidade própria, voltado à fabricação de chocolates bean-to-bar (do grão à barra) e também orgânicos.

O fator dos preços da amêndoa também contribuiu para essa virada estratégica, já que a venda do cacau tem como base as cotações negociadas na bolsa de Nova York.

Os produtores percebiam havia anos que a qualidade do cacau da região era alta, mas os preços internacionais então relativamente baixos da commodity não acomodavam essas variações premium. A alta do cacau nos últimos dois anos e meio e a maior demanda pelo produto de maior qualidade mudaram o cenário.

Os futuros da commodity, que rondavam os US$ 2.300 por tonelada no fim de 2022, subiram para até US$ 12.600 em dezembro de 2024. Neste ano, o cacau tem flutuado e perdeu força nos últimos meses, mas era cotado a US$ 8.240 em 24 de julho, ainda bem acima do patamar anterior.

Hoje, a região já é referência na produção de chocolates finos, com diversos produtos premiados dentro e fora do Brasil.

Na edição deste mês do Chocolat Festival, que ocorreu no centro da cidade de Ilhéus, foi possível encontrar dos mais diferentes tipos e usos para o cacau baiano: geleias, cremes, cervejas, além, claro, de diversas variações de chocolate.

“O cacau aqui é mais do que produto: é história, floresta em pé, transformação social”, disse Maurício Galvão, secretário de Turismo de Ilhéus. Segundo ele, 70% da produção da região é feita por agricultura familiar.

A meta, explica, é integrar o setor com educação, cultura e turismo.

“O turista colhe cacau, aprende sobre o processo e entende por que aquele chocolate tem um sabor diferente.”

Quarta geração da família

Marcela Tavares Monteiro, da Cacau do Céu, é uma das que apostaram na produção de cacau para chocolate fino e colheu os frutos com premiações em competições brasileiras e no exterior.

Ela conta que no final de 2008 viajou para o Canadá para estudar sobre a fabricação de chocolate, e, três anos depois, fundou a marca Cacau do Céu junto com a sua irmã, Manuela.

Da quarta geração de uma família tradicional do cacau, Monteiro diz que começou a trabalhar na produção bean-to-bar (do grão à barra) na região de Ilhéus, em 2009, antes mesmo de o termo se popularizar no Brasil.

“A crise agora dos preços não é uma crise para quem é daqui. É um preço justo, porque passamos tempo demais sendo mal remunerados”, disse Monteiro.

A crise mencionada por Monteiro é sobre o aumento dos preços da amêndoa na bolsa de Nova York, que nos últimos anos gerou pressão sobre a grande indústria de chocolate.

Hoje, a sua marca tem duas unidades produtivas no país: uma em Ilhéus, com produção de 500 quilos ao mês, e outra em Santa Rita do Sapucaí (MG), que produz 1,5 tonelada ao mês, mas conta com capacidade para 6 toneladas mensais.

“Antes da vassoura-de-bruxa, o cacau baiano era respeitado. Depois, perdemos qualidade e produtividade. Agora, com o cacau fino, estamos recuperando isso.”

Tavares investiu R$ 5 milhões para expandir sua fábrica em Minas Gerais para abastecer o Sudeste, hoje seu principal mercado consumidor. Em São Paulo, é possível encontrar o seu produto na Casa Santa Luzia.

O carro-chefe da marca são os produtos liofilizados com frutas naturais, como morango e maracujá.

“O desafio não é fazer chocolate. É vender chocolate”, disse.

A matéria-prima de Monteiro tem origem em sua própria fazenda e na de um produtor parceiro, João Tavares, da Fazenda Leolinda, cujas amêndoas dispostas em 340 hectares de terra foram reconhecidas em prêmios internacionais.

Depois de décadas produzindo para a indústria tradicional, ele conta que apostou na fermentação controlada, rastreabilidade e genética diferenciada das amêndoas para se diferenciar na produção de cacau.

Hoje, cerca de 70% da sua produção é considerada cacau fino.

“Com a vassoura-de-bruxa, ou a gente agregava valor ou quebrava. Foi uma questão de sobrevivência”, disse João Tavares.

Tavares explica que ainda não produz chocolates, mas está nos seus planos no futuro próximo.

Segundo ele, o principal desafio é a sucessão dos negócios — algo que foi reiterado por cacauicultores.

“Meus filhos foram para outras áreas, traumatizados pela crise que vivemos. E também há o desafio da monilíase. E o clima, que empurrou a safra para setembro.”

Da árvore à barra

A idealizadora da marca Modaka, Patrícia Viana Lima, é a quarta geração de uma família envolvida com a cacauicultura no sul da Bahia.

Ela comanda a produção de chocolates orgânicos a partir das amêndoas cultivadas na própria fazenda da família, no município de Barro Preto.

A marca, criada em 2012, é fruto de um movimento que começou em 2008, quando seus pais passaram a buscar formas de agregar valor à matéria-prima, que até então era vendida apenas como cacau in natura.

“Somos tree-to-bar mesmo. Tudo começa na lavoura, com cacau da nossa própria origem. E tudo é orgânico, certificado desde os anos 2000”, disse Lima. A fábrica da marca funciona dentro da fazenda.

Com uma média de 1,5 tonelada de amêndoas processadas por ano, e capacidade produtiva de 3 toneladas em anos mais produtivos, a Modaka trabalha com diferentes linhas de chocolate, todas orgânicas, além de produtos sazonais feitos com frutas como acerola, cacau e cupuaçu.

O carro-chefe inicial foram os amêndoas crocantes, mas aos poucos outras modalidades, como a barra e o nibs também ganharam espaço no portfólio.

“Temos uma variedade de tabletes que agrada diferentes perfis”, disse.

A gestão da Modaka hoje envolve cerca de oito pessoas que trabalham sob o sistema de parceria rural, popularmente conhecido na região como meieros.

Nessa modalidade, os meeiros trabalham em um sistema de parceria agrícola, no qual o trabalhador cultiva e colhe o cacau em uma terra que não é sua e, em troca, divide a produção com o proprietário da terra.

Além das parcerias, Lima tem dois funcionários contratados sob o regime CLT na fazenda e uma equipe enxuta na fábrica. “Temos o apoio de instituições como Sebrae e Fieb, que ajudam com projetos voltados à cadeia do cacau e do chocolate”, afirma.

Entre os principais desafios, Patrícia cita a baixa produtividade por conta de doenças como vassoura-de-bruxa e podridão parda, o clima instável, a mão de obra escassa e o dilema da sucessão familiar.

“Ainda sou eu à frente do negócio. Meu pai costuma dizer que a região não trabalhou a sucessão. Mas vejo que agora há um movimento em torno do cacau e do chocolate que está atraindo filhos, netos e bisnetos de volta para perto. A nova geração é mais digital, menos campo. É preciso equilíbrio para garantir continuidade.”

Cabruca, rastreabilidade e chocolate de origem

Na Fazenda Riachuelo, da Mendoá Chocolates, a meta é ampliar a produção própria e manter o foco em qualidade.

Com 2 mil hectares, dos quais 1.800 são dedicados à produção de cacau no sistema agroflorestal cabruca, que integra o cultivo à vegetação nativa da Mata Atlântica, a principal fazenda do grupo localizada em Ilhéus produz chocolate fino com rastreabilidade de ponta a ponta.

“Brincamos que fizemos uma sociedade com a vassoura-de-bruxa. Ela fica com 70% e nos deixa 30%”, disse Riane Brito de Costa, coordenadora de qualidade da Mendoá.

Desde 2023, toda a produção de cacau orgânico da fazenda é destinada exclusivamente à fábrica própria.

O cacau convencional ou que apresenta algum grau de defeito é colhido e comercializado como commodity para as tradings, após ser classificado conforme o grau de qualidade.

A fábrica tem potencial para processar até 3 toneladas de chocolate por mês, mas atualmente opera com uma média de 1 tonelada, sendo que atualmente processa 179 kg por dia no período de entressafra, abaixo do pico anterior de 300 kg/dia.

“A manteiga de cacau subiu entre 20% e 25% este ano. Mesmo assim, seguimos com rastreabilidade total”, afirmou Costa. A maior parte da produção da Mendoá vai para São Paulo, mas os produtos também abastecem o mercado baiano e outras regiões.

A fazenda tem cerca de 100 funcionários na colheita e 26 na fábrica, todos contratados sob regime CLT, explica a coordenadora de qualidade do grupo.

Além do cacau, a Mendoá cultiva frutas como cupuaçu e cajá. A sibira do fruto, que prende as sementes à casca, são vendidas para empresas que produzem ração de peixe, enquanto que a casca do cacau é revertido em adubo.

No terreno da fazenda, há ainda a Escola Lava-Pés, mantida dentro da propriedade para atender os filhos dos trabalhadores. As aulas oferecidas são até o sexto ano.

Aproximadamente 20 famílias vivem na Fazenda Riachuelo, que existe desde 1855 e hoje é administrada com base em um projeto idealizado pelo pesquisador Raimundo Moroó, da Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac) e com investimentos dos irmãos Geraldo e Leandro Almeida.

Para manter a qualidade do produto final, a separação entre o cacau para chocolate e o que vai para o mercado convencional começa na colheita: apenas os frutos no ponto ideal de maturação são fermentados e secos para uso próprio.

“Temos padrões que precisam ser seguidos, inclusive no ponto da colheita. O cacau que não utilizamos é destinado ao mercado de commodity.”

Mesmo com as dificuldades climáticas recentes, agravadas por fenômenos como El Niño e La Niña, que afetam os ciclos de chuvas e de safra e entressafra desde 2022, a expectativa é de retomada gradual da produção.

Segundo Costa, o cacau é uma planta sensível, que reage a variações de temperatura e umidade.

“É um fruto mágico, que se adapta às condições, mas sofre com o frio e a chuva excessiva”.

Um novo olhar sobre a terra

Em Itacaré, a cerca de 75 quilômetros de Ilhéus, a Fazenda Vila Rosa aposta em outro modelo de negócio, que mescla a aposta no cacau com o turismo rural para manter o local preservado.

O americano Alan Slesinger trocou a vida de paisagista em Nova York por um projeto multifuncional que mistura turismo, história, arquitetura e chocolate artesanal.

“Meu foco nunca foi produzir toneladas de cacau, mas mostrar o processo. Chocolate é poesia. Ele fala de amor, de amizade. O chocolate é só o meio”, disse.

Alan conta que vendeu seus imóveis no East Village, em Nova York, em 2006, no auge do mercado e investiu na fazenda na Bahia.

“Eu comprei aqui como quem entra faminto num restaurante e pede duas travessas cheias. Era um sonho”, lembra.

Hoje, a fazenda recebe milhares de visitantes por ano e está próxima do breakeven, conta. Só em janeiro, segundo ele, passaram mais de mil pessoas por ali.

O tour completo com todas as etapas de produção do cacau e a história do casarão da fazenda custa R$ 100 por pessoa.

O cacau cultivado ali vem de árvores antigas, e pouco produtivas. “Minha floresta é fantasma. Árvores velhas, alongadas. Não plantei para alta produtividade”, disse.

Além disso, produzir em larga escala, segundo ele, seria inviável. “Só o salário de um funcionário básico é R$ 30 mil por ano. Para isso, você precisa de muito cacau e minha fazenda é velha.”

Dois terços da receita da Fazenda Vila Rosa vêm do turismo rural de experiência: visitas guiadas, degustações, arquitetura e jardins.

O restante vem da venda de chocolates finos, feitos com o cacau local e comercializados também em uma loja própria no centro de Ilhéus.

O espaço virou referência regional, especialmente em dias nublados, quando se torna uma das principais opções fora das praias.

O projeto envolve entre 16 e 25 funcionários, conta.

“Eu vejo a fazenda como um organismo vivo. Um jardim que sempre está crescendo, amadurecendo, envelhecendo e renascendo”, disse. Aos 59 anos, ele se divide entre surf, criação artística e a gestão do espaço.

“Não sou arquiteto, mas aqui eu posso brincar. Tenho liberdade para criar. E isso, para mim, vale mais do que qualquer planilha de lucro.”

Fonte: Bloomberg

terça-feira, 22 de julho de 2025

O Evangelho Segundo Maria Madalena

 O Evangelho Segundo Maria Madalena


Salvador disse: "Todas as espécies, todas as formações, todas as criaturas estão unidas, elas dependem umas das outras, e se separarão novamente em sua própria origem. Pois a essência da matéria somente se separará de novo em sua própria essência. Quem tem ouvidos para ouvir que ouça."

Pedro lhe disse: "Já que nos explicaste tudo, dize-nos isso também: o que é o pecado do mundo?" Jesus disse: "Não há pecado ; sois vós que os criais, quando fazeis coisas da mesma espécie que o adultério, que é chamado 'pecado'. Por isso Deus Pai veio para o meio de vós, para a essência de cada espécie, para conduzi-la a sua origem."

Em seguida disse: "Por isso adoeceis e morreis [...]. Aquele que compreende minhas palavras, que as coloque em prática. A matéria produziu uma paixão sem igual, que se originou de algo contrário à Natureza Divina. A partir daí, todo o corpo se desequilibra. Essa é a razão por que vos digo: tende coragem, e se estiverdes desanimados, procurais força das diferentes manifestações da natureza. Quem tem ouvidos para ouvir que ouça."

Quando o Filho de Deus assim falou, saudou a todos dizendo: "A Paz esteja convosco. Recebei minha paz. Tomai cuidado para ninguém vos afaste do caminho, dizendo: 'Por aqui' ou 'Por lá', Pois o Filho do Homem está dentro de vós. Segui-o. Quem o procurar, o encontrará. Prossegui agora, então, pregai o Evangelho do Reino. Não estabeleçais outras regras, além das que vos mostrei, e não instituais como legislador, senão sereis cerceados por elas." Após dizer tudo isto partiu.

Mas eles estavam profundamente tristes. E falavam: "Como vamos pregar aos gentios o Evangelho ao Reino do Filho do Homem? Se eles não o pouparam, vão poupar a nós?" Maria Madalena se levantou, cumprimentou a todos e disse a seus irmãos: "Não vos lamentais nem sofrais, nem hesiteis, pois sua graça estará inteiramente convosco e vos protegerá. Antes, louvemos sua grandeza, pois Ele nos preparou e nos fez homens." Após Maria ter dito isso, eles entregaram seus corações a Deus e começaram a conversar sobre as palavras do Salvador.

Pedro disse a Maria:"Irmã, sabemos que o Salvador te amava mais do que qualquer outra mulher. Conta-nos as palavras do Salvador, as de que te lembras, aquelas que só tu sabes e nós nem ouvimos."

Maria Madalena respondeu dizendo: "Esclarecerei a vós o que está oculto." E ela começou a falar essas palavras: "Eu", disse ela, "eu tive uma visão do Senhor e contei a Ele: 'Mestre, apareceste-me hoje numa visão'. Ele respondeu e me disse: 'Bem aventurada sejas, por não teres fraquejado ao me ver. Pois, onde está a mente há um tesouro'. Eu lhe disse: 'Mestre, aquele que tem uma visão vê com a alma ou como espírito?' Jesus respondeu e disse: "Não vê nem com a alma nem com o espírito, mas com a consciência, que está entre ambos - assim é que tem a visão [...]."

E o desejo disse à alma: 'Não te vi descer, mas agora te vejo subir. Por que falas mentira, já que pertences a mim?' A alma respondeu e disse:'Eu te vi. Não me viste, nem me reconheceste. Usaste-me como acessório e não me reconheceste.' Depois de dizer isso, a alma foi embora, exultante de alegria. "De novo alcançou a terceira potência , chamada ignorância. A potência, inquiriu a alma dizendo: 'Onde vais? Estás aprisionada à maldade. Estás aprisionada, não julgues!' E a alma disse: ' Por que me julgaste apesar de eu não haver julgado? Eu estava aprisionada; no entanto, não aprisionei. Não fui reconhecida que o Todo se está desfazendo, tanto as coisas terrenas quanto as celestiais.' "Quando a alma venceu a terceira potência, subiu e viu a quarta potência, que assumiu sete formas. A primeira forma, trevas,; a segunda , desejo; a terceira, ignorância,; a quarta, é a comoção da morte; a quinta, é o reino da carne; a sexta, é a vã sabedoria da carne; a sétima, a sabedoria irada. Essas são as sete potências da ira. Elas perguntaram à alma: ´De onde vens, devoradoras de homens, ou onde vais, conquistadora do espaço?' A alma respondeu dizendo: ' O que me subjugava foi eliminado e o que me fazia voltar foi derrotado..., e meu desejo foi consumido e a ignorância morreu. Num mundo fui libertada de outro mundo; num tipo fui libertada de um tipo celestial e também dos grilhões do esquecimento, que são transitórios. Daqui em diante, alcançarei em silêncio o final do tempo propício, do reino eterno'."

Depois de ter dito isso, Maria Madalena se calou, pois até aqui o Salvador lhe tinha falado. Mas André respondeu e disse aos irmãos:"Dizei o que tendes para dizer sobre o que ela falou. Eu, de minha parte, não acredito que o Salvador tenha dito isso. Pois esses ensinamentos carregam idéias estranhas". Pedro respondeu e falou sobre as mesmas coisas. Ele os inquiriu sobre o Salvador:"Será que ele realmente conversou em particular com uma mulher e não abertamente conosco? Devemos mudar de opinião e ouvirmos ela? Ele a preferiu a nós?" Então Maria Madalena se lamentou e disse a Pedro: "Pedro, meu irmão, o que estás pensando? Achas que inventei tudo isso no mau coração ou que estou mentindo sobre o Salvador?" Levi respondeu a Pedro: "Pedro, sempre fostes exaltado. Agora te vejo competindo com uma mulher como adversário. Mas, se o Salvador a fez merecedora, quem és tu para rejeitá-la? Certamente o Salvador a conhece bem. Daí a ter amado mais do que a nós. É antes, o caso de nos envergonharmos e assumirmos o homem perfeito e nos separaremos, como Ele nos mandou, e pregarmos o Evangelho, não criando nenhuma regra ou lei, além das que o Salvador nos legou."

Depois que Levi disse essas palavras, eles começaram a sair para anunciar e pregar.

Referências

·         KING, Karen. The Gospel of Mary of Magdala: Jesus and the First Woman Apostle. Polebridge Press. Santa Rosa, Ca: 2003 (O Evangelho de Maria de Magdala: Jesus e a Primeira Apóstola).

·         RIJCKENBORGH, J. VAN. (2007). MISTERIOS GNOSTICOS DA PISTIS SOPHIA. [S.l.]: Rosacruz (atual Pentagrama Publicações)

segunda-feira, 14 de julho de 2025

Mafalda me salvou na ditadura (com a ajuda de uma banca de revistas)

Mafalda me salvou na ditadura (com a ajuda de uma banca de revistas)



Perder-se ao longo das grandes avenidas do centro de uma megalópole é fácil. Difícil é encontrar sensação de segurança em meio a tantos passos apressados e comprometidos com o espaço-sem-tempo. Caminho claudicante entre as pegadas alheias, encontro esteio num velho porto seguro: uma banca de revistas. Artigo de luxo em qualquer outra cidade, as bancas preservam um acordo tácito com o passado, as primeiras leituras e a infância.

Na década de setenta, a disposição das revistas, jornais e almanaques comunicavam uma certa hierarquia de saberes. E os sabores também eram localizados em lugares estratégicos. O pirulito do zorro, o caramelo de leite, ficavam muito próximos aos quadrinhos infantis. Já a goma de mascar em tabletes, os cigarros e as pastilhas de menta habitavam uma outra região. Os adultos se entretinham naquele aglomerado, falando em códigos e fazendo muitas mímicas. Seu Zé, o dono da banca coordenava o atendimento. Parecia ser ele quem decidia quem tinha idade para consumir revistas com ilustrações peculiares, quem podia comprar cigarros, refrigerantes de cola e os jornais. Até então, eu só tinha idade para consumir gulodices. Seu Zé, no entanto, enxergou em mim uma fome pelo saber.

Havia um conjunto de revistas que sempre me chamaram a atenção pela capa. Pela disposição na prateleira, não era possível folhear. Havia uma figura exótica, desdentada e caricata que me intrigava. Seu Zé fingia que não me via correndo os dedos gordinhos pela sessão de almanaques. O dono da banca fazia pactos secretos com as pessoas. Tudo no tempo da ditadura parecia estar meio velado. Senti que fui adquirindo patentes quando os doces foram mudando de textura. De repente, seu Zé me ofereceu uma balinha crocante, que começava azeda e terminava explodindo na boca com agradável sabor de surpresa. Bigbol era, na verdade, uma bala transformer. Virava chiclé.

Numa tarde qualquer, vi meu irmão com um exemplar da tal revista, conversando alto, numa ciranda de meninos que tinham o dobro da minha idade. Ainda estava me alfabetizando. O nome daquela revista não fazia nenhum sentido para mim. M A D. Na roda dos escarnecedores (os amigos de meu irmão eram impossíveis), havia uma satisfação enorme em esconder o teor da revista e, ao mesmo tempo, mostrar que eles podiam acessar o código secreto dos adultos. Num momento de vacilo, roubei a revista e, longe da vista de todos, conferi o inteiro teor da publicação. Era crítica social em código morse. Nada entendi. Achei os desenhos estranhos, a tipografia esquisita. Naquela mesma época, descobri os quadrinhos no jornal. Encontrei o amigo da onça. Também passei batido. O mundo era cifrado demais para mim.

Esperei pelo sábado, lavei os tapetes do carro do meu pai, e ganhei uns trocados para comprar doces na banca de seu Zé. Perguntei a ele se havia alguma revista de quadrinhos que eu pudesse entender, mesmo sem dominar a leitura. O seu Zé era um homem muito ocupado, mas diante da minha demanda, ele se inclinou gentilmente e ofereceu um exemplar de Luluzinha. Ele era mesmo vanguardista. Disse, em tom de segredo, que todo mês havia uma nova remessa e que, por sorte, tinha recebido uns exemplares de uma revista com tirinhas de um cartunista argentino.

Aqui na Bahia, quando alguém entende muito de alguma matéria, a gente diz que a pessoa tem os paranauê. Seu Zé tinha o segredo das publicações em suas mãos. Ele me apresentou às telenovelas e, também, a publicação mais marcante da minha infância. A revista Patota tinha tirinhas da Mafalda. Essa menina curiosa e insubordinada ainda se destaca e é recomendada não apenas na sua cidade, mas em toda a América Latina.

— Querida Mafalda, obrigada por encher meus dias de alegria e semear gotículas de rebeldia e descontentamento a minha caligrafia.

O bilhete foi escrito mentalmente e entregue em devaneios ao maior articulador político que conheci. Gosto de pensar que seu Zé, com sua discrição e simpatia, quebrou as pernas da ditadura. Por Antonia Damásio*/A Tarde.com.br

domingo, 13 de julho de 2025

“Tente viver feliz, pois você só tem uma vida. “

 

“Tente viver feliz, pois você só tem uma vida. “

*Filósofo Chinês Ling Yu Tang.

“Você já não tem muitos anos para viver, e além disso não poderá levar nada quando for embora, por isso deve ser poupado mas sem sacrificar seu bem-estar.”
“Gaste o dinheiro que precisa ser gasto, aproveite o que precisa ser aproveitado e doe o que for possível. “
“Não se preocupe com o que acontecerá quando você for embora, porque quando você se tornar pó, não sentirá se você é elogiado ou criticado, se você é visitado no cemitério ou se você é esquecido. “
“O tempo para aproveitar a vida é este momento, e os bens que você tão dificilmente ganhou deve desfrutá-los. “
“Não se preocupe muito com seus filhos, pois eles terão seu próprio destino e encontrarão seu próprio caminho. “
“Cuide, especialmente dos seus netos, ame-os, mime-os, e tente desfrutá-los enquanto pode.”
“A vida deve ter mais coisas para trabalhar desde o berço até o túmulo. “
“Acorde diariamente para desfrutar de mais um dia de vida sem brigas com ninguém ou rancor.”
“Não espere muito dos seus filhos.”
“Os filhos, embora se preocupem com os pais, também estarão continuamente ocupados com seus trabalhos, seus compromissos e com sua própria vida. “
“Muitos filhos que não se importam com seus pais, lutarão pelos seus bens mesmo quando ainda estiverem vivos, e desejarão que logo deixem esta vida para poder herdar suas propriedades e riqueza. “
“Se você já tem 65 anos ou mais, não troque sua saúde por riqueza trabalhando em excesso, pois estará cavando sua sepultura precoce. “
“De mil hectares semeados de arroz, você só pode consumir 1/2 xícara diária, e de mil mansões, você só precisa de um espaço de 8 metros quadrados para descansar à noite, então se você tem comida e algum dinheiro para suas necessidades, não precisa de mais.”
“Tente viver feliz, pois você só tem uma vida. “
“Não se compare com os outros medindo sua fama, seu dinheiro ou seu status social, ou se ufanando por ver os filhos de quem são mais bem sucedidos, e em vez disso, desafie seus filhos a alcançar felicidade, saúde, alegria e qualidade de vida. “
“Aceite as coisas que você não pode mudar, pois se você se importar demais, você pode estragar sua saúde.”
“Crie seu próprio bem-estar e encontre sua própria felicidade, fazendo coisas que te divertem e alegrem diariamente.”
“Um dia sem felicidade, é um dia que você perde.”
“ Tendo bom ânimo, a doença se curará, mas tendo um espírito alegre, a doença se curará mais rápido, ou nunca se aproxima.”
“Com bom caráter, exercício adequado, alimentos saudáveis e um consumo razoável de vitaminas e minerais, você terá vida saudável e agradável. “
“Mas acima de tudo, aprenda a apreciar a bondade em tudo, na família e amigos, pois eles farão você se sentir jovem, revivendo os bons momentos, e as passagens interessantes da sua vida.”
“Dizem que na vida quem perde o telhado ganha as estrelas e assim é. “
“O tempo e as oportunidades são como a água de um rio, que você nunca poderá tocá-la duas vezes, porque já passou e nunca mais vai acontecer.”
“Aproveite cada minuto da sua vida e não rejeite as oportunidades de conhecer o mundo e desfrutar das coisas boas da vida, pois elas podem nunca mais ser apresentadas a você.”
“Nunca repare na aparência, porque ela muda com o tempo.”
“Não procure a pessoa perfeita, porque essa não existe. “
“Procure se desejar, alguém que te valorize como pessoa, e se não a encontrar, desfrute da sua solidão que é muito melhor do que uma má companhia.”
“Acredite em Deus, seja qual for o conceito que você tem dele, e tente desfrutar da vida que é muito curta, desfrutando da família e dos amigos, pois você sairá mais cedo ou mais tarde deste mundo, e ninguém lhe agradecerá.”
“Que a saúde e o bem-estar estejam sempre com você.“

~LIN-YU-TANG

domingo, 6 de julho de 2025

Lalo Leal: “Jornal Nacional reage porque a verdade chegou às redes

 

Lalo Leal: “Jornal Nacional reage porque a verdade chegou às redes”

O sociólogo aponta o alinhamento da Globo com bolsonarismo e alerta: “Nunca houve tanta verdade nas redes, e isso incomoda quem sempre viveu da mentira”.

247 – O sociólogo e professor aposentado da ECA-USP Laurindo Lalo Leal criticou a cobertura do Jornal Nacional sobre os vídeos que circulam nas redes sociais denunciando o “Congresso da Mamata” e cobrando justiça tributária. Em entrevista ao programa Brasil Agora, da TV 247, Lalo classificou a reação da Globo como “histórica” e demonstrativa do incômodo da mídia tradicional com o avanço da comunicação popular e progressista nas plataformas digitais.

“É um momento marcante da relação entre comunicação e política no Brasil. Pela primeira vez, estamos vendo as redes sendo usadas de forma ética e didática para esclarecer o povo. E a resposta da Globo, do Jornal Nacional, mostra o desespero de quem perdeu o monopólio da narrativa. Eles não reagem à mentira — reagem à verdade”, afirmou.

Lalo destacou que, ao contrário do que diz a velha mídia, os vídeos progressistas que viralizam nos últimos dias não propagam ódio, mas sim informação acessível sobre temas complexos como o orçamento público, o sistema tributário e o papel do Congresso nas desigualdades.

“Essas mensagens são claras, afetivas, didáticas. A comunicação progressista, enfim, encontrou um caminho para romper as bolhas sem romper com a ética. O conteúdo é verdadeiro. Não há fake news. E é exatamente isso que está incomodando os grandes grupos de mídia e o centrão”, disse o professor.

O sociólogo denunciou a hipocrisia da Globo ao questionar agora a origem dos vídeos populares, sem jamais ter feito o mesmo com as campanhas de desinformação da extrema-direita. “Durante anos, deixaram rolar fake news, mentiras absurdas contra o Lula e a esquerda. Agora que a verdade está circulando, que as redes estão educando politicamente a população, vêm questionar financiamento? Isso é manipulação descarada”, apontou.

Lalo também alertou para a reação do Congresso diante do novo protagonismo das redes. Para ele, o presidente da Câmara, Hugo Motta, e figuras como Arthur Lira atuam para criminalizar a crítica política e blindar os privilégios do Legislativo:

“A ideia de que não se pode criticar o Congresso é absurda. Estamos falando de um Parlamento que sabotou políticas sociais, traiu acordos e age em defesa de interesses particulares. Eles não querem ser criticados porque foram expostos. E a mídia tradicional está ajudando nessa blindagem”, denunciou.

O professor, que há décadas estuda o sistema midiático brasileiro, afirmou que a campanha contra os vídeos nas redes é, na verdade, um sinal positivo: “O que eles não toleram é a perda do controle. Pela primeira vez, estamos conseguindo furar a bolha com comunicação política honesta. Isso não tem volta”.

Inteligência artificial, manipulação e estratégia

Lalo Leal também comentou o uso da inteligência artificial nas campanhas políticas e defendeu que as forças progressistas invistam na combinação entre redes e mobilização popular — desde que com estratégia e responsabilidade. Ele alertou para os riscos de manifestações desorganizadas que possam ser usadas contra os movimentos sociais:

“A esquerda precisa ir para a rua, sim — mas com consciência, estratégia e memória. Não podemos repetir os erros de 2013. A extrema-direita se infiltra, provoca, grava vídeos e manipula. Não se faz política com ingenuidade”, reforçou.

Segundo o professor, é preciso avançar tanto na produção de conteúdo nas redes quanto na regulamentação das big techs e na construção de plataformas próprias, públicas e democráticas:

“Não podemos ficar reféns dos algoritmos que boicotam nossas pautas. Precisamos de regulação, de infraestrutura pública de comunicação e de mais formação para quem atua nas redes. O momento é de ação inteligente — porque o campo progressista, agora, mostrou que pode disputar de igual para igual.”

Foto: Brasil 247

FONTE: https://www.brasil247.com/entrevistas/lalo-leal-jornal-nacional-reage-porque-a-verdade-chegou-as-redes

quarta-feira, 2 de julho de 2025

Independência da Bahia

Independência da Bahia


A Independência da Bahia é um importante desdobramento dos conflitos entre colonos e portugueses no contexto de independência do Brasil. Concretizou-se em 2 de julho de 1823.

Independência da Bahia é um evento também conhecido como Independência do Brasil na Bahia, tratando-se de um desdobramento da Independência de nosso país. A Independência da Bahia, na verdade, foi a resistência estabelecida por parte da população baiana contra os portugueses e as autoridades locais, que se mantiveram leais à Metrópole.


A Bahia era uma região em grande estado de agitação, possuindo uma população extremamente insatisfeita com a autoridade portuguesa. Isso fez os conflitos com os portugueses se iniciarem em fevereiro de 1822 e se ampliarem após o 7 de setembro. Os conflitos se encerraram quando os colonos capturaram Salvador, em 2 de julho de 1823.

Resumo sobre a Independência da Bahia

  • A Independência da Bahia é como conhecemos a luta nessa província pela Independência do Brasil.
  • Os conflitos na Bahia se estenderam de fevereiro de 1822 até julho de 1823.
  • A Bahia era uma província insatisfeita com o domínio português.
  • A nomeação de Madeira de Melo para comandar as tropas na Bahia contribuíram para agitar a população local.
  • Maria Quitéria foi uma das importantes figuras que participaram desse evento.

Contexto histórico da Independência da Bahia

A Independência da Bahia é um movimento que se insere no contexto da Independência do Brasil, no começo da década de 1820. A insatisfação com Portugal existia em algumas partes da Colônia, mas ainda não era generalizada, e havia regiões leais à autoridade portuguesa.

Além disso, não existia uma consciência nacional, isto é, um senso de identificação dos colonos enquanto brasileiros ainda muito bem definida. Exemplos disso foram os dois movimentos separatistas que aconteceram em Minas Gerais e Bahia no final do século XVIII, por exemplo.

No começo do século XIX, o Brasil e, principalmente, o Rio de Janeiro passaram por grandes transformações. Essas mudanças foram resultado das ações promovidas pelo príncipe regente, D. João. O desenvolvimento e a autonomia conquistada pelo Brasil nesse período, conhecido como Joanino, desagradou a burguesia portuguesa, desejosa de recolonizar o Brasil, submetendo-o novamente aos ditames do Pacto Colonial.

Em 1820, foi iniciada em Portugal a Revolução Liberal do Porto, um movimento que procurava estabelecer limites para o monarca luso, mas também buscava ampliar o controle de Portugal sobre o Brasil, anulando a autonomia que havia sido conquistada no reinado de D. João VI (ele tornou-se rei a partir de 1815).

Esse cenário deu força para que o separatismo ganhasse força no Brasil, uma vez que as elites daqui não aceitavam a vontade portuguesa de recolonizar o Brasil e pôr fim a todos os avanços que haviam acontecido no período Joanino. O movimento em Portugal forçou D. João VI a retornar para Lisboa, em 1821, fazendo Pedro de Alcântara, herdeiro do trono português, assumir a regência do Brasil.

Sob a regência de D. Pedro, a distância entre Brasil e Portugal aumentou drasticamente, uma vez que as ações das Cortes em relação ao Brasil eram cada vez mais intransigentes, aumentando a insatisfação dos brasileiros com relação ao domínio luso. Nesse processo, D. Pedro recusou-se a retornar para Portugal (Dia do Fico), determinou que as ordens das cortes só valeriam no Brasil por meio de sua autorização (Cumpra-se) e, por fim, anunciou a Independência do Brasil, em 7 de setembro de 1822.

A declaração de independência do Brasil não encerrou as disputas e desentendimentos com Portugal, mas, sim, os acirrou em algumas partes do país. Isso porque algumas províncias do Brasil se mantiveram leais a Portugal, o que desembocou nas Guerras de Independência, conflitos armados entre tropas favoráveis à Independência e tropas leais a Portugal.

Causas da Independência da Bahia

A Bahia foi um desses locais onde aconteceram conflitos entre tropas leais a Portugal e tropas favoráveis à Independência do Brasil. Na verdade, a Bahia era um grande foco de insatisfação contra Portugal, mas também era um local considerado prioridade pela Metrópole.

A Bahia havia sediado a Conjuração Baiana, em 1798, um movimento separatista de caráter popular que foi esmagado por Portugal e a semente da insatisfação contra a Metrópole no começo do século XIX. A insatisfação com Portugal era encontrada tanto nas elites quanto nas camadas populares da Bahia, o que gerou grandes conflitos entre colonos e as autoridades investidas pela Metrópole.

No caso da Bahia, os conflitos entre brasileiros e portugueses se intensificaram a partir de 1822, mas a relação era muito tensa desde o início da Revolução Liberal do Porto, em 1820. A relação entre a população de Salvador e as autoridades e tropas portuguesas não era amistosa, e desentendimentos eram comuns.

No contexto da Independência, Portugal estabeleceu como prioridade a manutenção do Norte e Nordeste brasileiro, e, por isso, milhares de soldados foram enviados para a cidade de Salvador, em 1822. Assim, caso a Independência do Brasil acontecesse, o plano de Portugal era manter as províncias dessas duas regiões sob o seu controle.

relação entre brasileiros e portugueses na Bahia se agravou com a nomeação de Madeira de Melo para comandar as tropas portuguesas na província. Essa nomeação irritou a população de Salvador, porque o novo comandante substituiu Manuel Pedro. Sob o comando de Madeira de Melo, as tropas portuguesas foram frequentemente usadas para afrontar e debochar da população, agindo com grande hostilidade.

Muitos confrontos violentos aconteceram entre tropas portuguesas e brasileiros revoltados com o domínio português, causando inúmeras mortes e massacres, como o que ocorreu na Praça da Piedade, em Salvador. Inclusive, considera-se que a guerra na Bahia tenha se iniciado em fevereiro de 1822, tamanha a violência na situação da província. Os conflitos na Bahia, portanto, se iniciaram antes mesmo da Independência do Brasil ter sido anunciada por D. Pedro.

Como ocorreu a Independência da Bahia

Nesse cenário de agitação política em Portugal e no Brasil, os governantes das cidades baianas foram questionados por deputados baianos que atuavam nas Cortes acerca da posição destas diante do cenário apresentado: se eram leais a Portugal ou a D. Pedro. Três vilas anunciaram que estavam leais a D. Pedro, o que causou enorme irritação em Madeira de Melo.

As vilas que anunciaram lealdade a D. Pedro foram Santo Amaro, São Francisco do Conde e Cachoeira. Madeira de Melo, em resposta, determinou, em 25 de junho de 1822, que uma embarcação militar fosse enviada para atacar Cachoeira. A ação gerou uma reação popular, e a embarcação foi atacada, cercada pelos brasileiros em Cachoeira e capturada em 28 de junho de 1822.

Além disso, as hostilidades entre portugueses e brasileiros aumentavam consideravelmente em Salvador, fazendo com que parte da população fugisse para a região do Recôncavo Baiano. As cidades do recôncavo, por sua vez, estavam mais cada vez mais agitadas e alinhadas com D. Pedro. As cidades do recôncavo chegaram a formar um governo paralelo para governar a Bahia.

A situação na Bahia fez com que Portugal enviasse mais soldados para a província para conter a população e reafirmar o controle luso. A situação, no entanto, era incontornável e se agravou mais ainda com a declaração de independência, em 7 de setembro de 1822. O governo sob a liderança de D. Pedro formou um exército às pressas para defender a Bahia.

Essa ação se explica porque após a declaração de independência, a Bahia anunciou lealdade a Portugal, rejeitando adesão ao movimento secessionista do regente. No entanto, a rejeição a Portugal era imensa na Bahia, e a luta se espalhou a partir daí. Os reforços enviados por D. Pedro eram liderados pelo general Pedro Labatut, um mercenário francês.

O general foi obrigado a desembarcar em Maceió, Alagoas, e caminhar com seus soldados até Salvador. No caminho, Labatut foi conquistando apoio ao exército que lutava em prol da Independência do Brasil. Importantes batalhas foram realizadas em Cabrito e Pirajá, mas Madeira de Melo não conseguiu conter as tropas brasileiras, que cercaram a cidade de Salvador.

As tropas leais a Portugal que estavam sob o comando de Madeira de Melo resistiram até 2 de julho de 1823, dia em que a cidade de Salvador foi tomada pelos brasileiros e a Bahia foi reintegrada ao território nacional, sendo leal a D. Pedro. O cerco final a Salvador contou com a ajuda de Thomas Cochrane, que liderava uma esquadrada. Com a derrota, Madeira de Melo fugiu e retornou a Portugal.

Maria Quitéria na Independência da Bahia

Uma figura que recebe grande destaque na história da Independência da Bahia é Maria Quitéria. Em 1822, ela ingressou às tropas que lutavam em defesa da Independência do Brasil, mas o fez sob o disfarce de roupas masculinas, porque seu pai não havia permitido que ela ingressasse no Exército para participar da guerra. 

Ela esteve em importantes batalhas durante as Guerras de Independência, sendo reconhecida como uma soldada disciplinada. Eventualmente, o seu disfarce foi descoberto, mas ela foi mantida no Exército em reconhecimento a sua contribuição na luta contra os portugueses. Com a vitória dos brasileiros nesse conflito, Maria Quitéria foi reconhecida como heroína da Independência, sendo condecorada pelo próprio D. Pedro I.

Por Daniel Neves Silva
Professor de História