quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Franca Viola

Ela tinha apenas 17 anos, e a legislação da época a obrigava a se casar com seu e*tupr4dor ou carregar uma “desonra” para o resto da vida.

Ela recusou.

Em 1965, Franca Viola era uma jovem vivendo em Alcamo, na Sicília, quando tomou uma decisão que mudaria o rumo da história da Itália. Antes disso, porém, ela precisou sobreviver ao que veio pela frente.

Franca havia rompido um namoro com Filippo Melodia, um homem ligado à máfia que não aceitava ser rejeitado. No dia 26 de dezembro de 1965, Melodia e um grupo de homens 4rmados invadiram a casa da família dela. Eles agrediram sua mãe. Levaram Franca à força — e também seu irmão, Mariano, de apenas oito anos, que tentou defendê-la.

Mariano acabou solto. Franca não.

Ela passou oito dias em cativeiro. Foi est#pr4da, ameaçada e pressionada repetidas vezes a aceitar se casar com o agressor.

Porque, na Itália de 1965, essa era considerada a “solução”. Era o que dizia a lei.

O Artigo 544 do Código Penal Italiano permitia que um est*pr4dor escapasse de qualquer punição caso se casasse com a vítima. Esse pacto era chamado de “matrimonio riparatore” — o “casamento reparador”.

A ideia por trás disso era que a união “restituísse” a honra da mulher, supostamente perdida após o est#pro.

A honra dela — não o crime cometido por ele.

Isso não pertencia a um passado distante. Era 1965 — o ano em que os Beatles lançaram “Yesterday” e em que os EUA enviaram tropas ao Vietnã.

Na Itália daquela época, esperava-se que vítimas de est#pro se casassem com seus est*pr4dores ou passassem a vida como mulheres consideradas “manchadas” e indignas de casamento.

Quando Franca finalmente voltou para casa após os oito dias de sequestro, praticamente todos — a comunidade, a sociedade e até alguns de seus parentes — acreditavam que ela faria o que sempre se esperava de uma mulher: aceitar o casamento e seguir a vida carregando a marca da violência.

Franca Viola disse não.

Com o apoio de seu pai, ela rejeitou a proposta de se casar com Filippo Melodia. E fez algo inédito: registrou a denúncia e decidiu levá-lo à justiça.

A retaliação foi imediata e violenta. Sua família foi isolada, suas terras foram incendiadas e seu nome virou sinônimo de “vergonha”. Na Sicília, onde os códigos de honra eram rígidos e a máfia tinha forte influência, desafiar essa tradição significava correr riscos reais.

Mesmo assim, Franca não desistiu.

O julgamento virou um acontecimento nacional. Pela primeira vez, os italianos foram obrigados a encarar a realidade de uma lei que protegia est*pr4dores e punia vítimas. Os jornais acompanharam cada detalhe. O país se dividiu entre quem apoiava a coragem da jovem e quem a atacava por “trazer vergonha” à própria família.

Em 1966, Filippo Melodia foi condenado a onze anos de prisão.

Franca Viola tornou-se a primeira mulher na Itália a rejeitar publicamente o “casamento reparador” e a levar seu est*pr4dor aos tribunais com sucesso.

A repercussão provocou uma transformação profunda. O presidente italiano, Giuseppe Saragat, recebeu Franca oficialmente.

O Papa Paulo VI também a encontrou — um gesto discreto, mas significativo, que mostrava que até a Igreja reconhecia que algo estava mudando.

Em 1968, Franca se casou com Giuseppe Ruisi, um amigo de infância que a amava sem preconceitos, que a via como alguém inteira — e não como uma mulher supostamente “desonrada”. A união deles se tornou um símbolo poderoso: vítimas de violência merecem carinho, respeito e uma vida comum.

Mas a lei demorou a mudar. O Artigo 544 continuou existindo.

Foram necessários mais quinze anos. Quinze anos de mobilização, avanços culturais e outras mulheres encontrando força no exemplo de Franca. Finalmente, em 1981, quando ela tinha 34 anos, o Parlamento Italiano extinguiu de vez o “casamento reparador”.

Estpr4dors deixaram de ter o direito de escapar da punição casando-se com suas vítimas.

Franca Viola — uma jovem de 17 anos que simplesmente disse “não” — ajudou a transformar a legislação de um país inteiro.

Ela nunca buscou os holofotes. Levou uma vida tranquila ao lado de Giuseppe, dos filhos e dos netos. Raramente dá entrevistas. Nunca quis ser símbolo de nada — apenas queria justiça pelo que sofreu.

Mas a história, inevitavelmente, a transformou em símbolo.

Porque, às vezes, a recusa de uma única pessoa em aceitar a injustiça é capaz de abalar estruturas inteiras. Às vezes, a coragem de uma adolescente é suficiente para obrigar uma nação a encarar leis baseadas em vergonha e controle patriarcal.

Franca Viola mostrou que a honra de uma mulher não é definida pelo que fazem com ela — mas pela forma como ela reage.

Ela tinha 17 anos. A lei, o medo, a comunidade e a tradição diziam para ela aceitar.

Ela disse não!

Nenhum comentário:

Postar um comentário