A fome em Cuba virou moeda eleitoral
O plano macabro de Trump e Rubio
Por LEANDRO DEMORI
JUL 20
Fui a Cuba em dezembro e a coisa já estava horrível. Não tinha
gasolina e nem óleo, o que significa não ter luz elétrica, porque boa parte da
geração de energia da ilha vem de termelétricas, que dependem de óleo
importado. Havia também um problema enorme no fornecimento de água: as estações
de bombeamento estavam paradas, sem luz O governo cubano vinha fazendo um
rodízio: a parte oriental ficava um dia com luz, depois outra região, depois
Havana, depois o centro, num revezamento de apagões pela ilha ao longo da
semana, resultado direto de um estrangulamento que se intensificou nos últimos
meses vindos dos Estados Unidos.
Parece estranho e sádico imaginar que a superpotência do Norte
perca tempo com uma ilha no caribe enquanto suas bases são arrasadas nas cercanias
do Irã. Demorou pouco para que me explicassem a estratégia. Enquanto eu estava
vivendo o caos de perto, do outro lado, em Washington, Marco Rubio vinha
tratando Cuba como prioridade pessoal.
A escala do aperto ajuda a explicar o blecaute que vi: desde
janeiro de 2026, o governo Trump aplicou mais de 240 sanções contra o regime
cubano, interceptou pelo menos sete navios-tanque com destino à ilha (um deles,
russo, chegou a ficar parado no mar, mas foi embora) e reduziu as importações
de energia de Cuba em algo entre 80% e 90%. Em maio, Rubio anunciou sanções
específicas contra a GAESA, o conglomerado empresarial controlado pelas Forças
Armadas cubanas, que ele descreveu como “o coração do sistema cleptocrático
comunista” e que responde por pelo menos 40% da economia da ilha. Não é
coincidência que a luz tenha faltado justamente onde eu estava: é a
consequência prática de cortar o combustível que alimenta as termelétricas de
um país que já não tinha margem nenhuma.
A lógica declarada da Casa Branca segue a Lei Helms-Burton, de
1996, que Rubio invoca como mandato legal, e não escolha política: o embargo só
é suspenso com “mudança de regime”, como ele chama o governo. Ele mesmo disse
que os EUA “adorariam ver uma mudança” em Cuba, mas que isso “não significa que
vamos provocá-la diretamente” — ou seja, o objetivo é fazer o sistema quebrar
por dentro, por fome e apagão, quem sabe com revolta de uma população
desesperada, sem precisar de uma intervenção direta que teria custo político
imprevisível.
E é aqui que entra a alavanca eleitoral. Isso é peça central
de um jogo maior, jogado de olho nas eleições de meio de mandato de novembro de
2026. A comunidade cubano-americana no sul da Flórida é um dos blocos
eleitorais mais valiosos do Partido Republicano, e mostrar resultado contra
Havana antes de novembro é uma forma de manter essa base mobilizada e o estado
sob controle republicano. A conexão entre política externa e cálculo doméstico
não é sutil: Rubio, filho de imigrantes cubanos, transformou a pasta de Cuba em
vitrine, e o discurso público mistura punição ao regime com promessa de “uma
nova relação” com o povo cubano — sempre em tom de campanha.
Só que essa alavanca tem um efeito colateral que pode se
voltar contra quem a puxou. Uma pesquisa recente mostrou que 68% dos cubanos e
cubano-americanos consultados no sul da Flórida desaprovam, total ou
parcialmente, as deportações de cubanos sem documentos e sem antecedentes
criminais promovidas pelo governo Trump. Isso ameaça diretamente cadeiras como
a da deputada Maria Elvira Salazar, hoje sob forte desafio. Ou seja: o mesmo
eleitorado que aplaude sanção à Cuba também tem parentes sendo deportados, sem
cometerem crime algum, e a conta dessa contradição chega exatamente no ano em
que o voto cubano-americano deveria estar garantido para os republicanos.
O que eu vi em dezembro — uma ilha sem óleo, sem luz,
revezando blecaute entre regiões — não é um acidente da economia cubana. É o
resultado visível de uma política desenhada em Washington para produzir colapso
como prova de eficácia diante de um eleitorado específico, na Flórida, antes de
uma eleição específica, em novembro.
A tragédia humanitária cubana (inclusive com fome forçada)
virou, mais uma vez, matéria-prima de campanha americana.
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